sábado, 31 de outubro de 2009

Perto de você

Quando começar o frio, dentro de nós
Tudo em volta parece tão quieto
Tudo em volta não parece perto
Toda volta parece o mais certo
Certo é estar perto sem estar
Perto de você, sou tão perto de você, sou tão perto de você

Quando o tempo não passar, dentro de nós
Cada hora é como uma semana
Cada novo alô é mais bacana
Cada carta que eu nunca recebo
É sempre um motivo pra lembrar
Sou tão perto de você

Vida amarga, como é doce a dor da palavra dita de tão longe, dita de tão longe, dita de tão longe...

Quando alguém se machuca, dentro de nós
Toda culpa parece resposta
Nossa busca não parece nossa
Nosso dia já não tem mais festa
Não tem pressa nem onde chegar
Sou tão perto de você

Quando a paz se anunciar, dentro de nós
É porque aquilo que nos cega, mostra um outro lado pra moeda
Que não paga as coisas do meu peito
O preço é me fazer acreditar
Sou tão perto de você

Vida amarga, como é doce a dor da palavra dita de tão longe, dita de tão longe, dita de tão longe

Quando a música acabar, dentro de nós...





O Teatro Mágico.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Eu odeio a internet

Jamais joguei paciência com um baralho de verdade.Se tentasse, nem saberia arranjar as cartas. Dei-me conta disso ao receber, tempos atrás, um e-mail com o título "Você é escravo da tecnologia quando..." A paciência sem baralho era apenas um dos itens de uma longa lista, e não o mais absurdo. Em todas as situações, havia esse efeito de desproporção e despropósito: a mais alta tecnologia mobilizada para o mais estúpido dos fins (se o leitor já jogou paciência no Windows, sabe do que falo). Quis recuperar o e-mail para citá-lo mais extensamente, mas não consegui: perdeu-se no meio de tantas e piores piadas, de correntes, de simpatias, de pirâmides, de abaixo-assinados e de inúmeras mensagens que eu deveria remeter a mais 100 pessoas para ganhar ações da Microsoft ou para salvar aquela menina de 8 anos que sofre de leucemia.
A anedota resume meu recado: a Internet é a propagação indiscriminada da besteira. Alguém dirá que, com essa crítica à cyberabobrinha, estou abordando o problema pela periferia. Ocorre que os gurus da nova era - Nicholas Negroponte, do MIT, para ficar com um ecemplo célebre - afirmam, com razão, que a Internet não tem centro.
Surge daí outra grande bobagem que se tem divulgado não só por fibra óptica, mas também por meio do velho e sujo papel da imprensa: a Internet democratiza o conhecimento. Se o leitor me perdoa a etimologia rasteira, direi que na verdade a rede tem muito demos para pouco cratos. Que poder efetivo uma página pessoal representa para seu autor? Na falta de um centro, somos todos periferia. [...]
Uma objeção previsível é a de que, afinal, eu uso a Internet. O presente texto foi produzido em Porto Alegre, onde moro, e transmitido via e-mail para a redação da SUPER, em São Paulo. E estou, admito, muito feliz de não ter que sair de casa em um dia frio para enfrentar fila nos Correios. Ainda assim, sustento o título aí em cima. Muita gente vai de carro todos os dias para o trabalho, mesmo detestando dirigir.
[...]



Por Jerônimo Teixeira (fragmento do que foi publicado na Superinteressante. São Paulo, ago.2000).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Amanhã é 23

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano
No final de um mês de Agosto...

Há vinte anos você nasceu
Ainda guardo um retrato antigo
Mas agora que você cresceu
Não se parece nada comigo...

Esse seu ar de tristeza
Alimenta a minha dor
Tua pose de princesa
De onde você tirou...

Amanhã! Amanhã!Amanhã! Amanhã!...

Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo
Queria o seu beijo
Outra vez...

Amanhã... outra vez
Amanhã... outra vez.

Amanhã.




Kid Abelha.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cor em luz

Tínhamos uma vida comum,
Cheia de problemas,
Cheia de dilemas.

Desconhecíamos um ao outro,
Os sonhos a dois,
O pânico do depois.

Vivíamos incompletos,
Inacabados,
Sem nexo.

Hoje eu compreendo.

