segunda-feira, 24 de março de 2008

"As Brancas Colinas de Dezembro"

Tu sentavas à janela do no alto do velho sobrado todas as tardes
E contemplavas as brancas colinas de Dezembro.
Distraías assistindo as raras pessoas que transitavam na única rua da vila
Vestindo seus velhos casacos pretos.

O silêncio nos separava em distancias enormes o que era apenas três metros.

Teus olhos queriam ir além, mas no meio estavam as brancas colinas de Dezembro.
Tudo o que se ouvia era o ranger das tábuas do assoalho sob tua cadeira de balanço.
Como o vinho em uma garrafa, nossas vidas foram se esvaziando. Transformando em amargo o que era doce.

Tu esperavas
Eu trabalhava

Tu sentavas à minha sombra
Tua quietude me consumia

As noites de Dezembro eram sempre frias
Nossos corpos não mais nos aqueciam

O tempo nos calou
O tempo nos parou

Dissipou de nós toda a alegria; todo o entusiasmo da vida.
O amor se esvaiu.
O carinho morreu.

A indiferença germinou, brotou e cresceu.
Não éramos mais os mesmos
Éramos estranhos
Éramos perdidos

Lembranças...

Nem mesmo as lembranças nos entusiasmavam mais
Nem sorrisos, nem esboço de sorriso era desenhado em nossos lábios.
Éramos seres esquecidos do nosso passado
Vivendo um presente acaso

Por que isso foi nos acontecer?
Por que nem mesmo nossos olhos querem nos ver?

Os sentimentos de amor parecem ter se transformado em sentimentos de autopiedade.
Doía-me sentir-me assim.
Doía-me sentir-te assim

Todavia, nem uma migalha de afeto me caía às mãos.
Nem um gesto, nenhum toque.
Só a dor
Só a dor

Um inverno após o outro os anos foram se passando
E esquecidos fomos ficando.
Os sinos da igrejinha há muito tempo já não badalavam mais
Não havia ninguém que os balançassem;
Não havia mais ninguém a chamar.

As pessoas da pequena vila se mudando.
Aos poucos foram a abandonando.
Ficando para trás
Perdida entre as brancas colinas de Dezembro

Teus vestidos...

Não mais os tinha novos
E a cada dia foram ficando repetitivos
Cada vez mais finos
Cada vez menos coloridos

E junto com eles, as cores dos teus olhos foram sumindo;
As cores da vida que eles refletiam foram também se desbotando
Até que lhe restasse somente o branco
O branco das colinas de Dezembro

Que por anos contemplaste desta janela, deste sobrado
Que hoje está mais vazio
Que hoje está ainda mais frio

Deus...

Roger silva,
Mcp, 22.05.2006 – 21:02

Retirado de http://poesia-gotica.zip.net/

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