sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Melancolia



Que noite soturna a vir aterrar nossos corações!
Que sombra de lua a ocultar nossas feições!
Que escuridão imprevisível a atingir multidões!

A realidade caminha de encontro a nós,
Inexorável chuva a corroer nossos alicerces,
Certeza única de que tudo o que vive, perece.

Que imensidão a nos contaminar de desarmonia!
Que confirmação de que só vivemos a hipocrisia!
Que grandeza exuberante e devoradora
A do planeta Melancolia!






Jejels, 30/12/2011.

Feliz ano novo

Abro os olhos e um novo dia nublado me acolhe com um sorriso tímido. Depois de um bom tempo trabalhando, essas férias são mais que merecidas e fico feliz por poder estar aproveitando ao máximo, mesmo que isso signifique acordar às 6h30 todos os dias para fazer exercícios. Aliás, a única parte difícil é sair da cama, não tem nada melhor que começar o dia assim, parece que renova as minhas energias e me deixa pronta para um novo dia.

Depois de me esforçar bastante no spinning, volto para casa e tomo uma ducha refrescante cantarolando músicas brasileiras que há tempos nem lembrava mais. O espírito de ano novo estava tomando conta de mim, fazendo-me esquecer de todos os problemas desse ano turbulento que chegava ao fim. E mesmo que meu coração estivesse abalado o suficiente para que a palavra "felicidade" parecesse um tanto forte para o momento, eu estava começando a me sentir mais leve, a sentir uma certa paz, como se você ainda estivesse aqui.


A tarde passou lenta enquanto eu preparava o creme de sonho de valsa para a sobremesa que seria servida após a ceia de hoje à noite. Cozinhar havia se tornado uma mania desde que você se foi. Era uma maneira de me manter ocupada e de continuar aprendendo coisas novas. Além disso, você adorava nossas tardes gastronômicas em que resolvíamos fazer o que desse na telha para comer no jantar. Era uma forma de manter você por perto.


À noite, nem me surpreendi com a decoração que minha irmã fez na casa para a festa de revellión. Afinal, não poderia ter esperado menos, como de praxe, ela havia enchido o ambiente de luzes, toalhas brancas e douradas, as mesas fartas de tira-gostos daqueles que nos dão água na boca só de olhar... a festa estava perfeita, ainda mais com a música gostosa que preenchia o ambiente com mais expectativa, essa esperança de fim de ano que nos enche de vontade de mudar o mundo nos próximos 365 dias.

Tudo estava tão harmonioso que a sua falta encaixou-se ali com a minha imensa vontade de tê-lo naquela atmosfera familiar, onde era o nosso lugar. Pensava em você a cada momento, a cada música mais animada, lembrando de como você costumava me puxar pela mão e me levantar do sofá para dançarmos qualquer passo improvisado que plantava sorrisos nos rostos de todos ali presentes; lembrava das suas piadas simples e, às vezes, meio esquisitas, mas que sempre me faziam dar aquela risada boba; e também do modo que você reclamava ao ver meu prato cheio de frutas e saladas enquanto você comia cheio de gosto aquele pedaço suculento de filé...


Quando a contagem regressiva já estava próxima, porém, ocorreu algo inusitado: minha irmã me disse que havia uma surpresa para mim. O que posso dizer? Logo imaginei, claro, que ela havia trazido mais um de seus presentes de ano novo, desses que eu sempre dizia serem desnecessários, uma vez que ela já havia me coberto com uma montanha deles no dia 25 de dezembro. Mas dessa vez, eu havia me enganado. Primeiro porque não se tratava desse tipo de presente, segundo, porque não era nada desnecessário. Enquanto o ano caminhava ininterruptamente ao seu fim, ela pronunciou as palavras que me deixaram simplesmente sem uma reação diferente da incredulidade.


Não poderia ser verdade o fato de você estar aqui. Era simplesmente inpossível e mesmo que depois de todos esses anos separados, eu ainda não tinha tido tempo de superar sua partida, apenas de tentar conviver com a imensa falta que você me fazia. Sei que essa ausência era necessária e que você deveria reorganizar sua vida, mas depois que perdemos contato, pensei que nunca mais o veria. Diante da revelação, é óbvio que não acreditei, só poderia ser brincadeira - e, diga-se de passagem, uma brincadeira de mau gosto.


A contagem regressiva começou e o que se seguiu foi que eu duvidei e ela abriu a porta para mostrar que era verdade: lá estava você, com uma blusa de lã branca, calça ligeiramente folgada como sempre usava e um par de sapatos que denunciavam seus pés exageradamente grandes perto dos meus de tamanho 36. Um sorriso enfeitava seu rosto que, apesar do tempo, permanecia tão sereno e terno quanto eu havia guardado na memória; os olhos cor de cobre estavam doces, como que cobertos de mel, ou talvez seja mesmo de chocolate derretido, daqueles que só de olhar, já consegue desarmar todas as nossas defesas. E aqueles braços de pele macia eram aqueles que me abrigaram havia tanto tempo, aqueles que eu desejava ter ao meu redor todas as noites, ao deitar em minha cama, aqueles cuja textura eu imaginava sentir ao fechar os olhos, num último momento antes de sucumbir ao sono...


3, 2, 1: Feliz ano novo, meu amor!






Jejels, 30/12/2011.


Pauta para a 98ª edição conto/história do Bloínquês.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Essa saudade

Doce sentimento
Que chega em meu peito
Leve, flutuando,
Suspirando arpejos de sorriso.

Doce lembrança
Daquelas últimas noites
Em que nos teus braços, repousava
Como se nada mais importasse.


Jejels, 29/12/2011.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Carta nostálgica

Lu,

Engraçado como o tempo passa às vezes tão sorrateiro perante o dia-a-dia tão atribulado que vivemos esses anos todos. Parece que foi ontem que estávamos todos ali à mesa da cozinha discutindo como seria quando você tivesse 15 anos e eu, 18, falando como se isso estivesse tão distante, como se ainda fosse demorar uma eternidade. E aqui estamos nós hoje, já passei dos 18 há muito e tanta coisa mudou! Pensávamos que a vida adulta era algo tão distante, tão intangível... sinto falta dessa ideia de criança de que com 20 anos já se é velho e maduro o bastante, parece até um ser de outro planeta. Hoje percebo que esse ser de 20 anos, apesar de realmente estar iniciando a fase adulta da vida, cheia de mudanças significativas – e, cá entre nós, assustadora -, continua guardando um pedaço dessa criança interior, ainda cultiva em si tantos medos, tantas inseguranças... não, não sou aquela pessoa forte que imaginava que seria quando chegasse a essa faixa etária. Na verdade, há vezes em que me sinto tão frágil que tenho que fugir ao cômodo mais próximo para descarregar as angústias, raivas, medos e dores imediatamente após trancar a porta. E chorar compulsivamente ao ponto de não conseguir conter os soluços, sentir as lágrimas queimando até os olhos incharem e ficarem tão vermelhos que minha íris azul adquire um aspecto um tanto esquisito.
Bem, mas isso não vem ao caso. Hoje eu joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim. O fato é que estava limpando meu quarto, dando aquela geral para ver roupas e artigos que não me são mais úteis e dar a quem precisa e acabei encontrando aquela caixinha preta e azul que você me deu de presente certa vez. Foi um natal alegre aquele. Apesar de tudo o que tinha acontecido em nossa casa nos dias que o antecederam, no final das contas, o espírito de natal deu um jeito de segurar a magia ao menos na noite de 24 de dezembro. Sim, a noite foi ótima, pudemos nos desligar dos problemas e nos juntar aos nossos primos, então trocamos presentes e tudo correu de forma tão boa, numa atmosfera tão gostosa de amizade e companheirismo... havia sim, naquela noite, um espírito familiar de que me recordo bem e que gostaria de poder reviver algum dia. Desde que viajei para continuar estudando depois da faculdade, sinto imensas saudades de você e de todos. Até as brigas parecem distantes, elas fazem parte da nossa convivência, mas sempre se sobressai esse desejo imenso de revê-la, assim como a papai e mamãe. Achar aquela caixa me lembrou dessa nossa noite de felicidade em que nem passava pela nossa cabeça que tudo mudaria tanto nos anos seguintes! Lembro-me que você conseguiu ingressar na faculdade e tudo foi uma festa quando soubemos. Você estava tão animada para terminar o ensino médio, foi completamente diferente de mim em termos de se adaptar à vida de universitária. Sempre achei que você se sairia melhor nisso que eu. Você sempre soube se virar mais que eu, mesmo sendo a irmã mais nova. Eu sempre fui muito dependente de tudo e de todos, gostava de me acomodar com esse tipo de coisa e não sabia resolver meus problemas sozinha. Resistia às mudanças ao máximo que podia, mas chegou a minha hora de traçar meu próprio caminho e quando me encontrei sozinha sem ninguém além de mim mesma para resolver minhas questões, bem... isso foi assustador.
Fico a imaginar como está tudo por aí. Faz algum tempo que não recebo notícias suas e sinto falta do sorriso bobo que germina em meu rosto quando descubro uma correspondência sua em minha caixa de correio. Tenho escrito pouco também, sei disso, mas você sabe como é corrida essa rotina atarefada de fim de ano; muitos trabalhos a entregar, contas a pagar, problemas a resolver e ainda presentes para comprar – é claro que vou mandar os presentes de vocês! Ah, sim, espero que você tenha parado com sua pequena neurose de não comer doces, porque agora que lembrei daquela caixinha... prepare-se, porque vou dar um jeito de arrumar os melhores chocolates daqui para mandar no natal assim como você me entregou aquela caixa que fizemos juntas e que você encheu de chocolates para me presentear na madrugada de 25 de dezembro fazendo o maior mistério antes da data para que eu não descobrisse para quem você a daria.
Ah, quanta saudade! Quanta saudade de tudo e de todos! Espero poder retornar logo, talvez consiga concluir o curso em um ano ou dois, mas minha vontade é de tomar um avião hoje mesmo para abraçá-los novamente e passarmos o natal em família como sempre fazíamos antes de eu ter de viajar.
Enfim, está ficando tarde e é melhor eu terminar a carta por aqui (da última vez, escrevi até as 5h da manhã e estava acabada na aula por não ter dormido mais que 2 horas). Espero poder receber notícias suas logo e sentir que estamos menos longe uma da outra. Se puder, irei vê-los nas próximas férias, mas para isso tenho que conseguir o estágio esse semestre, porque o custo de vida aqui é bem diferente...


