sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O Corredor

Uma sombra percorria, sem rumo, um corredor estreito. A cada passo a emoção que a congelava se tornava maior, menos suportável e mais difícil de conter. O corredor em linha reta se desdobrara em um caminho sem volta. As nuvens negras que passavam sobre o teto variavam a luminosidade do lugar, que mudava como um pêndulo oscilando entre a penumbra e a completa escuridão. O barulho da chuva contínua enchia seus ouvidos como uma melodia monótona, vazia e fria. Não tinha mais noção do tempo e se perdia em sua caminhada fúnebre e sem sentido; o movimento já era automático, os pés andavam sem a consciência de sua dona. O frio interior era intenso, mas a temperatura física do local a fazia transpirar marcando seu percurso com o suor que não conseguia manter sua temperatura no nível natural. O calor era tão escaldante que chegava a derreter a tintura das paredes que escorria junto ao sangue que as impregnava. O fluído levava seus pensamentos para seu interior, para sua solidão, para o seu abandono.
A chuva aumentava elevando também o desespero que a possuía. Suas lágrimas rasgavam seus olhos inchados e vermelhos que, já acostumados com a falta de luz, buscavam o rosto que a atormentava e tirava sua calma, aquela imagem que permanecera presa em sua mente, degenerando sua sanidade. Entre seus dedos descansavam imóveis uma carta e uma rosa branca cujos espinhos furavam sua carne fazendo pingar algumas gotas de sangue que se perdiam com o suor que molhava o chão. O calor se tornava cada vez maior e fazia seu corpo arder em febre, Sentia sua pulsação enfraquecer a cada passo cansado que a conduzia ao infinito.
As palavras que enchiam a carta estavam gravadas em sua memória: Uma declaração, uma confissão e um pedido de desculpas. Enquanto tudo aquilo ecoava em sua cabeça, começava seu delírio. As gotas de chuva que explodiam no teto pareciam reproduzir as vozes daqueles que ela havia deixado. A que soava mais alta, porém, era a voz daquele a quem a carta era destinada. Aquele quem ela procurava... Seu surto explodia com sua voz, que gritava o nome do seu amor rasgando sua garganta rouca e seca. Foi quando ouviu um trovão e a chuva que se tornava tempestade.
A rosa e a carta caídas ao chão, a loucura tomando conta dela, um coração desesperados e gritos ensurdecedores. Um corpo ensangüentado descansava no ambiente macabro. Cortes em suas mãos e um coração morto que não conseguiu suportar tudo aquilo. Esperanças se diluindo no sangue ainda líquido, ainda quente, que transportara a ilusão que mantinha viva a alma que habitara o recém cadáver. Agora era só mais um fantasma que sublimaria das mentes que ainda o recordavam...
Uma sombra repousava intacta na parede suja de um corredor escuro que começava a receber a luz do aurora.





Jejels, 09/10/2008.

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