Crescemos com o amor
Como cristais mostrando a cor
Na decomposição da luz.

Prismas, cristais límpidos,
Que refletem a nossa manhã,
Christian.





Jejels, 20/10/2009.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Auto-realização

___"Todo o ser humano se está constantemente projectando em qualquer coisa que existe fora de si próprio, alguma coisa que existe no mundo exterior, ou em alguém que está nesse mundo, uma pessoa, um ser amado, a quem entregue o seu amor. Intrínseca e basicamente é isso que ele procura no mundo exterior. Na medida em que um ser humano, em vez de se autocontemplar e reflectir sobre si próprio, deseja colocar-se ao serviço de uma causa superior a ele ou amar outra pessoa, acaba por se encontrar com a autotranscendência que, a meu ver, é uma qualidade essencial da existência humana." (In FOCO N.º 45, retirado de http://educacao.aaldeia.net)

___Algumas coisas, às vezes, parecem fora de alcance simplesmente por parecerem perfeitas, por se aproximarem de utopias. Porém, a cada dia descubro que o impossível é algo completamente relativo. A vida em sua totalidade dá imensas voltas e quase sempre imaginamos que não podemos controlar o rumo do nosso destino. É aí que as pessoas se enganam.
___Por mais que seja difícil alcançar a felicidade, isso é possível. A dificuldade sempre irá existir, mas ela não passa de um obstáculo ora grande, ora pequeno. Muitas pessoas deixam as dificuldades dominarem a situação e acabam por desistir dos seus objetivos e é exatamente esse comportamento que torna certas coisas irrealizáveis.
___A partir do momento que passamos a acreditar em nós mesmos conhecendo nosso potencial e nossas falhas, estaremos aptos a dirigir nossa própria existência. Um dos fatores que mais contribuem para esse "conhecer a si mesmo" é, definitivamente, o amor. Tal sentimento desencadeia uma série de outros dos mais variados possíveis, mas quem realmente ama estará no caminho certo do encontro com a felicidade.
___Através do amor, vê-se a vida com outros olhos, descobrem-se coisas novas e, assim, conhece-se a si mesmo. Com essa ferramenta em mãos a determinação cresce consideravelmente em razão da importância que o mundo passa a ter: começa uma luta em prol de um mundo melhor no qual você e as pessoas por você amadas viverão.
___O amor fortalece aqueles que o tem no coração, fazendo com que alcancem seus objetivos e experimentem experiências fantásticas. Esse mesmo amor leva à auto-realização e, consequentemente, à felicidade.




~> Dedicado àquele de cujo amor jamais duvidei e no qual encontro forças para alcançar meus objetivos. Eu te amo.



Jejels, 13/10/2009.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A casa de vidro


