sábado, 10 de abril de 2010

Descoberta


A rua aumentava a cada segundo. Parecia fugir de mim, estender seu tamanho para que eu nunca chegasse ao final. E lá estava você, sentado à mesa de uma cafeteria, lendo um livro de capa azul marinho. A chícara de capuccino ainda parecia cheia - eu podia ver a fumaça saindo dela. Seu casaco de cor desbotada combinava com o cachecol de lã escura que aquecia seu pescoço. Fazia algum tempo que a neve havia chegado à cidade, mas mesmo no frio, seus cabelos castanhos e ondulados estavam sempre à mostra, dançando com a passagem do vento.
Seus olhos percorriam as páginas e seus dedos passavam-nas numa velocidade que eu já conhecia, mas eu continuava sem conseguir me aproximar. O frio era demasiado, mas meu coração ardia à simples memória de meus últimos meses... me afastar você realmente me fez bem, disso eu não tinha dúvidas. Seu jogo de sentimentos e psicologismos me machucou demais, eu não sei lidar com eles - e nunca soube. Você marcou todos aqueles anos da minha vida... você significava muito mais que qualquer outro, mas simplesmente jogou fora. Você me fez oscilar entre a euforia e a desilusão em questão de horas, abalando meu emocional cada vez que nos víamos. Ouvir seu nome se tornou um misto de nervosismo e ansiedade e fazia emergirem os sentimentos contraditórios que você plantou em mim.
Nós chegamos tão perto de estarmos juntos... ou talvez tivesse sido só mais um pensamento evasivo da minha mente confusa. Até hoje, não conseguiria dizer com certeza se fui algum dia o que você foi para mim. Mas agora, tudo mudou. Inclusive eu. E quando olho para trás, encontro você em minhas memórias, mas a adimiração de antes é, agora, apenas incompreensão. Depois de ter tudo nas mãos durante cinco anos, você só resolveu me procurar no último momento, quando eu já estava destruída pelas suas indecisões.
E agora, vendo você tão perto, posso dizer que já não sou a mesma. A vida criou mais um ponto de interseção em nossas rotinas... mas o máximo que consigo fazer é ficar aqui, do outro lado, observando você em sua leitura, sentindo a neve caindo em minhas roupas, esquecendo o tempo que corre e descobrindo que meu amor platônico foi finalmente enterrado.




Jejels, 10/04/2010.

Um comentário:

NaTy disse...

Que boniito!
Adorei, Jejels!!
beeijo