Mil beijos de saudade para você, mamãe e papai.
Amo vocês.





Jejels, 28/12/2011.
Pauta para a 100ª edição musical do Bloínquês.

Meu paradoxo

Faltam-me palavras. E também o ar. E o chão não tarda a ceder sob meus pés. O equilíbrio se esvai, dando lugar à tontura. Os pensamentos turbam-se, já sem rumo, sem nexo, embaçados em minha cabeça. Embriaguez, ah, embriaguez... meu paradoxo preferido. Tira-me tudo e ao mesmo tempo ganho o mundo. O meu mundo – você.


Jejels, 20/12/2011.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.



Pablo Neruda.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Terça-feira chuvosa

Palavras já ditas,
Perfumes passados,
Memória agora lida
Nos vestígios molhados.

A rua suspira,
Inspira a presença doce
Que por ali passou.

O sol aquece
E faz evaporar
O resto de chuva que insistiu em ficar.

E mesmo tendo o dia chegado ao fim,
Ainda sinto tudo pulsando,
Remexendo-se numa lembrança,

Labareda que dança.



Jejels, 14/12/2011.
Pauta para a 66ª edição poemas do Bloínquês.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Soneto do olhar magnético

Alguma coisa pisca, suave,
Tímido brilho
Quase imperceptível.

E chama meus olhos para si,
Em silencioso convite
Sincero, irrecusável.

Calor afável emana
E pouco a pouco, encanta
Numa gradação luminosa,
Crescente chama vertiginosa.

Por fim, derrete-se o cobre metálico,
As íris inundando, hipnótico,
Sugando para si todo o ar...
E sou incapaz de resistir a esse olhar.




Jejels, 05/12/2011.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Descansa coração

Cansei de tanto procurar
Cansei de não achar
Cansei de tanto encontrar
Cansei de me perder

Hoje eu quero somente esquecer
Quero o corpo sem qualquer querer
Tenhos os olhos tão cansados de te ver
Na memória, no sonho e em vão

Não sei pra onde vou
Não sei
Se vou ou vou ficar
Pensei, não quero mais pensar
Cansei de esperar
Agora nem sei mais o que querer
E a noite não tarda a nascer
Descansa coração e bate em paz.




Fernanda Takai.

Desabafo

Queria conseguir simplesmente ignorar tudo como todos fazem. E dormir com a consciência tranquila todos os dias achando que não é responsabilidade minha tentar fazer alguma coisa pra mudar a realidade deplorável em que o mundo se encontra. Às vezes parece que o mundo está tão podre que quero simplesmente me desligar disso tudo. Um dia vai chegar a hora em que vamos ter que pagar por tudo o que estamos fazendo. Aí quero ver quem vai aguentar as consequências.


Jejels, 03/12/2011.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Revolução harmônica

O som que preenche meus ouvidos
É bossa nova que ecoa,
É mais que um ruído,
Um som que quer ser sentido,
Um impulso que não pode ser contido,
A emoção expressa em um gemido,
Talvez até num rugido
Que vem de dentro,
Do âmago nascido.



Jejels, 29/11/2011.

sábado, 26 de novembro de 2011

Times like these

I, I'm a one way motorway
I'm a road that drives away
Then follows you back home

I, I'm a street light shining
I'm a white light blinding bright
Burning off and on

It's times like these
You learn to live again
It's times like these
You give and give again

It's times like these
You learn to love again
It's times like these
Time and time again

I, I'm a new day rising
I'm a brand new sky that
Hang the stars upon tonight

I, I'm a little divided
Do I stay or run away
And leave it all behind

It's times like these
You learn to live again
It's times like these
You give and give again

It's times like these
You learn to love again
It's times like these
Time and time again.





Foo Fighters.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Elevação do espírito

Pelas janelas, difusa,
Entra a luz da tarde
E ilumina a mesa
Inebriante que flutua.

Está em toda parte,
Espalhada pelo ar:
É a inconsciência, é a arte
De saber se libertar.

Deixo meus olhos se ofuscarem
Com o mero pensamento,
A simples ideia de se exorcizarem
Todo estigma, cansaço e sofrimento.

Flutua, minh'alma, flutua!
Quero de meu corpo total desligamento.



Jejels, 25/11/2011.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Remoto

Envelhecendo anos em semanas,
O corpo protesta,
Quer deitar-se na cama
Ao sentir as tonturas
E pontadas na testa.

Preciso parar,
Mas os deveres se acumulam
E não resta lugar
Onde eu possa descansar;
Não resta abraço
Que me faça esquecer;
Não resta no tempo ou no espaço
Nenhum resquício de você.



Jejels, 23/11/2011.

domingo, 20 de novembro de 2011

Ansiedade

Não preciso olhar pela janela
Para saber que a noite já vai alta,
Que a lua que vasculha a cidadela
É obscura pela luz que lhe falta.

Não preciso ouvir sua voz
Para saber que está distante,
O mero silêncio, abismo entre nós,
Já engole qualquer música que eu cante.

“Já é tarde”, digo em pensamento
Convencendo-me a esquecer o telefone,
Fingindo um ar desatento,
Mentira que disfarce o estado insone.

As horas arrastam-se em tortura,
Rindo de minha bagunça,
A noite segue segura,
Ignorando tudo que em mim pulsa.

“Já é tarde”, repito aflita
Esperando que no fundo
Haja tempo para que você apareça e reflita
Em meu espelho um outro mundo.




Jejels, 20/11/2011.
Pauta para a 63ª edição poemas do Bloínquês.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Lentidão

Tempo, quimera,
Já não sei mais esperar,
A cabeça gira como esfera,
O mundo gira devagar.

Imergir em palavras,
Ocupar-me de tarefas
Que me façam esquecer.

Mas vêm sempre lembranças
De tempos remotos em que as flores
Revolviam-se em dança.

E o esquecimento não vêm,
O silêncio acolhe, inevitável,
Anunciando que não resta ninguém.

E o tempo se mantém...


Jejels, 17/11/2011.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Amanhecer

Oh! Quão agraciada manhã
De aurora reluzente e malva
Descansa meu peito após o arfã,
Rejubilo-me na luz que salva.

Não fossem os raios dourados,
Nas trevas de outrora evanesceria
Ouvindo de meus fantasmas contínuo brado,
Açoitada pelos remanescentes estigmas.

Oh! Quão pálido amanhecer
Gracioso cavaleiro de sutil brilho
Num glorioso combate ao sombrio!


Jejels, 11/11/2011.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Delírio Dionisíaco

Fluido convite ao Paraíso,
Os confins da mente bradam furiosos,
Reviram-se sedentos por Dionísio
Num ritual de impulsos vigorosos.

Cálido desejo pela fantasia,
O mundo não passa de hipocrisia
A sufocar o peito entre sofrimentos
- Vinde fonte de embriaguês dos pensamentos!

Em tua cor escarlate, mergulho
A vagar para um outro mundo
Onde não mais só com minha imaginação,
Mas numa taverna com um cálice seguro na mão.