___Por entre hotéis e inacreditáveis paisagens, vagava ainda um resquício da tristeza. Na verdade, Helena jamais esquecera o incidente que havia ocorrido há três anos. Ela apenas guardava para si qualquer sentimento que ainda vivesse dentro de seu coração.
___A viagem prosseguia bem: não ocorrera nenhum imprevisto, conseguira fazer com que Lúcio a acompanhasse sem grandes problemas e férias prolongadas, já que nenhum outro funcionário da empresa quis o período do inverno. O único desconforto eram as lembranças que percorriam sua mente. Os fantasmas que a rondavam dia e noite, sem cessar, atacavam sem piedade nas duras e gélidas madrugadas que se seguiram após o terrível acontecido na casa de vidro. Esse era um lugar onde jamais voltaria a colocar os pés. De longe, uma monumental obra arquitetônica contemporânea, planejada em seus minuciosos detalhes, com vista para a Tatra Mountains. Por dentro era encantadora, com todos os atributos que uma boa casa deve ter, sem contar o conforto que oferecia aos seus moradores. Era a casa perfeita, o melhor lar com quem alguém poderia sonhar um dia...
___A superação daquilo tudo viria, ela estava certa disso, mas algo dentro dela tornava toda a situação mais insuportável. Causava a revolta e, mais tarde, passou a se manifestar como uma grande rejeição. Chegava às vezes ao ponto de chamar pelo nome do garoto – que aos seus ouvidos mais parecia música -, porém, era apenas uma breve ilusão de que tudo teria voltado ao normal. A não aceitação da realidade por Helena tornava tudo mais doloroso para Lúcio, afinal, ele também sofreu bastante quando o inesperado aconteceu. Helena passou rapidamente a guardar tudo para si, fechando-se em seu próprio mundo interior, cheio de sombras e espectros que ela jamais esqueceria. A mudança para a Polônia não saíra como imaginaram e a casa de vidro, em Cracóvia, transformou-se no cenário do pior pesadelo do casal.
___O Hotel Conrad teria sido uma ótima escolha, mas o ambiente espetacular e as exuberantes praias de Punta Del Este não conseguiram afastar os sonhos ruins de Helena nas noites quentes que vieram. Sua alma ainda congelava com as imagens que seu subconsciente resgatava, trazendo à tona o passado desastroso que mudara o rumo de sua vida .Embora não percebesse que as consequências dessa rendição seriam as piores possíveis, ela caminhava cada dia rumo ao seu próprio fim. Morria a cada minuto, enterrada sob a própria tristeza, afogada nas lágrimas que não chorava e que secavam em sua essência. A superação de Lúcio era outra incógnita; jamais conseguira entender como isso poderia ter acontecido: parecia que apenas ela continuava acorrentada pela memória. O mar caía no esquecimento, a areia desmanchava debaixo de seus pés e o vento esfriava constantemente: para ela, nada daquilo parecia real, era como uma ilusão, uma falsa vida que levava.
___Naquela noite, Lúcio voltava do cassino, já cansado do barulho que os hóspedes faziam no local e encaminhou-se para a hidromassagem na tentativa de relaxar – passara o dia cavalgando pelos campos do hotel -. Não encontrando ninguém, foi para o quarto encontrar sua esposa. Helena estava encolhida no chão e parecia estar fazendo algo que há anos não fazia. Lúcio assustou-se ao ver a cena e correu para abraçá-la, reconhecendo o significado daquele momento. Helena finalmente conseguira colocar para fora as lágrimas que se prendiam em seu interior. Chorava como nunca, soluçava, perdia a nitidez de sua visão, mas dessa vez, não a visão da realidade - estivera cega durante muito tempo. E passaram um bom tempo ali, no chão do quarto, ela chorando a perda do filho, ele, tocado pela emoção da mulher, ambos renascendo, abrindo-se para uma nova vida que viria com a aceitação. Sim, a aceitação, pois Helena e Lúcio sabiam que Murilo continuaria entre eles como sempre esteve e tocaria a música que ecoava pela casa de vidro nos dias de primavera.





Jejels, 06 de outubro de 2009.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Encanto

Cobre derretido,
Ardente metal líquido
E todo o seu magnetismo
Traduzido em lirismo.

Dividido em duas metades,
Simétrica beldade
Unida por invisível elo
E com sabor de caramelo.

A textura lisa é intocável
E o desejo, incomensurável
De mergulhar nesse espectro
Enquanto há tempo.

Pois a sublimação parece inevitável
E meu coração pulsa, acelerado
Almejando essa união.

E limalha que sou,
Caminho sem temor
Sentindo o odor
De carvalho.

A terra molhada,
Pela chuva lavada
Exala esse perfume
Do amor que se assume.

E afundo finalmente
Não mais que de repente
Para permanecer por infinitos anos
Nos teus olhos castanhos.





Jejels, 05/10/2009.

domingo, 4 de outubro de 2009

Maldição pirata (lenda de Davy Jones)



Um dia em terra
dez anos no mar
icemos as velas
para navegar


Um maldição tão suprema
quanto o poema
que vou lhes contar

Um amor que navega
um dia em terra
dez anos no mar

Um coração num baú
guardado ao sul
um pirata maldito
um amor eterno
tem dito
não vai acabar
irei ao inferno
para retornar


Garrafas de rum
coração é só um
tentarei me alegrar
em um dia em terra
dez anos no mar

Cidades pilhar
ouro roubar
mas queria somente
nao mais de repente
ter esse tempo esperar

A morte me espera quando o segredo quebrar
meu coração é o que tens
para com isso acabar


Quando a aurora boreal aparecer no horizonte
apenas me conte
se ainda me ama
e ainda clama
pelo meu dia em terra
para que eu possa novamente aguentar
mais subitamente
dez anos ao mar.





