quarta-feira, 29 de julho de 2009

Uma noite na janela


- Entre um balanço e outro do meu coração, espero o momento de perder a razão e de encontrar-te em uma nova emoção. Lembro bem. Eu te encontrava em minha janela, no passado: lindo passado, triste passado, inútil passado. Foi um passado cheio de emoção que rendeu em um presente fora da razão: só sinto a emoção. A emoção de querer te tocar, de poder em ti pensar e de querer te olhar e não mais sentir o ar. Ar sujo, impuro. Ar que sempre me acompanhou, mas nunca trouxe você de volta. Volta. Quando se dará a sua volta? Será que tem volta? Estou em um abismo de emoção, perdendo-me em cada estação, sem ter-te ao meu lado, coração. No entanto, eu sei que vais voltar: tu vais tocar na maçaneta da minha porta, que era nossa, girá-la, abri-la, abraçar-me, tocar-me, sentir-me. Vamos brindar a vida com a nossa emoção. A emoção mais pura e sincera que alguém já sentiu. Ninguém nunca sentiu o que sinto por você. Ninguém nunca pensou o que penso de você. Ninguém. Ah, como é estranho: o nosso amor foi vencendo barreiras, ultrapassando limites, momentos felizes, infelizes e, por fim, tenho-te longe de mim. Por que me abandonaste? Por quê? Não tem motivo... Eu sempre amei você e você foi tirando-me de tua vida aos poucos. Parece que fugiste de mim, nunca mais me ligou, da minha vida se afastou. Lembro-me de nossa juventude. Oh! Tu escrevias cartas de amor: “Isabel, minha flor, eu não existo sem você” Ah, que saudade do meu amor, do meu beija-flor. Não era para tudo acabar assim, não mesmo. A nossa casa sempre guardou o nosso amor, as flores na janela esperavam por você, para ver o nosso amor acontecer. Quanto tempo... Olho eu para o lado e, com lágrimas de dor, constato: já não tenho mais você. Ainda espero por você. Você ainda vai entrar por aquela porta, estarei sentada na cadeira, ansiosa para ver-te. Uma lágrima nasce de meu olho. Mais uma, mais duas, mais dez. Não agüento. Saio da cadeira e jogo-me ao chão, não quero essa emoção, não quero viver sem você; desisto...
Isabel não tinha mais chão. Estava perdida. Nada acontecia. Desde a partida de seu amor, viveu a sofrer, a chorar. Nada mais fazia sentido....Levanto. Lanço-me a ti. Oh! Ainda este chão? Esqueci: não tem asas o coração. Lanço-me a ti sem pensar. Não aguento a dor de esperar: são trinta anos de dor. Pois é... Deves estar lindo: cabelos grisalhos, ombros largos, olhos azuis, homem charmoso e quente. (Risos). Lembro-me de tudo. Até da primeira vez. Foi lindo. Foi tudo, mas passou. O tempo passou e o meu amor não se transformou: ainda te amo. Ainda te amo. Ainda te amo. E volto a te amar, e não me canso de te amar, e volto a te amar. Eu te amo...Isabel estava com o pensamento livre, voando como um passarinho. Apesar de ainda estar lançada ao chão, voava como passarinho....Amo. Este chão está frio, lá fora deve estar um frio... Hoje nós faríamos aniversário de casamento. Quarenta anos. Está frio. Vou abrir minha janela, a nossa janela, e deixarei o vento frio, vento que tu respiraste me levar ao lugar onde tu estás. Vou lá.Isabel decidiu fazê-lo. Ela estava só em emoção, nem sabia que isso poderia lhe fazer muito mal. Isabel já tinha certa idade, era uma pessoa vivida, bem experimentada pela vida. Com um misto de dor e gratidão no coração, Isabel resolveu levantar-se. Levantou-se. Olhou para seu corpo, tirou os sapatos, tirou sua saia e sua camisa. Deixou apenas um colar com um coração transparente, ofertado com muito amor pelo seu beija-flor. Estava frio. Mesmo assim, Isabel caminhou até seu banheiro: abriu a porta, entrou no banheiro e trancou a porta. Olhou-se no espelho, pegou e passou, pela última vez, um lápis de olho. Passou fortemente. Pegou um rímel e o passou lentamente em seus cílios. Estava péssima. Nesse instante, o telefone tocou. Tocou de novo. Isabel não conseguiu ouvir: a porta estava fechada, a porta trancada não lhe permitia ouvir o telefone dele. Ele. Era o seu amado. O telefone parou de tocar. Uma lágrima tentou sair de um olho de Isabel, mas ela segurou: não podia deixar estragar sua