quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fábula de um arquiteto

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Até que, tantos livres o amedrontando,

renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero, com confortos de matriz, outra vez feto.




João Cabral de Melo Neto.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ainda te necessito

"Ainda não estou preparado para perder-te
Não estou preparado para que me deixes só.

Ainda não estou preparado para crescer
e aceitar que é natural,
para reconhecer que tudo
tem um princípio e tem um final.

Ainda não estou preparado para não te ter
e apenas te recordar
Ainda não estou preparado para não poder te olhar
ou não poder te falar.

Não estou preparado para que não me abrace
se para não poder te abraçar.

Ainda te necessito.

E ainda não estou preparado para caminhar
por este mundo perguntando-me: Por quê?

Não estou preparado hoje nem nunca o estarei.

Ainda te Necessito."




Pablo Neruda (Tradução Lustato Tenterrara retirada de http://www.luso-poemas.net).

domingo, 22 de novembro de 2009

Necessária poesia

Em um mundo bombardeado por imagens, saturado de signos, convulsionado pelo frenesi de revoluções por minuto, com cultura self-service já mastigada e mil tentações para cada um de nós nos demitirmos de nossa singularidade, de nossas idiossincrasias, de nosso jeito de ser no mundo e nos transformarmos em objetos em série, a poesia torna-se algo tão inatual quanto escrever com uma pena de ganso e os seus cultores tão excêntricos quanto extraterráqueos. Mas é precisamente por ser anacrônica que ela é essencial. Como disse Waly Salomão, o poeta nunca vai na onda; poeta é aquele que fura a onda e sai do outro lado.
A beleza da poesia não é aquela que se compra na Huis Clos ou na Hugo Boss. É uma beleza inventada para afirmar cada singularidade. Drummond é torto, excêntrico, inadaptado, gauche e, no entanto, todos nós nos identificamos com ele: "É doce estar na moda, ainda que a moda/seja negar minha identidade". Vinícius se derramou em romantismos descabelados e se expressou modernamente em sonetos, quando esse formato já havia sido decretado obsoleto. O cabra João Cabral achava que poesia era coisa meio afrescalhada e inventou uma poesia macha, com língua de pedra, fuzil, bala e faca. A poesia de Manoel de Barros parece um drible de Mané Garrincha, em sua esquiva desequilibrante ao senso comum: "Não era normal/o que tinha de lagartixa/na palavra paredes". Manuel Bandeira extraiu uma luz das coisas simples, despojadas, humildes, que até então não tinham direito à beleza. Cecília Meireles descobriu que tudo tinha alguma música e podia cantar.
Eu tinha uma aluna que garimpava implacavelmente os poemas de Drummond em jornais e livros, e garatujava tudo em um caderno. Andréia está salva, eu dizia. Salva de quê?, perguntou um aluno. Salva da desumanidade, da mesmice, da tolice, do espírito de rebanho. Com certeza, uma leitora de Drummond está vacinada contra o Big Brother Brasil, a axé music, o funk carioca, a música breganeja, o pagodão dos mauricinhos e outras pragas culturais que nos assolam. E, também, é mais provável que lance um livro, CD e faça uma peça de teatro ou um filme.




Jornal Correio Brasiliense, 30 de agosto de 2008. (com adaptações)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Exorcismo

As horas passam lentamente
Como se o tempo estivesse congelando-se.
Lentamente...

E tudo o que eu queria era permanecer,
Ter esse controle, esse poder.
Tudo o que eu queria era sobreviver.

Queria permanecer em meu lar,
Onde tudo é perfeito,
Onde é o meu lugar,

Mas hoje encontro o frio,
A solidão do vazio
Longe do que era meu.

E a cada lenta hora que se arrasta,
Mais uma fração de minha alma se alastra
Para fora do seu coração.





Jejels, 20/11/2009.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ele...

É o abalo que me estremece corpo e coração
É o sol que brilha dentro do meu sonho azul
É labirinto em delírios de loucura e paixão
É bússula que guia meu olhar rumando o sul

É pássaro que canta nas minhas manhãs douradas
É o sussurro aconchegante na noite chuvosa,
É a saudade vagarosa invadindo as madrugadas
É na poesia, a minha rima mais gostosa

É luz branda que reflete o bem em minha retina
É o abraço, o afago , a proteção e a liberdade.
É a canção serena que me embala e me faz menina.
É do meu riso, o brilho, a paz e a verdade

Ele é meu anjo de luz, meu mensageiro
No pensamento, meu desejo mais profundo
É o presente, meu momento, amor verdadeiro
Ele é na vida o que mais quero neste mundo!



Victoria Silva (retirado de http://www.poemasdeamor.com.br).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sentimento em gotas


Assim que nasce, toda pessoa chora. É como se precisasse avisar que chegou viva e saudável ao mundo. Mas não é a capacidade de berrar a plenos pulmões que torna o ato de chorar tão humano - e, sim, as lágrimas que o acompanham.

Em algum lugar do passado, um de nossos ancestrais desenvolveu uma conexão neural entre a glândula que fabrica lágrimas e as regiões dos cérebros que produzem, percebem e expressam sentimentos.

Produzimos três tipos de lágrimas. As basais (que umedecem os olhos) e as reflexivas (secretadas em resposta a um estímulo agressivo, como um cisco) compartilham composição química muito semelhante. Já as emocionais têm conteúdo particular.

Relacionamentos complexos pedem formas de comunicação igualmente complexas. E, algumas vezes, as lágrimas, com seu conteúdo intenso e explícito, revelaram-se uma vantagem adaptativa de nossa espécie. Elas combinam a emoção primordial com a capacidade cerebral de processá-las e nos ajudam a expressar sentimentos que subsistem além do alcance das palavras. E, algumas vezes, as lágrimas nos levam aonde a linguagem verbal não pode chegar.





Chip Walter. Sentimento em gotas. In: Mente & Cérebro, fev./2007, p. 81-3 (com adaptações).

domingo, 15 de novembro de 2009

Presença abstrata

É nessa tua falta de estar,
Nesse teu silêncio,
Na falta do teu olhar
Que eu te ouço realmente.

E posso ouvir teu coração junto ao meu,
Batendo em uníssono,
Embalando-me em meu sono,
Nesse leve descanso teu.

Pois sei que estás perto de mim
E que mesmo na distância física
É esse teu perfume carmim
Que em minha memória fica.




Jejels, 15/11/2009.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Retorção

E nos ferventes raios de luz deságua minha tristeza
Plena em sua solidão, recheada da sua frieza.

E nos galhos tortuosos pendura-se meu coração:
Um músculo morto quase caindo no chão.

E nos teus olhos envenena-se minha alma,
Meu ser se perde nesse trauma.




Jejels, 12/11/2009.

Pedaço de mim


Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus.




Chico Buarque.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A rosa e a chuva

A rosa no campo
O céu traz seu pranto
Sem nem avisar
Para a relva molhar.
A chuva caiu
Meu coração se partiu
Mas o sol voltou
E a rosa chorou...



Lucca L'Abbate Sudano, 2006.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Epifania


Noite adentro floresce o perfume.
Na bruma escura teus cabelos encontram a camuflagem,
Uma perfeita máscara à qual não sou imune.

E os olhos cintilantes encontraram sua sina
Quando os olhos castanhos fitaram a menina.

Não resta nada a fazer.
Não resta nada.
Absolutamente nada.

E naquele momento percebi
Que o sentimento me havia invadido.
Naquele instante percebi
Que você era meu desejo proibido,
Meu sonho silencioso,
Meu anjo destemido...

É você quem eu amo.



Jejels, 02/11/2009.