Jejels, 07/11/2011.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Resoluções de um misantropo

Que faria eu no ermo da vida?
Mesmo que envolto em multidão
Sinto queimar no coração tal ferida.

Que manto protetor é a embriaguez!
Mas tão efêmero é o delírio,
Logo contamina-se do real, a tez.

Quão enregelado está meu peito
Imerso em sofrimento anoso
Transformando em jazigo, o leito.

Que faço eu no ermo da vida?
Numa última soberania sentimental,
Deixo esta existência plena de misantropia.



Jejels, 11/11/2011.
Pauta para a 61ª edição poemas do Bloínquês.

Versos inscritos numa taça feita de um crânio

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.



Lord Byron.


Retirado de http://www.luso-poemas.net

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=896#ixzz1dOa3wSjf
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Linhas paralelas

Não gosto de interseções - não é o tipo de acontecimento que dura. Suas consequências, talvez, mas depende de sua intensidade. Não quero desmerecê-las, pois muitas vezes, elas mudam nossas vidas, deixam marcas eternas, mas às vezes imagino linhas paralelas movendo-se lado a lado ao invés de um encontro entre elas, um cruzamento. É como uma presença-fortaleza, algo com que contar sempre, seja a distância entre elas longa ou desprezível. É como alguém que estará sempre ali, aconteça o que acontecer, sem se distanciar, sem evanescer. E isso é algo forte, algo que nos move pelo espaço e nos conforta quando preciso, é uma certeza da qual não quero abrir mão, pois as retas não-paralelas encontram-se em um só ponto para logo depois desencontrarem-se enquanto divergem continuamente. É por isso que não consigo me permitir mudar de posicionamento e acabar com essa distância entre nós dois. Nada é eterno e não quero arriscar um encontro entre essas duas linhas agora paralelas, eu e você, pois não suporto a ideia do partir, do distanciar-me. E fico tão feliz pelo mero fato de sentir esse paralelismo... não é preciso mudar nada, meu mundo já é completo.
Somos linhas paralelas caminhando ao infinito.



Jejels, 09/11/2011.
Pauta para a 93ª edição musical do Bloínquês.

Soneto do escapismo

Segunda chuvosa,
A rua molhada
De sombra e água.

Na bruma da memória
Invento história
De resquícios da noite passada.

A realidade bate à porta,
Desafia-me, faceira,
Bagunçando e fazendo sujeira
Com perguntas sem resposta.

E encaro-a com olhos fixos,
Determinada a miná-la
Até que não haja mais fala,
Até que o mundo evanesça.


Jejels, 07/11/2011.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Reincidências do destino

Quis o destino
Por ironia ou sadismo
Despertar em meu peito
O mesmo condenado sentimento?

E tornar esse desejo
Sempre o alvo proibido,
O sonho secreto que almejo
Que deveria ser destruído...

Não seria amargo esse destino
Afastando-se como horizonte,
Provocando cíclicos desatinos,
Fazendo ruir minhas pontes?


Jejels, 10/10/2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Resistência

Nem tudo está perdido,
Ainda resta tempo
Mesmo que esvaindo,
Dispersando com o vento,
Ainda resta tempo.

Mesmo com o mundo colidindo
É preciso estar atento,
É preciso conter o lamento
E armar-se com sorriso
Declarando resistência
Num gesto conciso.




Jejels, 07/11/2011.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Carta noturna

Já virou costume esse clima de noite nublada com músicas calmas em que fico acordada apenas aproveitando o momento e deixando meus pensamentos me levarem numa viagem sem destino. E cá estou mais uma vez, porque afinal, toda noite de insônia eu penso em te escrever. Você já se infiltrou na minha cabeça, não consigo mais desenraizar. Não consigo nem sentir raiva quando você não responde minhas mensagens, só de ver seu rosto no outro dia tudo aquilo se apaga da memória e só consigo pensar no quanto você me faz feliz quando estamos juntos. Até hoje não entendo como você consegue criar essa atmosfera ao seu redor, esse bem estar que irradia de você que me impede de tirar o sorriso dos lábios por mais de três segundos. Mesmo quando tento ficar séria, logo estou rindo novamente, tão bem como me sinto com você por perto. É como uma fortaleza, como um sonho em que tudo acontece de forma tão pura e suave, tão transparente e sincera que é impossível quebrar essa sua áurea de felicidade. E sei que você não está comigo agora e, aliás, deve estar dormindo, mas só de pensar em você, nesse seu rosto macio, nesses seus olhos castanhos tão fluidos e carinhosos, já sinto aquela onda morna percorrendo o corpo, aquela sensação de que estou protegida e os músculos da face esboçando um sorriso bobo... não tem mais jeito, você me conquistou.



Jejels, 02/11/2011.
Pauta para a 92ª edição musical do Bloínquês.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...




Pablo Neruda.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Amor.

Ela: Se eu ficar feia?
Ele: Eu fico míope.
Ela: Se eu ficar triste?
Ele: Eu viro... um palhaço.
Ela: Se eu ficar gorda?
Ele: Eu quebro o espelho.
Ela: Se eu ficar velha?
Ele: Eu fico velho junto.
Ela: Se eu ficar rouca?
Ele: Eu fico surdo.
Ela: Se eu ficar chata?
Ele: Eu te faço cócegas.




Retirado de http://somaisumasanotacoes.blogspot.com/

sábado, 22 de outubro de 2011

Paulo

Eu não sabia em qual deles confiar: em Fábio ou em meus sentimentos. Porque apesar de tudo, eu sempre sentia como se eu não fosse tão importante, como se, de alguma forma, sempre houvesse algo mais interessante que se sobrepusesse ao meu plano. Trabalhos, estudos, viagens, família, jogos de futebol. Havia uma infinidade de eventos que rapidamente me colocavam no "banco de reserva" e assim, fui alimentando esse sentimento de que eu era desimportante. E as demoras para responder as mensagens, as ligações caindo na caixa de mensagem à noite, as fobias quanto às coisas que eu fazia e amava. Quando estávamos juntos, tudo era perfeito, o mundo girava em torno apenas de nós, era como se nada mais importasse e eu me sentia extremamente amada. Mas quando nos despedíamos, era o começo de todos os terremotos a abalar nosso relacionamento que cada vez mais se assemelhava a um pequeno castelo de areia, coisa de contos de fadas que a dura realidade sempre chega para destroçar.
Tudo isso revirava em minha cabeça como uma grande mistura num liquidificador. Eu andava pela rua, atordoada com tudo isso, quando me deparei com uma cena bastante inusitada: havia um homem no chão. A princípio, pensei que estivesse bêbado, pois se movimentou de forma exagerada e depois deitou de barriga para cima com as pernas levantadas, dobradas a 90º, as canelas paralelas ao chão. Ao me aproximar, percebi que não havia nada de brincadeira ali: ele estava machucado. Vestia uma bermuda que agora exibia uma grande mancha escura ao lado da coxa e uns filetes de sangue escorriam pela canela. Ao perceber isso, corri para perto dele, a fim de socorrê-lo. Ele estava sentindo bastante dor e tentei acalmá-lo dizendo que iria chamar uma ambulância. Foi então que me contou que estava apenas caminhando pela rua quando um carro parou de repente e um de seus passageiros disparou contra ele. Fiquei atônita ao ouvir tal relato de violência gratuita, mas fiz o meu melhor para permanecer calma e não deixar o homem mais nervoso com a situação.
O Samu não demorou muito a chegar, e depois de conversar com o homem que, a propósito, chamava-se Paulo, fiz questão de acompanhá-lo até o fim. Os médicos disseram que não era preciso, mas eu realmente sentia que era meu dever me certificar de que tudo daria certo para ele. No caminho para o hospital, ouvi mais sobre a história dele. Sua família morava em outro estado e ele vivia em um apartamento daquela mesma quadra onde o encontrei. Estava na cidade somente por questões de estudo, seu sonho era formar-se em letras em uma boa faculdade. Trabalhava pela manhã em uma escola dando aulas de inglês para crianças e estudava à noite.
Depois do susto, ele já havia sido diagnosticado e levado à sala de cirurgia, onde seria extraído o projétil já identificado. A essa hora, minha mãe já tinha ligado umas 7 vezes para o meu celular, preocupada com a minha demora. E após pedir que a enfermeira da recepção me informasse do êxito da cirurgia, deixando meu número, fui embora com outras questões na cabeça.
A vida é tão curta, uma caixinha de surpresas e tão frágil que pode findar num piscar de olhos... agradeci por ter saúde naquele momento e por minha família estar passando bem. E então meus pensamentos retornaram ao que eram antes de encontrar Paulo caído na calçada. Apesar de Fábio parecer me deixar de lado às vezes, eu o amava e não podia deixar que as coisas entre nós ficassem mal resolvidas. Liguei para ele imediatamente para avisar que estava indo até sua casa, não me importando com o horário. Naquela noite, coloquei as cartas na mesa e resolvi os mal-entendidos entre nós. Foi quando descobri que Fábio me amava tanto quanto eu a ele e passamos a nos compreender melhor.
Dois dias depois, voltei ao hospital para rever Paulo. Estava muito grata por tê-lo encontrado e por poder ajudar naquela noite. Sua perna estava melhorando lentamente e a cirurgia havia sido efetiva. Ao vê-lo ali, com um sorriso de gratidão, não pude deixar de estampar meu rosto com o mesmo, pois também ele havia me ajudado naquele momento a valorizar mais a vida e não deixar que os bons momentos passem desapercebidos, derrubados por pequenos problemas que às vezes são apenas falsas impressões que temos da situação.
E eu me sentia muito feliz.