última maquiagem. Ele estranhou o telefone não atendido e chorou. Ela apagou a luz do banheiro e seguiu em direção à janela. Sentindo o chão, ela foi bem devagar. Cada passo era um momento: a infância, o primeiro olhar, a vaidade, o primeiro beijo, a primeira noite, os planos, o último dia, o abandono e a janela. A janela estava à frente de Isabel. Ensaiou abrir as cortinas. Pensou. Abriu. Colocou as mãos sobre o vidro. “Está gelado”, disse com um tom melancólico na voz. Em um movimento lento, abriu o vidro da janela. Sentiu um vento forte, um vento frio em seu corpo. Sua cabeça nem estava mais ali, fora tomada pelo vento frio, vento triste. Isabel estava sem razão. Vento forte... Forte, muito forte... O vento entrou e derrubou um retrato de rosto dela com ele, o seu amado. Caiu no chão. Quebrou. O telefone tocou. Isabel já não estava mais ali. Começou a tossir. O telefone parou de tocar. Ele decidiu ir à casa de Isabel. F r i o. Isabel estava fraca. Estava adoecendo: seu corpo já cansado estava a receber uma camada muito fria de ar. A pneumonia estava tomando o seu corpo. Imagem triste. Cena triste: que tristeza é ver alguém se anular assim por conta de um amor.- Vento triste, tome meu corpo. Vento... Ah!As palavras quase que não saiam. Passou o tempo. Passaram trinta minutos. Ele chegou. Tocou a campainha, observou a janela aberta e estranhou. Ninguém atendeu. Foi à janela. Viu o retrato dele com Isabel, quebrado no chão. Estranhou muito a cena. Colocou as mãos sobre a janela e olhou para baixo, onde estava Isabel a tomar vento. Fechou os olhos, olhou novamente. Fez que não acreditasse. Esfregou os olhos, olhou. Gritou. Chorou. Deixou cair no chão a rosa que ofertaria ao seu amor. Em movimentos leves e tristes, saltou à janela e percebeu um bilhete na mão de Isabel. Pegou o bilhete e começou a lê-lo. Chorou profundamente. Entre o passado, o presente, a razão e a emoção, o amado da póstuma senhora decidiu desistir de tudo. Ele não calculou que isso poderia acontecer. Ele nunca se esqueceu de Isabel. Sim, fugiu. Entretanto, fugiu por amor. Estava doente, mal de saúde. Carregava em seu corpo uma doença transmissível, que poderia atacar Isabel. Passou trinta anos se cuidando, melhorando e piorando, em Paris. Ele a amava. Contou ele os segundos, os minutos, os anos, as décadas para encontrar sua dama. E encontrou. Só que morta. Isabel estava morta. Morreu de desgosto, morreu de doença, morreu da razão, morreu da emoção, morreu do vento frio, morreu. Para ele, tudo ali estava estranho. “Será que Isabel se suicidou?”, pensava o senhor.Coração na mão. Emoção sem razão. Desejo de se esquecer e se perder. Desejo de não ter desejo. Vontade de não ter vontade. A cabeça do senhor estava tensa. Ele levantou-se de onde Isabel estava, foi ao quarto dela, cheirou o travesseiro dela. Chorou. Perdeu-se. Pela primeira vez naquela noite depois do ocorrido, pensou:- É isso o que vou fazer. Não há mais o que fazer.Seguiu em direção ao armário de Isabel, puxou a terceira gaveta, tirou os ursinhos de pelúcia que dera à Isabel.- Ela ainda guarda esses ursinhos. Será que está aqui?O beija-flor de Isabel, seu amado, tirou um ursinho. Tirou o segundo, fechou os olhos e colocou a mão no final da gaveta. Sentiu. Chorou. Sentiu aquele objeto. Pegou. Caminhou em direção à Isabel. Ajoelhou-se. Passou o objeto por seu rosto, sentiu o cheiro: era uma arma. Apontou a arma em seu coração e proferiu suas, talvez últimas, palavras:- Meu amor, todos os planos que fizemos juntos vão se realizar. Ele já não conseguia pensar. Começou a dizer coisas que qualquer ser humano em seu estado normal não diria. Pois agora eu vou te encontrar. Vou te encontrar. Para sempre vamos viver juntos... É agora...A arma dispara no peito do distinto senhor. Ele cai ao lado da amada. Uma lágrima, que começou a sair de seu rosto antes do disparo, percorreu o rosto do rapaz e repousou na mão de Isabel, onde estava o bilhete. Silêncio no ambiente.





Rafael Daher, 2009 (retirado de www.recantodosversos.blogspot.com).

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