domingo, 22 de novembro de 2009

Necessária poesia

Em um mundo bombardeado por imagens, saturado de signos, convulsionado pelo frenesi de revoluções por minuto, com cultura self-service já mastigada e mil tentações para cada um de nós nos demitirmos de nossa singularidade, de nossas idiossincrasias, de nosso jeito de ser no mundo e nos transformarmos em objetos em série, a poesia torna-se algo tão inatual quanto escrever com uma pena de ganso e os seus cultores tão excêntricos quanto extraterráqueos. Mas é precisamente por ser anacrônica que ela é essencial. Como disse Waly Salomão, o poeta nunca vai na onda; poeta é aquele que fura a onda e sai do outro lado.
A beleza da poesia não é aquela que se compra na Huis Clos ou na Hugo Boss. É uma beleza inventada para afirmar cada singularidade. Drummond é torto, excêntrico, inadaptado, gauche e, no entanto, todos nós nos identificamos com ele: "É doce estar na moda, ainda que a moda/seja negar minha identidade". Vinícius se derramou em romantismos descabelados e se expressou modernamente em sonetos, quando esse formato já havia sido decretado obsoleto. O cabra João Cabral achava que poesia era coisa meio afrescalhada e inventou uma poesia macha, com língua de pedra, fuzil, bala e faca. A poesia de Manoel de Barros parece um drible de Mané Garrincha, em sua esquiva desequilibrante ao senso comum: "Não era normal/o que tinha de lagartixa/na palavra paredes". Manuel Bandeira extraiu uma luz das coisas simples, despojadas, humildes, que até então não tinham direito à beleza. Cecília Meireles descobriu que tudo tinha alguma música e podia cantar.
Eu tinha uma aluna que garimpava implacavelmente os poemas de Drummond em jornais e livros, e garatujava tudo em um caderno. Andréia está salva, eu dizia. Salva de quê?, perguntou um aluno. Salva da desumanidade, da mesmice, da tolice, do espírito de rebanho. Com certeza, uma leitora de Drummond está vacinada contra o Big Brother Brasil, a axé music, o funk carioca, a música breganeja, o pagodão dos mauricinhos e outras pragas culturais que nos assolam. E, também, é mais provável que lance um livro, CD e faça uma peça de teatro ou um filme.




Jornal Correio Brasiliense, 30 de agosto de 2008. (com adaptações)

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