Jejels, 23/10/2011.
Pauta para a 89ª edição conto/história do Bloínquês.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Traição

Batidas e sussurros
De um céu encoberto,
As palavras que empurro
Nem sei ao certo.

O perfume no pescoço,
Repentino alvoroço
Formou-se espontâneo.

O céu caiu
Sobre olhos fechados,
O coração mentiu
Com os sentimentos condenados.

O toque no rosto,
Lábio justaposto
Sentenciou traição.




Jejels, 20/10/2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

10 minutos

Por que você não atende as minhas ligações?
Sei que você tem lá suas razões
Olho milhões de vezes sua foto
Me pergunto em que ponto perdemos o foco
Por que você não atende se vê que sou eu?
Será que é teu jeito de dizer adeus?
Rodo mil histórias na minha cabeça
Daqui a 10 minutos talvez eu enlouqueça
Enlouqueça...
Fora
Seu silêncio me devora
Algo diz pra eu ir embora
Não entendo os seus sinais
Mas fica com você
A desculpa pra inventar
Quando resolver ligar
Posso não te querer mais
Olho pra pessoa em que você me transformou
E depois não quis mais
Abandonou
Vejo que a vida me prestou esse favor
Me fez sempre pronta pra viver um novo amor
Um novo amor...
Fora
Seu silêncio me devora
Algo diz pra eu ir embora
Não entendo seus sinais
Mas fica com você
A desculpa pra inventar
Quando resolver ligar
Posso não te querer mais.




Ana Carolina.
(Retirado de http://www.vagalume.com.br)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Automático

Uma correria monocromática, rotina que se repete a cada dia, movimentos cíclicos que vão e vêm preenchendo as horas do dia. Num dado momento, tudo fica embaralhado e vira uma completa monotonia a ser revivida a cada dia, a cada semana, a cada mês... Casa, trabalho, almoço, trabalho, casa, lanche, aula da noite, cama. Uma sequência de atos mecanizados, uma batalha travada no cérebro, bloqueando a criatividade. E nessa situação, como fugir de tudo isso? Não sou uma máquina, preciso quebrar esse ritmo, não posso deixá-lo tornar-se constante e engolir minha vida. Sim, pois assim não seria vida. Apesar de cíclica, a vida não pode ser regular como um alinhamento geométrico desenhado em cidades através de eixos que almejam essa precisão contínua. Não, a vida, a meu ver, está mais pra uma árvore do cerrado com seu tronco tortuoso a desviar o olhar do pedestre que por ali caminha. Uma árvore que floresce, que perde as folhas, que oscila entre o plano de fundo e a grande atração paisagística.
A vida é muito complexa para uma função de primeiro grau, muito harmoniosa para o barulho do trânsito, muito plural para uma melodia monofônica, muito dinâmica para um monólogo, muito bela para o concreto cinzento. É... a vida é muito viva para uma rotina sem trégua.




Jejels, 16/08/2011.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gravando-te

É no detalhe da flor,
Naquela coloração única
Que aparecerá quando o sol se pôr
Atrás dos teus olhos.

É no doce do mel,
Naquele sabor consagrado
Que se perderão meus lábios
Num piscar de olhos.

E é no perfume de céu,
Naquele clima perfeito
Que ficará o olhar cor de mel
Para sempre preso no meu.





Jejels, 18/10/2011.
Pauta para a 58ª edição poemas do Bloínquês.

Citação de Poe



"Para sermos felizes até certo ponto é preciso que tenhamos sofrido até o mesmo ponto."




Edgar Allan Poe.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Pulso

Sentir e pensar
- Por que separar?
Se devo agir como desejo,
Ouvir o coração e meus anseios?

E por que é tão difícil perceber
Que ambos fazem parte de mim,
Lampejos de saber e do querer,
O sóbrio branco e o voluptuoso carmim?

E múltiplas cores de meus olhos,
Quimeras, devaneios, sonhos,
Um vulcão ardente, alerta em sentidos
Responde prontamente aos estímulos.

Sentir e pensar
- Difícil de separar
Apesar de que alguns momentos
Revelem-se sentimentalmente tão intensos.



Jejels, 10/10/2011.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Incompatíveis

Sempre duvidei do quanto as coisas pudessem dar certo. Desde que esse clima de romance começou entre nós, havia sempre algo a mais em minha cabeça, algo que poderia colocar tudo em dúvida. E somos tão diferentes, há mil desencaixes em nossas vidas, inúmeras incompatibilidades em nossas personalidades. Mesmo assim, aceitei encarar a aventura. Estar com você me fazia bem apesar de todas essas diferenças gritantes entre nós... mas agora percebo que isso não está sendo o bastante para mim, que você não entende a minha dinâmica, ainda não entende nada dos meus sentimentos, na verdade. Você foi me encantando e continua semeando sorrisos em mim, mas não passa disso. Além do mais, já estão se repetindo as situações em que mesmo na sua presença, coloco a validade dessa relação em cheque. Não, não tem sido o bastante e creio que você não perceba isso pelo simples fato de não conseguir decifrar os meus desejos. Já passou o tempo em que eu fechava os olhos e a lembrança do seu rosto me fazia esboçar um sorriso. Estamos entrando em descompasso, saindo de sincronia... e não há nada que eu possa fazer que não esperar até que a linha tênue que nos une se rompa quando chegar a hora.


Jejels, 12/10/2011.
Pauta para a 89ª edição musical do Bloínquês.

Carta a João

João,

Estive esperando por você o dia todo. Havia tantas coisas que eu queria lhe dizer, algumas novidades bobas, minha entrada na faculdade, o desabrochar da primeira flor daquela roseira que plantamos juntos anos atrás... a tarde se arrastava lenta e eu insisti em ficar no gramado esperando por você. Faz tanto tempo que não nos vemos, plantei em mim a certeza de que você viria ao meu encontro. De todos os momentos que passamos juntos, várias memórias afloravam em minha cabeça e faziam minha cabeça voar enquanto mantinha meus pés aqui neste parque que sempre foi o cenário dos nossos encontros esporádicos. Mas muita coisa mudou, os anos nos separaram e só restaram as lembranças de um tempo que apenas ficou para trás, guardado apenas em minha memória. Dos frios invernos aos chuvosos verões, os sorrisos refrescantes como sorvete saíam fáceis, leves, espontâneos.

Depois que você viajou, fiquei sem meu companheiro de aventuras, os finais de semana ficaram mais vazios assim como as páginas do meu caderno, pois as tantas palavras com as quais eu compunha minhas poesias, bem, elas se esconderam em algum lugar e escrever se tornou uma tarefa surpreendentemente difícil. Nesse meio tempo, consegui entrar na faculdade e agora minha vida está bem mudada, assim como eu imagino que tenha acontecido com a sua. Porém, mesmo com tudo isso acontecendo, ainda me lembro de você todos os dias, de quando íamos ao cinema e você me fazia ver filmes de terror só pra me ver ficar com medo, das tardes em casa em que jogávamos vídeo-game até tarde rindo baixinho com a porta do quarto fechada para que ninguém descobrisse que ainda estávamos acordados... lembro das vezes em que resolvemos matar aula para escrever juntos tomando suco de uva em uma quadra qualquer. Recordo as tardes quentes em que íamos ao lago pra nos refrescarmos um pouco ou simplesmente ficar ali apreciando a paisagem... e lembro, é claro, das manhãs em que vínhamos pedalando para este parque fazer um pouco de exercício, jogar conversa fora e deitar no gramado para olhar as nuvens e imaginar os mais diversos formatos que elas adquiriam. É exatamente aqui que estou agora.

Acordei com um ímpeto de ver você e fiz questão de vir até aqui, imaginando que você também apareceria. E sei que não passou de uma fantasia, mas o mero fato de estar neste lugar e de recordar nossos momentos juntos, nossas histórias de infância, bem, isso mudou meu dia. Então escrevo esta carta para que você saiba, primo, que mesmo com essa distância que se impôs em nosso caminho, estaremos sempre unidos ao menos pelas nossas lembranças.


