quarta-feira, 15 de abril de 2009

Mal entendido

Eram dez da manhã e eu já estava morrendo... nada daquilo fazia sentido. A respiração era constante, meu corpo funcionava perfeitamente... era na alma o meu mau estado. Era o meu ódio que pulsava nas veias e envenenava meus pensamentos. Eu sabia que iria morrer por isso, eu jamais aceitaria o rumo que minha vida estava tomando. O pior de tudo era saber que eu tive tudo ao meu alcance, estava tudo sobre controle quando Augusto apareceu... criatura repugnante, aproveitadora, destruidora de sonhos, envenenadora de mentes! Assassino... Todos culpam o ciúme, mas o que eu sinto é a revolta, a tristeza da perda do que era meu, do que eu conquistei! Parece que todos me viraram as costas... olham para mim como se eu fosse o culpado. Quer saber, não preciso de nada disso! A vida não passa de uma ilusão ridícula em que nos fazem acreditar! A vida é um buraco no qual você cai e te atiram punhais, nos fazem acreditar em felicidade, em beleza, em amor... quando o que fazem na verdade é cuspir em seu rosto e rir enquanto você é humilhado.
Eu a amava... mas o que sinto agora é a amarga sensação da traição. Joana é oura mentirosa, masoquista em quem acreditei por longos anos. Outra aliada dos insetos asquerosos do buraco da vida. Eu a amei, ofereci a ela o sentimento mais nobre que senti desde que nasci. E fui ingênuo o bastante a ponto de achar que ela retribuiria eternamente, como eu... acreditei em seus olhos, em suas palavras... agora eu não tenho mais nada, mas ela era minha! Ela sempre foi minha! No final das contas penso que ela está confusa, está sendo iludida pelo ladrão de vidas. Ele a enfeitiça com suas palavras, mas ninguém a amará mais do que eu. Ela me evitou, mas é a mim que ela ama, ela deve saber disso em algum confim de seu corção sínico. Ela se esquivou de cada lembrança minha, mas não pode fugir de seu amor! Joana está aqui, onde fiquei vigiando há meses. Não aguentarei mais... preciso regatá-la do ser mais repugnante que já encontrei nessa vida.

...


- Olá, meu amor! Eu sei o que sente, mas por que tem medo de mim? Você é a minha Joana, por que você mente para si mesma? Veja, amor! Estou aqui agora, podemos voltar a ficar juntos!

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- Por que relutas quando beijo teus lábios? Não está feliz em me rever?

...

- Joana, você sabe que eu te amo mais que tudo, fale comigo, o que é, meu amor?

...

- É ele, não é? POR QUE ELE ESTÁ AQUI? Ele está em todos os lugares dessa casa! Pensaram que eu não chegaria aqui, não é? Vocês quase conseguiram fugir de mim, mas mudar de país não quer dizer que eu não consiga fazer o mesmo. Eis-me aqui! E você é minha! Você sempre foi minha! Eu te dei o meu amor, a minha vida!! Não negue que você me ama, essa é a verdade! E não chore desse jeito, as suas lágrimas não são de dor, você nem sabe o que é dor.... vou te dizer o que é: é o que eu passei quando soube da sua fuga ridícula! Foi o que eu passei por sua causa! Você não sabe o que é dor...

...

- Isso é dor, mas é apenas físico, porque posso continuar puxando seus cabelos até arrancá-los e não será a mesma coisa! Posso rasgar sua pele com minhas unhas... Vê como dói? Está gritando de dor, chorando... e não adianta implorar, Joana! Você ainda não sabe nem da metade do que eu passei nesses últimos meses!

- O que está acontecendo aqui??

- Ah, chegou o demônio! Vim buscar o que é meu, Augusto!

- Joana, o que ele fez com você? Está sangrando!

- O que eu fiz com ela? O que vocês fizeram comigo?


A discussão terminou em tragédia. Joana permaneceu em silêncio porque estava doente e sua voz havia sumido. Ela ainda amava seu marido e não havia realmente fugido com Augusto. Ele é quem a havia sequestrado e levado para fora do país. Seu sadismo doentio a havia feito sofrer como nunca, torturas, brigas, agressões. Esse era o sentimento que Augusto dizia ser seu amor. Joana não conhecia esse lado de Augusto. Na verdade, ela fora influenciada por ele, atraída por todas as suas promessas de amizade. Mas no fim teve sua vida arruinada por ele. Foi tirada do marido sem ter como revidar, sem ter forças para lutar. Todos os seus desejos foram silenciados, todos os seus sonhos tornaram-se pesadelos... e seu marido, a quem tanto amou, acabou sem entender o que havia acontecido. Fora executado por Augusto, que se suicidou depois que viu Joana pôr fim em sua própria vida ao ver seu amor perdendo sangue no chão, inerte. A culpa que invadiu seu coração a fez perder o controle como nunca, a fez enxergar os erros, tanto os seus como o de todos os que participaram do episódio macabro. Mas ela culpou somente a si, afundando o punhal em seu peito, adormecendo enquanto ouvia a voz de Augusto gritando de agonia. Talvez tenha doído mais nele, com seu egoísmo de querer ter tudo para si, jamais pensando num desejo sequer dela. Mas não cabe a mim julgar ninguém, pois todos somos responsáveis pelo rumo que nosso destino toma. A história de cada um de nós, o que nos acontece... Somos responsáveis por cada passo, por cada ação. Então não basta tomar a culpa para si ou jogá-la para o mundo. A culpa, no final de tudo, é algo que vai ficar para trás como as folhas que caem no outono, como o sangue que estanca no chão.




Jejels, 2009.

Um comentário:

Phillipe disse...

eu já falei que ficou muito bom né?
o final é bem triste mas ficou massa!!
xD