terça-feira, 6 de outubro de 2009

A casa de vidro


___Por entre hotéis e inacreditáveis paisagens, vagava ainda um resquício da tristeza. Na verdade, Helena jamais esquecera o incidente que havia ocorrido há três anos. Ela apenas guardava para si qualquer sentimento que ainda vivesse dentro de seu coração.
___A viagem prosseguia bem: não ocorrera nenhum imprevisto, conseguira fazer com que Lúcio a acompanhasse sem grandes problemas e férias prolongadas, já que nenhum outro funcionário da empresa quis o período do inverno. O único desconforto eram as lembranças que percorriam sua mente. Os fantasmas que a rondavam dia e noite, sem cessar, atacavam sem piedade nas duras e gélidas madrugadas que se seguiram após o terrível acontecido na casa de vidro. Esse era um lugar onde jamais voltaria a colocar os pés. De longe, uma monumental obra arquitetônica contemporânea, planejada em seus minuciosos detalhes, com vista para a Tatra Mountains. Por dentro era encantadora, com todos os atributos que uma boa casa deve ter, sem contar o conforto que oferecia aos seus moradores. Era a casa perfeita, o melhor lar com quem alguém poderia sonhar um dia...
___A superação daquilo tudo viria, ela estava certa disso, mas algo dentro dela tornava toda a situação mais insuportável. Causava a revolta e, mais tarde, passou a se manifestar como uma grande rejeição. Chegava às vezes ao ponto de chamar pelo nome do garoto – que aos seus ouvidos mais parecia música -, porém, era apenas uma breve ilusão de que tudo teria voltado ao normal. A não aceitação da realidade por Helena tornava tudo mais doloroso para Lúcio, afinal, ele também sofreu bastante quando o inesperado aconteceu. Helena passou rapidamente a guardar tudo para si, fechando-se em seu próprio mundo interior, cheio de sombras e espectros que ela jamais esqueceria. A mudança para a Polônia não saíra como imaginaram e a casa de vidro, em Cracóvia, transformou-se no cenário do pior pesadelo do casal.
___O Hotel Conrad teria sido uma ótima escolha, mas o ambiente espetacular e as exuberantes praias de Punta Del Este não conseguiram afastar os sonhos ruins de Helena nas noites quentes que vieram. Sua alma ainda congelava com as imagens que seu subconsciente resgatava, trazendo à tona o passado desastroso que mudara o rumo de sua vida .Embora não percebesse que as consequências dessa rendição seriam as piores possíveis, ela caminhava cada dia rumo ao seu próprio fim. Morria a cada minuto, enterrada sob a própria tristeza, afogada nas lágrimas que não chorava e que secavam em sua essência. A superação de Lúcio era outra incógnita; jamais conseguira entender como isso poderia ter acontecido: parecia que apenas ela continuava acorrentada pela memória. O mar caía no esquecimento, a areia desmanchava debaixo de seus pés e o vento esfriava constantemente: para ela, nada daquilo parecia real, era como uma ilusão, uma falsa vida que levava.
___Naquela noite, Lúcio voltava do cassino, já cansado do barulho que os hóspedes faziam no local e encaminhou-se para a hidromassagem na tentativa de relaxar – passara o dia cavalgando pelos campos do hotel -. Não encontrando ninguém, foi para o quarto encontrar sua esposa. Helena estava encolhida no chão e parecia estar fazendo algo que há anos não fazia. Lúcio assustou-se ao ver a cena e correu para abraçá-la, reconhecendo o significado daquele momento. Helena finalmente conseguira colocar para fora as lágrimas que se prendiam em seu interior. Chorava como nunca, soluçava, perdia a nitidez de sua visão, mas dessa vez, não a visão da realidade - estivera cega durante muito tempo. E passaram um bom tempo ali, no chão do quarto, ela chorando a perda do filho, ele, tocado pela emoção da mulher, ambos renascendo, abrindo-se para uma nova vida que viria com a aceitação. Sim, a aceitação, pois Helena e Lúcio sabiam que Murilo continuaria entre eles como sempre esteve e tocaria a música que ecoava pela casa de vidro nos dias de primavera.





Jejels, 06 de outubro de 2009.

Um comentário:

Phillipe disse...

11-17-18 - Punta Del Este! (Acho que os números são pra Mega-Sena mesmo xD)

Jéé que legal o conto! Gostei mesmo. É muito importante aceitar a vida como ela é, pessoas queridas se vão mas no fundo sempre estarão presentes ao seu lado. O melhor a fazer é aceitar mesmo, colocar as mágoas para fora e não guardá-las, pois se você guarda, só irá acumular e fica cada vez mais difícil aceitar as perdas. Aproveite cada minuto com as pessoas que ama, pessoas que você sente que realmente se importam contigo. Nem tudo é para sempre, mas podemos fazer com que os momentos com as pessoas queridas durem uma eternidade, basta aproveitar muito bem cada segundo ao lado dessas pessoas e não esconder suas mágoas. Algum dia, pode ser que esses momentos bons se acabem, mas se aproveitasses bem os bons momentos, certamente a aceitação será muito mais fácil!