Saudades,
Mara.




Jejels, 12/10/2011.
Pauta para a 90ª edição visual e a 63ª edição cartas do Bloínquês.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tímida

Às vezes sonho com chuva,
Estou num jardim florido
E o céu nublado se curva
Sobre uma garota de vestido.

O céu se contorce no espaço
Entre ela e seu par,
Distância medida em um passo
Que ela não soube dar.

Não seriam as gotas em sua face
Nem o olhar dele, tão terno,
Não era falta de enlace,
Nenhum elemento externo.

A razão de seu estatismo
Era apenas timidez
O único empecilho
Que trocava o sim por um talvez.




Jejels, 11/10/2011.
Pauta para a 57ª edição poemas do Bloínquês.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Overdose necessária

Cansaço,
Aliviado...
Depois de mil horas, um sofá.

Dor,
Só sei o que é sarar...
Se a sofro profundamente.

Confusão,
Realmente me norteio...
Quando outrora perco meus eixos.

A luz não me ofusca,
Se vi muito branco,
E se a penumbra foi também meu caminho.

A paz?
Na medida que já ouve guerras,
Lá fora...
Ou dentro do ser.

Tão fraco...
Que estou confortável,
Realmente descanso.




Matheus Maramaldo
(retidado de http://www.recantodasletras.com.br/ )

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nossa música

No seu olhar, a convocação;
A orquestra se prepara, instrumentos a postos,
Mente aberta, livre coração
Pronta para o improviso de que mais gosto.

Seu toque, o regente,
Ao sinal dos olhos semicerrados
Dirigindo a mim esse olhar tão atraente
Inicia a melodia com um leve descompasso.

O coração a palpitar
Conduz o ritmo da nossa música
Acelerando enquanto a leve falta de ar
Preenche o som como quem sussurra.

Suaves ruídos, o roçar de lábios,
Dedos enroscando nos cabelos,
Melodia de um murmurar monossilábico,
Harmonia de desejo.




Jejels, 03/10/2011.
Pauta para a 56ª edição poemas do Bloínquês.

sábado, 1 de outubro de 2011

Transcendência

Silenciosamente eu te falo com paixão sobre tudo e nada. Silenciosamente, apenas com uma troca de olhares, eu deixo transparecer tudo o que pulsa em mim, todo o bem e o mal da minha personalidade esférica, errante, humana. Silenciosamente, deixo que você leia cada marca que a vida deixou em mim, tudo aquilo que faz parte da minha história e me encaminhou pela estrada para que eu chegasse até aqui. Silenciosamente, arrependo-me de cada deslize, de cada vez que por razão ou outra perdi o controle, sinto o remorso de cada palavra dita por impulso, dita sem pensar. Silenciosamente, penso em tudo o que tenho e sinto-me grata. Silenciosamente, as mãos unidas e a testa apoiada sobre elas, os joelhos no chão e o coração aberto. E também silenciosamente, uma lágrima densa, carregada de sentimentos, da minha essência rola por meu rosto e traz aquele sabor característico ao roçar em meus lábios. Um resumo de todo o redemoinho de sentimentos, mas acima de tudo, dessa gratidão, desse reconhecimento, da grandeza desse momento... dessa paixão pela vida. E é assim, silenciosamente, que agradeço ao Criador.



Jejels, 01/10/2011.
Pauta para a 88ª edição musical do Bloínquês.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Semeando sorrisos

Semeando sorrisos,
Aqueles que sempre soam singelos,
Com eles, sinto-me serena, suavizo.

Semeando sorrisos,
Aqueles que serpeiam serelepes,
Ecoando como suaves sibilos.

Semeando sorrisos,
Aqueles serenos e silenciosos,
Cintilando ensolarados,
Salpicando de luz meus sentidos.

Saio semeando sorrisos
De sentidos sortidos,
Sazonais, sublimes,
Secretos, sacudidos,
Signo de satisfação.

Saboreio e suspiro...



Jejels, 30/09/2011.

Céu Nublado

Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;
Teu olhar misterioso(é azul, verde ou se esfuma?)
Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu.

Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, desperto por torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.

Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!

Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?




Charles Baudelaire.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Resposta

Se eu te dissesse
Que nem verdes,
Nem azuis,
Mas um espectro tão abrangente
De luzes que neles penetram
Por desejo e curiosidade.

Não são os caminhos das minhas cores,
Mas das coisas,
Dos outros
E do mundo que tento absorver
Numa busca incessante
De dar vida a mim mesma com um pouco de cor.






Jejels, 18/09/2011.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Caminho

Eu caminho por aí, pelas ruas e estradas da vida, pelos campos amenos e floridos, pelos becos escuros e pelas praças mal iluminadas. Eu caminho por limiares de realidade e ficção, abro e fecho mil portas virtuais, todas em minha mente, possibilidades de viver o presente. Eu caminho com os pés aventureiros e com o coração leve, caminho apenas por caminhar, sentindo no sangue esse imenso prazer de redescobrir a vida a cada passo, o sabor de poder reinventar a realidade e fazer minhas próprias escolhas.



Jejels, 11/09/2011.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Manhã nublada

Névoa da manhã,
Meu colibri,
Quase me esqueci.

O aurora desperta escuro,
Nuvens por todos os lados
Encobrindo meu futuro.

Aqui fora o vento sopra
E esqueci, eu me esqueci
De que assim não há sobra.

A umidade na medida,
A luz escondeu-se, tímida
No vapor da minha nuvem cinza.

Névoa da manhã,
Meu colibri
Canta num tom menor de si.

Se quiser voar...
A nuvem está logo ali.



Jejels, 26/09/2011.

domingo, 25 de setembro de 2011

Meu amor

Minha vida está tão intensa, cada emoção única ocupa seu lugar em meu coração e domina-me por completo. E assim pareço mais viva, mais aberta a tudo o que se apresenta a mim, tudo parece ser importante, mesmo o mero ruído de um sorriso parece a chave para a felicidade.

Desde que você sorrateiramente passou a segurar minha mão, o mundo adquiriu outras proporções, tudo parece ter uma conexão tão clara e uma solução tão simples. Os problemas parecem tão fúteis e dissolvíveis quando estou com você e encontrar seus olhos com os meus rega essa semente de sorriso que você plantou em mim naquele dia em que escrevi para você uma carta, ainda tão insegura de mim, tão incerta do que estava acontecendo. Eu contei em palavras estruturadas em tinta preta tudo o que estava fermentando dentro do meu coração, todo o alvoroço que a sua presença me causava. E depois de ler cada cantinho escuro de dentro de mim que eu expressava ali, você simplesmente amassou o papel e seus olhos se encheram de lágrimas. Então senti seus braços longos e macios me envolvendo num abraço tão sincero que mesmo não entendendo a sua reação, senti vontade de chorar também, tão certa do carinho que estava sendo exposto ali.

Você se tornou meu novo guardião, o guarda-corpo que se ergueu diante do meu abismo. Meus dias se tornaram mais claros, minhas tardes, mais serenas e as noites, inesquecíveis. Desde então, meus sonhos apenas crescem, ganham mais volume e consistência e estão enlaçados por você, sempre você. Porque já passamos por muita coisa juntos e todos esses momentos podem encontrar um caminho para meus sonhos à noite, onde posso realizar esse desejo crescente de estar perto de você, a sós e sem nenhuma barreira a se impor entre nós. Imagens que me vêm à noite em meu sono ilustrando todo o amor que cresce em meu peito, um amor que ainda não consigo expressar completamente, mas que a cada dia procuro um jeito de embrulhá-lo numa caixa de sorrisos e toques carinhosos para te dar de presente.



Jejels, 25/09/2011.
Pauta para a 85ª edição conto/história e 87ª edição musical do Bloínquês.

Um a um



Eu não quero ganhar
Eu quero chegar junto
Sem perder
Eu quero um a um
Com você
No fundo não vê
Que eu só quero dar prazer
Me ensina a fazer
Canção com você
Em dois
Corpo a corpo me perder
Ganhar
Você

Muito além do tempo regulamentar

Esse jogo não vai acabar
É bom de se jogar
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um.



Tribalistas.

Crise criativa



Nem curva nem reta,
Nem fechada nem aberta,
Nem errado nem certo,
Nem adjetivo nem verbo.

É um fluxo desordenado
E sem valor próprio,
É um caos fermentado
Por um delírio de ópio.

As ideias sem ligação,
Apenas um emaranhado sem nexo,
Um processo de retrocesso
Aterrando mente e coração.




Jejels, 25/09/2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Convite do espaço

Passeio pela rua
Uma grade se insinua,
Logo convidando
Meu olhar a espreitar.

