quarta-feira, 2 de abril de 2008

Porque não pude parar p'ra Morte

Porque não pude parar p'ra Morte, ela
Parou p'ra mim, de bondade.
No coche só cabíamos nós duas
E a Imortalidade.

Viagem lenta - Ela não tinha pressa,
E eu já pusera de lado
O meu trabalho e todo o meu lazer,
P'ra seu exclusivo agrado.

Passamos a escola - no ring cianças
Brincavam de lutador -
Passamos os campos do grão pasmado -
Passamos o sol-pôr -

Melhor dizer, ele passou por nós.
E o sereno baixou gélido -
Era de gaze fina a minha túnica -
E minha capa, só tule.

Paramos numa casa; parecia
Um intumescido torrão:
O telhado da casa mal se via,
A cornija rente ao chão.

Desde então faz séculos - mas parecem
Menos que o dia, em verdade,
Em que vi, pelas frontes dos cavalos,
Que iam rumo à eternidade.


Emily Dickinson, de "Uma Centena de Poemas".