Christian Thomas Oncken, setembro de 2009.

Up - Altas aventuras


Já se tornou lugar-comum dizer que os estúdios de animação demonstram querer agradar a um número maior de adultos a cada filme. Para tanto, utilizam-se de personagens, piadas, cenários, temáticas – assim como de toda sorte de recursos disponíveis – sempre mais abrangentes, que possam ser apreciados por diferentes gerações com a mesma intensidade. O último sucesso da Pixar já vinha demonstrando essa tendência: Wall-E tinha como protagonista um robô bastante carismático e com grande apelo junto ao público infantil, mas também ousou ao abordar temas mais complexos como a solidão, o amor e o sedentarismo como fator importante no descuido de aspectos mais importantes da vida. Agora, com UP –Altas Aventuras, a marca volta a apostar em sentimentos nem sempre tão bem compreendidos por quem ainda viveu tão pouco.


O título, que abriu o Festival de Cannes de 2009 e é dirigido por Pete Docter (Monstros S.A.), começa contando em poucos minutos como Carl Fredricksen (dublado na versão brasileira por Chico Anysio) e Ellie se conheceram, casaram-se e viveram juntos harmoniosamente durante décadas; tudo sem falas, apenas embalado pela bela trilha de Michael Giacchino (de Ratatouille e Star Trek). Ainda crianças, os dois possuíam em comum o gosto por aventuras e o ídolo, o corajoso explorador de terras Charles Muntz. Quando jovens, o casal planejou uma longa viagem à América do Sul, mais especificamente às Cataratas do Paraíso. Mas, por força do destino, a dupla nunca pôde realizar seu maior sonho. Então Ellie falece, deixando sozinho um rabugento e introspectivo Carl. Com a morte da esposa e uma sucessão de acontecimentos que o obrigariam a deixar sua casa para viver em um asilo, Carl decide finalmente partir para a viagem sempre planejada e jamais executada. Para seu desgosto, acidentalmente leva consigo o pequeno escoteiro Russell. O veículo para a aventura é a grande atração: a própria casa do velhinho, sustentada por milhares de balões coloridos e controlada por um sistema de roldanas e panos que resultam numa “casa voadora à vela”.


A relação contrastante entre Carl e Russell renderia um belo quadro barroco. Enquanto o velho viúvo prefere pouca ou nenhuma conversa, o garoto, determinado a conseguir sua última medalha de escoteiro por favores prestados a idosos, é falante, extrovertido e superativo. Russell vê tudo com o entusiasmo de uma criança começando uma vida de aventuras; Carl dificilmente se desarma para o mundo, é apegado melancolicamente a um passado que não volta mais. O que une os dois é uma tocante solidão. O sentimento é bem disfarçado pelo garoto, que demonstra uma comovente necessidade da presença do pai e sequer tem mãe. Já Carl está obviamente preso à saudade que sente de Ellie, sua única companhia durante toda a vida. Toda essa atmosfera de carência inerente aos personagens torna-os criaturas de uma complexidade ímpar no gênero e os une a cada minuto de projeção. Para abrilhantar o elenco da animação, entram em cena Kevin, uma bela e gigante ave com quem Russell logo simpatiza, e o cachorro Dug, responsável por trazer mais comédia à aventura.


Ao final do filme, fica claro qual era a maior e mais importante aventura de Carl. Ao contrário do que ele imaginava, não era chegar às cataratas. O tema, inclusive, já foi explorado pela própria Pixar em Carros (2006), mas UP não chega sequer perto de parecer repetitivo. UP é mais melancólico e muito mais maduro, capaz de agradar tanto às crianças que desejam rir de personagens mais engraçados, quanto aos adultos que já viveram boa parte de sua vida e compartilham de alguma parcela da melancolia que ronda Carl, sua casa e suas lembranças. A nova proposta da Pixar é capaz de nos fazer repensar nossas relações com o próximo e os sentimentos que nos fecham para tantas descobertas. Independente da idade que se tenha, é possível escolher o entusiasmo de uma criança disposta a descobrir o mundo ou deixar limitar-se por uma instrospecção pronta a recusar novas experiências. Curtir UP é umas das boas.




Por Érika Zemuner.