Um mundo de luz e cor,
Poesia visual pairando,
Dançando com som e calor
Sob telhas de amianto.

Num ambiente escuro,
Uma parede de vidro
Transformando o espaço contido
Num convite alegre e seguro.

E brotam plantas verdes
No jardim do lado de fora,
Abraçando a terra com sede,
Entra no espaço que meu olhar devora.

E a brisa vem de leve
Como uma cobertura perfeita
Nesse doce que sua boca me serve
- Esse sorriso puro de quem se deleita.




Jejels, 23/09/2011.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Nácar

Esférica e cintilante,
Presente das profundezas azuis
Agora em teu colo reluz
Solitária e elegante.


Jejels, 13/09/2011.

domingo, 18 de setembro de 2011

Quimeras

Deitada em uma cama que não é minha, avisto a luz azulada que vem do mundo lá fora pela fresta da persiana. Tudo o que sinto está escurecendo com o dia, esmaecendo a cada minuto. Fantasias do que poderia ter acontecido tremeluzem em minha mente como imagens meio borradas por uma esperança que já foi embora. O quarto é pequeno, a cama de casal ocupa boa parte dele, deixando espaço restante apenas para o armário e a penteadeira. As paredes brancas logo adquirem a luminosidade baixa e nem sequer penso em mover-me até o interruptor de luz ao lado da porta. Não, eu queria continuar absorvendo aquela transição da tarde para a noite, sentir o crepúsculo em meus olhos com suas cores e em minha pele com o calor que ia lentamente indo embora.

Estar aqui é realmente intenso. Esse simples momento desperta em mim pensamentos tão íntimos, traz à tona sensações que um dia tentei combater. Não vou fazer isso agora, de nada adiantaria. Por mais que eu vença uma batalha, essa guerra jamais termina e sempre retorno ao mesmo ponto com o peito pesando e esse sentimento voltando como uma onda a me tragar num mar de ressaca.

Algumas palavras formam-se em meus lábios e vão saindo por aí como partículas em suspensão no pequeno cômodo. Não atribuo timbres a elas e muitas vezes nem sei o que significam, são apenas letras de músicas que sussurro para quebrar o silêncio colocando para fora um pouco do debate que acontece dentro de mim.

Uma cena com certeza estranha a qualquer um que a presenciasse. De qualquer forma, não poderia ser diferente, selada como está minha misantropia, às vezes acho que não me adapto nem a mim mesma.

E tudo isso acontece de vez em quando, já é parte do que sou, assim como as pessoas com quem convivi e que foram, de várias formas, indispensáveis a mim. Todos aqueles que se infiltraram em meu coração em algum período da minha vida, para o bem ou para o mal, todos eles que contribuíram em alguma coisa para a formação desse emaranhado de quimeras que me tornei.

É parte do sentimento que sinto agora, é como uma saudade de um tempo que ainda não passou, pois ainda está vivo em mim. Não importa o quão distante todos eles possam estar - as pessoas ou os dias de glória e lamúria. Uma vez que alimentaram minha essência, permanecem vívidos em mim enquanto eu respirar e podem brincar de esconde-esconde vez ou outra, mas acabam sempre emergindo, voltando a perturbar a superfície... como agora.




Jejels, 18/09/2011.
Pauta para a 86ª edição musical do Bloínquês.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Croqui

Um mundo complexo,
A cidade e suas engrenagens,
Passeio pelas margens,
Pelo lado convexo.

Fujo do abraço da curvatura,
Arrisco-me a atravessar a rua
Para encontrar o contraste,
O outro lado do engaste.

Duas faces da mesma moeda,
Cidade rica, cidade de mazelas,
Edifícios envidraçados
E barracos no gramado.

E tal como a vejo
Fomenta em mim um desejo,
Um sonho riscado no papel,
Utopia sob o céu.



Jejels, 13/09/2011.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Intangível

Quero-te como quero à abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdem, que te faz mais bonita!




Charles Baudelaire.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Estocolmo

Meu René,

Parece mesmo ironia do destino. Disse-lhe há dois meses que aquela seria minha última carta e cá estou eu empunhando a caneta novamente.
Depois daquele fatídico dia em que enviei aquela correspondência, fiz o meu melhor para recolocar minha vida em ordem. A verdade é que suas notícias me fizeram perder o chão. Eu disse que esperaria por você quando soube que iria passar um tempo no exterior e era o que eu estava fazendo além de mandar cartas todas as semanas contando de tudo o que acontecia por aqui na sua ausência. Desde o dia em que você partiu, tenho passado noites insone, deixado de fazer mil coisas que me faziam feliz por perceber que a vida não era a mesma sem você por perto. A saudade parecia cada vez mais implacável e não houve um só dia em que meu pensamento não estivesse focado em você.
Quando finalmente recebi a carta em que você escreveu que ficaria aí, que tinha conseguido um emprego irrecusável e até mesmo um lugar melhor para ficar, meu mundo desabou. É impossível descrever o quanto a depressão apertava meu peito e o quanto chorei desolada depois de ler aquelas palavras. Achei que minha vida tinha perdido o sentido, não consegui fazer nada direito por semanas. Não tinha mais coragem de abrir os seus envelopes que chegavam na minha caixa de correio.
E depois de todo esse sofrimento pensando que tinha te perdido para sempre, sem saber se deveria desistir de tudo e tentar te esquecer, percebi que isso era impossível. Esses dois meses serviram apenas para provar a mim mesma que você é como meu ópio e que mesmo à distância, o que me mantinha eram as palavras que trocávamos, os papéis dobrados dentro de envelopes que percorriam a distância que sempre quis que nunca tivesse existido.
Não dá mais para continuar longe de você. Esperei por uma volta incerta confiando que você logo estaria perto de mim novamente, aquele mesmo olhar, a voz doce e o coração palpitando ao me abraçar.
Então, René, perdoe-me pelas cartas não respondidas, mas seria doloroso demais ler as suas palavras. Apenas alegre-se com esta carta que tem agora nas mãos, pois esta sim, será a última. Espere-me na Estação Central de Estocolmo às 22h do dia 13 de setembro: estarei chegando em uma semana.
Já não consigo suportar essa distância e se você vai ficar mesmo aí, então não faz sentido para mim continuar no Brasil.


Jag älskar dig.


Isabel.




Jejels, 08/09/2011.
Pauta para a 58ª edição de cartas do Bloínquês.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Muda

Um olhar,
Suspiro.
Um carinho,
Respiro.
Um toque,
Reviro.
Um abraço,
Cativo.
Um beijo,
Cultivo.
- Amor em plantio.



Jejels, 25/08/2011.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Crepúsculo

Todos os dias quando acordo, vem aquela sensação engraçada que mistura a preguiça e a expectativa: um dia inteiro pela frente, mas logo estaremos juntos. Essa nossa rotina às vezes tão maçante rege nossas vidas, traz o cansaço e os resultados do que conseguimos produzir na esperança de estarmos sendo úteis ao mundo.

Todos os dias antes de dormir, outra sensação, a de fim de parte do ciclo, obrigações do dia cumpridas –ou não- e sempre a sua lembrança. Deito e fico horas a fio na tentativa de pegar no sono, fugir da realidade em meus sonhos, mas até lá, todos os meus pensamentos estão focados em você.

Nosso suor sagrado, o resumo dos nossos esforços diários que regam os dias da semana, resultado do nosso esforço tanto mental quanto físico. Um emaranhado de atividades e deveres, sempre há algo a fazer, o tempo vai sendo esmagado pela rotina cor de concreto que tenta impor-se tão dura a nós.

Veja o sol! Às vezes tão ocupados, esquecemos dessas coisas simples e belas que temos todos os dias... esse pôr-do-sol maravilhoso a se exibir e nem sequer percebemos. Deveria ser um crime esquecer-se desses pequenos prazeres. Posso sentir tanta coisa nesse momento de céu avermelhado, tão poético cenário a se abrir perante nossos olhos e você está aqui comigo. Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo, nos seus braços já não pertenço a esse mundo tão opressor, mas sou sua.

Não tenho medo do escuro, só o que desejo é ficar aqui até que a noite venha e eternizar cada segundo em que estou ao seu lado, tão próxima que posso sentir seu coração pulsando por baixo da camisa, o peito tão macio que poderia descansar nesse abraço para sempre, um abraço tão inebriante que nem sei mais que dia é hoje, o que tenho que fazer amanhã, nem sequer onde estou e isso não importa.



Jejels, 31/08/2011.

Pauta para a 83ª edição musical do Bloínquês.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Felicidade

O que é a felicidade?
Enxergar o dia lindo
Escondido em nuvens de tempestade,
Conseguir ver em cada erro
Uma pequena possibilidade do acerto,
Sentir o corpo suado
Como a glória de um ato determinado,
Conseguir ver na dor
Uma certeza de que existo com fervor,
Descobrir que a simplicidade
É o mais fantástico, na realidade.

