quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Chastity e o Anjo da Noite

Casada com o mistério
De algum dia me unir à majestade da noite
Com suas asas e áurea puras
E os olhos nos quais me perco todos os dias...
Os cabelos que se misturam com a escuridão da sua ausência
Me deixando a esperança de algum dia
Reencontrar os lábios que me mantêm viva.
Tão ocultos na noite como o sangue que corre em minhas veias
Que circula, pulsando
Contrariando o veneno da solidão
Que bate nas portas do meu coração
E aperta-o cada vez que vais embora
Fazendo com que esse mesmo sangue
Rasgue meus olhos com minhas lágrimas,
Sangue da minha alma
Que se torna incompleta sem você.


Porém, o anjo da noite voa em direção ao abismo surreal
Já que também se perde em sonhos
E esperanças de novamente encontrar
Aquela que o fez ter asas para voar...
A qual o condenou a ser eternamente um anjo
E desejar trazer para ela a luz celeste.

Luz que apaga o brilho das estrelas
Perante seus olhos
E apenas teu sorriso basta
Para me sossegar à noite
Com sua imagem
O mais nítida possível
Mostrando sua alma com toda a transparência
Quantos as águas do rio de lágrimas que choro quando não estás aqui.

Mesmo tentando esconder suas asas
Já fui humano
E nada do que é humano desconheço
Há algo diferente em seus olhos
E hoje a chuva de prata veio confirmar
Que também és, de alguma forma
Anjo da noite.

Os segundos se tornam a distância impercorrível
Aumentando o abismo de silêncio entre nós
Envenenando nossas almas com a tristeza
Que vem com essa saudade
Me fazendo sonhar acordado
Com a alma que habita em você,
Com o que éramos no passado...
Que se torna pesadelo
Quando vem à minha mente
O grande momento
Em que, em minhas mãos, vagarosamente,
Me pede que realize seu antigo desejo...

“Feche meus olhos quando minha hora chegar”
Foi o que você fez
Sem parar de chorar
Olhando as marcas em meu pescoço
Que me faziam sangrar...
Não era tão ruim
Quanto não poder mais enxergar
Teu rosto preocupado
Com o que eu iria me tornar.

Corroídos pela chuva ácida
Que caía sem cessar,
Desmaiamos juntos
Sem as mãos soltar,
Mas quando os olhos abri
Não estavas mais lá,
Sumistes com o vento frio sem porvir.

Engolida pela escuridão
De tornar-me criatura noturna
Sem alma ou coração...
Sem a tua ternura...
Vagando por becos vazios
Procurando um dia encontrar
O sorriso de alguém
Que um dia jurou me amar.

Enquanto eu a procurava
Mal dormia,
Mal pensava,
Mal vivia
Imaginando o que teria acontecido
Não podia ser verdade,
Não podia ter morrido.

Manchando minhas mãos
Com o sangue que me mantinha
E meu próprio coração
Bombeando o sangue que eu não tinha...
Intoxicada pela sede
E pela condenação,
Presa na rede
Da mais eterna solidão.

Não a encontrava,
Não a sentia,
À noite eu rezava
Para que estivesse viva...
Enquanto fui enlouquecendo
E aos poucos enfraquecendo
Menos me conformava
Com o que estava acontecendo
Não acreditava...
Também estava morrendo.


Me sentia isolada,
Ladra de almas e corações,
Assassina alada
Silenciadora de canções...
Me tornei o sopro
Que destrói o corpo,
Que corrói a alma,
Que trucida a calma...

Meus olhos causavam desespero
Dos que neles ficavam presos
A morte sempre causou medo,
Ninguém conseguiu vencer esse medo...

Medo!
Medo de não encontrá-la,
Medo de jamais vê-la novamente,
Havia anos e eu não vira
Aquela que não saía de minha mente...

Estúpido anjo!
Não sirvo mais para nada...
A eternidade que esbanjo
É inútil, uma triste geada...

O frio não mais me afetava
Pois minha alma já estava congelada...
A cada noite mais mortos
Nas minhas veias envenenadas...

Queimava na minha boca
O gosto da ridícula eternidade,
Minha voz rouca
Calou minha sanidade...

Perdida...
Para sempre?
Amarga eternidade
Que me consumia...

Era um dia qualquer...
Buscava a felicidade
No rosto de qualquer pessoa
Que me devolvesse a sanidade.

Foi quando a encontrei...
A morte me convidava para passear
Num momento, hesitei
Muito tentado a aceitar...

A eternidade já não me valia
E depois de muito pensar
Decidi que eu deveria
A ela me juntar...

Noite fria, noite escura,
Quantas mais irei encontrar?
Queria apenas achar a cura...
O anjo que disse me amar...

O sangue ia faltando,
Minha sede aumentava
Continuei andando
E a visão matou minha alma.

Jogado ao chão um corpo
De alguém que não era minha vítima,
Eu conhecia aquele rosto
E não era dos sonhos que eu tinha...

Meu coração parou...

Ela gritou...

Congelei...

Me arrependi de tudo aquilo...
Não podia estar acontecendo!

Minhas mãos tremendo...

Meu coração desacelerando...

Meu corpo se contorcendo...

A eternidade se desmanchando...

Nossas almas renascendo.




Jejels, 24/09/2008.

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