O que é a felicidade?
Aprender que no sinlêncio
São ditas as palavras de maior beldade,
Verificar nos detalhes,
Importâncias que nas proeminências faltem,
Cultivar um amor
E vê-lo florescer com explendor.

E se me perguntarem a verdade
Do que eu acho que seja a felicidade,
Responderei que é essa certeza
De que a vida é como chama acesa
E um dia, há de se apagar,
Mas que posso me fazer eternizar
Como momentos efêmeros,
Eventos que passarão,
Mas que ficarão perpetuados
Dentro do meu coração.





Jejels, 31/08/2011.

Pauta para a 52ª edição poemas do Bloínquês.

sábado, 27 de agosto de 2011

O preço

O sol se pôs no horizonte e levou com sua claridade os bons momentos que vivi durante o dia. De volta à realidade, nenhuma fantasia, nenhum resquício de sonho para me acalentar, sinto as lágrimas germinando dentro de mim enquanto o corpo contrai-se e recusa-se a responder a qualquer estímulo externo. A noite e eu: solidão implacável, minha sina deplorável. Eu e a noite e ninguém mais.

Meus dedos esfriam à medida que o calor que me aconchegou vai esvaindo, roubado por essa atmosfera sombria que vem me acolher mais uma vez. Por que tem que ser sempre assim? Não consigo mais lidar com tais situações, mas sempre que vejo um sorriso dirigido a mim, sempre que sinto braços a me afagar e a me envolver num abraço terno, então quero me entregar a traiçoeira ilusão de que é real e de que será eterno.

Bobagem. Pura ingenuidade. É óbvio, criança tola, que terá um fim, como todos os dias a luz se esvai para deixar-te só com tuas lembranças. E o que poderia ser eterno nesse mundo tão efêmero? Nenhum sorriso, nenhum momento alegre, nenhuma palavra, nenhum som, nenhum perfume, nenhuma textura, nenhuma presença são eternos. O sofrimento sempre virá na hora marcada (quando não chegar adiantado). Esse sim será teu eterno companheiro, não importa o que aconteça.

A vida é assim, deveria saber. Tudo que se consegue tem um preço e uma validade... agora que a noite veio me lembrar de minhas dívidas, cá está meu pagamento líquido junto com a dor a machucar meu peito... melhor chorar até que seque para que me esgote de uma vez. Já não suporto o preço como antes.



Jejels, 27/08/2011.

Pauta para a 19ª edição sentidos do Suas Palavras.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Falsas impressões

Uma borboleta azul que voava levemente passou pelo meu campo de visão no exato momento em que eu ia desistir de falar. A coragem não vinha nunca e eu já tinha perdido a conta de quantas vezes eu tinha tentado pronunciar as palavras necessárias e elas simplesmente se perdiam e mascaravam-se, empurrando outras palavras que pudessem ser lançadas em seus lugares. Quando comecei a conversa, o céu era de um azul claro e límpido, livre de nuvens e pairava sereno sobre nossas cabeças. Agora algumas faixas irregulares e alaranjadas rasgavam aquela tranquilidade azul, pintando o céu com cores quentes. A caça às palavras havia durado horas até aquele momento, eu havia passado praticamente todo o dia tentando capturá-las para então conseguir pôr um fim àquela situação. Eu havia suportado aquilo por tempo demais, não restavam dúvidas disso, mas por algum motivo, era sempre sufocante o mero pensamento em dizer isso a ele quando sua presença materializava-se ao meu lado. O fato era que não podíamos continuar com aquela farsa, não levaria a nada e nós dois sabíamos disso – ou ao menos, deveríamos saber. Na verdade, nunca entendi o motivo de ele ter aceitado começar essa loucura, afinal, era um problema meu e apesar de que ele fosse meu amigo, não existia realmente um motivo concreto para que ele me ajudasse. Os dias foram passando e com o tempo foi ficando mais claro que nosso plano estava dando errado. Renato jamais pareceu ter ciúmes quando nos viu juntos e sequer demonstrou surpresa, o que eu nunca consegui entender. Quando ele resolveu dissolver nosso relacionamento, perdi o chão, quase enlouqueci. Perante todo o meu sofrimento, Caio logo se prontificou a me ajudar, colocou-se ao meu lado sempre que precisei de um ombro amigo para chorar. Então tive a ideia maluca de tentar fazer com que Renato sentisse ciúmes de mim na esperança de que isso fosse fazer com que ele voltasse. Desde então, Caio e eu começamos um relacionamento de início totalmente falso, mas que logo foi tomando um rumo diferente do planejado. Às vezes nos divertíamos tanto que eu já não pensava em Renato, não como antes. Minha cabeça estava ficando cheia de dúvidas e confusões até ontem, quando estava voltando para casa e encontrei Renato no caminho. Ele não me viu, mas o mero fato de sua proximidade não me causar mais calafrios e aquela imensa vontade de chorar, a ausência de lembranças de nossos momentos juntos foi o suficiente para que eu finalmente admitisse que eu estava me enganando há algum tempo. Eu já não sentia mais aquela paixão por ele, ela havia se voltado para Caio. Depois de todos os meus dias ruins tendo ele ali ao meu lado e com todos aqueles novos dias que ele me ajudou a construir, ele reergueu o sorriso em meu rosto. Era por ele que meu coração batia mais forte.
E como já disse, estava eu o dia inteiro procurando as palavras certas para dizer a Caio que não podíamos mais continuar juntos. Eu simplesmente não suportaria continuar vivendo aquela farsa, pois ela tornara-se real para mim. O meu sentimento realmente existia, mas doía profundamente só de pensar que eu estava me iludindo, que estava perdendo esse sentimento pela segunda vez. Não, eu não queria me machucar assim de novo. Porém, estar ao lado dele era tudo o que eu queria, fazia-me feliz o vislumbre de seus olhos, deliciava-me ouvir o tom de sua voz: meus sentimentos tornavam aquela tarefa a mais difícil de todas. E, de repente, aquelas asas azuis flutuando pelo ar naquele momento mudou tudo. Realmente não havia sentido em continuar agindo daquela forma, eu deveria ser capaz de voar agora, de deixá-lo livre e de libertar-me contando a ele a verdade.
Não deveríamos estar juntos, pois era uma farsa e não havia motivos para continuar essa mentira. Renato não se importara e eu estava grata pela ajuda dele, pela sua sincera amizade. Quando finalmente disse-lhe essas palavras, estava com os olhos no chão e apenas quando ele disse algo para checar se eu dizia mesmo a verdade foi que percebi o quão magoado ele havia ficado. Sem entender sua reação, procurei pelo motivo nos olhos dele, encontrando uma tristeza maior que a que eu esperava. Ele disse então que estaria tudo terminado se fosse mesmo o que eu queria. Uma brisa suave passou por nós e ele também fez suas revelações.
Depois de toda aquela conversa, eu me sentia infinitamente mais leve... havíamos posto um fim na farsa e começado a construir uma relação de verdade. Agora, mais que nunca, eu sabia que aquilo nunca teria um fim, tinha aprendido a bater as asas e a movimentar-me pelo céu.














Jejels, 21/08/2011.

Pauta para a 80ª edição conto/história do Bloínquês.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Silente

Sem palavras:
Reação imediata
Aos seus carinhos
Me envolvendo em um ninho.

E talvez o silêncio
Pareça imenso
Como um espaço vazio,
Discurso arredio.

Mas é uma falsa distância
Vencida pela mera nuança,
Um movimento leve como o ar,
Uma viagem através do olhar.




Jejels, 25/08/2011.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Eu preciso dizer que eu te amo

Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto

E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto

Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo tanto.




Dé, Bebel e Cazuza.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Stand in

Uma expressão serena
Emoldurada por cachos dourados
E valorizada pelo olhar apaixonado
Que ela dirigiu a ele.

Uma conversa de sussurros
E sorrisos reservados,
Os dedos entrelaçados
Nos dedos dele.

Uma pele perfeita,
Uma voz delicada,
Meu olhar espreita
A cena antes formada
Pelo meu olhar,
Meus sussurros,
Minhas mãos,
Meu coração.



Jejels, 22/08/2011.

domingo, 21 de agosto de 2011

Domingo

Barulho de ventilador,
Suor escorrendo pela face.
No corpo, um tremor,
Leve arrepio,
Sombra de lembrança.

Cheiro de folhas secas,
Cortinas dançando com a brisa.
Na cabeça, incerteza,
Insistente dúvida,
Monólogo de angústia.

Cor de vermelho desbotado,
As unhas tamborilando sobre o papel.
No calendário, calado,
Implacável domingo,
Resumo de solidão.




Jejels, 21/08/2011.

Só agora




Baby
Tanto a aprender
Meu colo alimenta a você e a mim
Deixa eu mimar você, adorar você
Agora, só agora
Por que um dia eu sei
Vou ter que deixá-lo ir!

Sabe, serei seu lar se quiser
Sem pressa, do jeito que tem que ser
Que mais posso fazer?
Só te olhar dormir
Agora, só agora
Correndo pelo campo
Antes de deixá-lo ir!

Muda a estação
Necessário e são
Você a florecer
Calmamente, lindamente...

Mesmo quando eu não mais estiver
Lembre que me ouviu dizer
O quanto me importei e o que eu senti
Agora, só agora
Talvez você perceba
Que eu nunca vou deixá-lo ir!
Que eu nunca vou deixá-lo ir!
Eu não vou deixá-lo ir!







Pitty.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Meus sonhos

Ah, os sonhos!
Quão doce seria minha vida
Se cada olhar saltasse à realidade,
Se cada raio de sol desta tarde
Trouxesse aos meu olhos aquela ilusão colorida!

Ah, os sonhos!
Quão belos seriam os dias
Se cada flor que eu visse à janela
Fizesse brilharem os olhos dela
Com aquela singela e pura alegria!

Ah, meus sonhos!
Quão vazios seríeis
Se jamais tivesse visto a imagem
De tão sereno pajem...
Não... sem ele, nada valíeis.




Jejels, 16/08/2011.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Divagações sonoras

Se a frequência dos seus sussurros correspondessem àquela com a qual eu gostaria de ter você ao meu lado, não poderia ouvi-los, seriam ultrasons. Além disso, o comprimento de onda que nos envolve quando ouço esses sussurros é tão pequeno que sinto como se ela desse um nó em volta de nós, mas um nó tão apertadinho, que sinto sua respiração no meu ouvido. A intensidade com que essa onda provoca sentimentos em mim iria torná-la inaudível, pois excederia os limites de audibilidade.
Concluo então que não sou surda, apenas não ouço o que se passa entre nós por não ser possível... por ser um amor silencioso que brota em meu peito, um amor que vai além dos sentidos do meu corpo. Como falar de um sentimento que floresce no âmbito de minha alma, tão subjetivo e metafísico quanto o mero pensamento na existência dele?



Jejels, 15/08/2011.

sábado, 13 de agosto de 2011

Negócios




Ele cutucava o ombro dela com insistência.
- O que foi?
- Quer comprar um pica-pau?
- Hm... quero, sim. Quanto custa?
- Apenas um beijo.
Efetuado o doce pagamento, ela logo disse:
- Ei... estou arrependida da compra.
- E o que vai fazer?
- Devolver.
- Mas por que?
- Porque, na verdade, eu queria um furão.
- Tudo bem, já devolvo o pagamento...







Jejels, 13/08/2011.

03:07 am

Nem sempre sabemos explicar o que acontece conosco, porém... quem um dia já recebeu uma notícia que mudou imediatamente seu estado emocional – e para pior – sem saber bem explicar a razão disso, pode ter uma ideia do que se passa comigo. Quem um dia já ficou mal e, de repente, começou a socar o próprio colchão e atirou o celular em qualquer lugar por um impulso explosivo que ardia dentro de si, pode saber o que se passa comigo. Quem um dia não conseguiu dormir e ficou pensando justamente nessas coisas que causam essas reações sem conseguir mandá-las embora, pode saber também. E também poderá ter uma noção aquela pessoa que acordou no meio da madrugada pensando exatamente nisso e, ainda sem força para lutar contra os próprios pensamentos, apenas rendeu-se a eles e passou horas insone e solitária deixando que as lágrimas tentassem inutilmente levar para fora de si esses sentimentos que não deveriam estar ali.



Jejels, 13/08/2011.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.




Pablo Neruda.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quinta-feira

Sabe quando bate aquela ansiedade e você até está com sono quando deita na cama, mas não consegue dormir? Fiquei me revirando boa parte da noite, tentando pensar em coisas boas pra ver se conseguia embarcar nos meus sonhos, estava muito ansiosa pelo dia de hoje.
Esta manhã foi tranquila, mas à tarde, muitas coisas a fazer. Porém, a parte mais importante e esperada de hoje é à noite. Estive contando os dias por isso e agora, conto as horas. Ainda não consigo tirá-lo da cabeça e nem ao menos sei para onde vamos, mas a simples certeza de que terei uma nova chance de dizer o que preciso, deixa-me agitada.
O grande dilema de sempre... o que vestir? Meu quarto mais parecia uma loja de roupas em liquidação, havia peças espalhadas por todos os cantos: em cima da cama, na cadeira, na escrivaninha, penduradas na porta do armário e onde mais fosse possível. Não gosto de parecer arrumada ou desleixada em excesso e quando estou nesse estado, é difícil que eu me agrade de alguma combinação.
Depois de muito pensar, escolhi um suéter cinza, uma saia e uma meia calça preta e no exato momento em que terminei de pentear meus cabelos, ele ligou. Estava pontual, como sempre e ao mesmo tempo que isso me deixava feliz, fazia crescer o monumental nervosismo que corria em minhas veias. Corri de volta para o meu quarto, apanhei a bolsa e chequei se o envelope estava ali.
Cheguei até o carro e quando me viu, ele abriu um daqueles sorrisos que são impossíveis não retribuir. Então, chegou mais perto e me abraçou, apoiando a cabeça na minha.
Até então, eu não sabia para onde iríamos enquanto conversávamos e ele dirigia, eu repassava em minha cabeça tudo o que eu deveria fazer quando chegasse a hora, afinal, eu já havia adiado esse momento por tempo demais.
Quando ele estacionou o carro, me dei conta de que estávamos no parque. Havia algumas pessoas passeando na calçada, algumas sozinhas, outras em casais, outras, com a família. A noite estava agradável e serena, uma brisa suave cumprimentava quem estava por lá. Ele segurou minha mão e fomos até um dos bancos que ficavam perto do lago. Sentamos ali e ficamos a jogar conversa fora. Eu buscava dentro de mim a coragem para começar a falar, buscava nos olhos dele uma deixa, algum sinal de que era o melhor momento.
De repente, a iluminação baixou e tudo ficou bem mais escuro. Segurei a mão dele com mais firmeza e ele retribuiu, buscando meus olhos com uma expectativa que pulsava. Ele colou o rosto no meu e eu podia ouvir sua respiração, os lábios bem próximos ao meu ouvido.
- Olhe para o céu.
Foi quando a vi. A constelação da Ursa Maior cintilava sobre nós com um esplendor que eu jamais havia visto. De repente, estávamos os dois num parque escuro, abraçados em um banco em frente ao lago que espelhava toda aquela maravilha no céu. Era tão fantástico, que, por um momento, esqueci o resto do mundo e o que eu tinha ido fazer ali. Foi quando ele pousou os lábios em meu rosto que me lembrei, de súbito, da carta que estava em minha bolsa. Rapidamente, tirei o envelope de lá e coloquei nas mãos dele.
- Não dá pra ler agora, mas é para você.
Ele guardou o papel no bolso interno do casaco e voltou-se para mim novamente. Tudo aquilo parecia a imagem do perfeito e apesar do nervosismo, eu sentia a calma daquela atmosfera me envolvendo, parecia que estávamos entrando em sintonia. Ele voltou a me abraçar e um relâmpago cortou o céu.
Olhei para ele imediatamente, o súbito clarão deixou meus olhos absorverem vestígios de seu rosto antes que tudo ficasse escuro novamente. Ele também tinha virado o rosto para me ver e tive que me render ao impulso de colocar as mãos em seu rosto, afagando-o. Podia sentir sua pele tão macia e morna em meus dedos e foi quando percebi que tinha que ser naquele momento. Segurei as hastes de seus óculos e tirei-o de seu rosto enquanto apoiava minha testa na dele. Então pude perceber o brilho dos olhos dele no segundo antes de dizer...
- Eu te amo.
Ele ficou calado, apenas sustentando meu olhar enquanto as estrelas nos assistiam. Era a primeira vez que eu lhe dizia essas palavras e queria que fosse num momento especial. Depois de alguns segundos que pareceram horas, ele fechou os olhos e colou os lábios nos meus e no céu estrelado eu me perco com os pés na terra. Aquilo era como se tivéssemos voado juntos até as estrelas tão brilhantes como o amor que pulsava em meu peito.
A chuva não tardou a cair, mas o beijo não foi interrompido quando começamos a nos molhar. Aquele momento era nosso, só nosso e agora, não mais um fruto da minha imaginação. Aquele trovão havia iluminado minhas ideias e varrido para longe minhas incertezas.
Era quinta-feira, dia de Thor.





Jejels, 11/08/2011.

Pauta para a 80ª edição musical do Bloínquês.