domingo, 20 de fevereiro de 2011

Fênix

Olhos castanhos fitavam-na ao longe, apenas observando, tentando absorver o máximo de detalhes possíveis.
Ela estava vestindo um short bege que ficava folgado, uma blusa também mais solta de cor creme e um casaco cinza. O capuz cobria sua cabeça e os óculos escuros o impediam de enxergar seus olhos, instigando-o a imaginar de que cor estariam naquele momento.
Ela andava rapidamente, sem olhar para os lados. Passos firmes levavam-na a algum alvo que ele desconhecia. Curioso com o que se passava, ele apenas continuou seguindo-a com os olhos, chegando até a acompanhá-la mais de perto.
Ao contrário do que ele havia imaginado, seus olhos estavam cobertos pelas lentes escuras com um propósito: expressavam sentimentos que afastariam qualquer um de seu caminho. Os olhos dela refletiam a imagem dela mesma, queimando por dentro. Nada poderia tirá-la de seu rumo naquele momento.
Horas se passaram e ele continuava acompanhando os passos dela, até que, finalmente, chegou a seu destino. Apesar de ela ter optado pelas escadarias, o elevador poderia tê-la levado até a cobertura do prédio em muito menos tempo e com menos esforço. Porém, parecia que ela insistia em fazer sua caminhada sentindo nos próprios passos o gosto daquela procissão.
O que ele não esperava era que ela soubesse que estava sendo seguida. Muito menos que a conhecesse.
No momento em que ela tirou os óculos escuros, ele a reconheceu, finalmente. Os olhos mostrando o incêndio que se formara dentro dela, os cabelos longos escorrendo pelos ombros, debaixo do capuz. As mãos repousando ao lado do corpo, o queixo finalmente erguido para que houvesse o encontro de olhares. E enquanto ele observava as chamas, pôde finalmente compreender.
Ele nada disse. Palavras não cabiam ali. Sua vontade era de aproximar-se, de abraçá-la, de impedir que os pequenos pedaços de sua alma caíssem no chão, explodindo em mil gotículas quentes. Mas não foi isso o que fez. Apenas manteve o olhar firme, encarando-a. Ele estava quase suando com o calor próximo a si, o calor daquele incêndio. Ele podia quase tocar a ferida que via aberta no coração dela. Quase podia sentir sua dor. Mesmo assim, tudo o que fez foi ficar ali, estático, apenas observando.
Ela baixou os olhos a fitar o nada e foi nesse momento que preocupou-se com ela. Estava apostando na força que estimava, esperava que ela fosse se reerguer. “Recomponha-se!”, ele pensava, “eu sei que você consegue.”
Aproximou-se dela apenas quando a mesma caiu sobre os próprios joelhos, a cabeça mais baixa que antes. Ouvia-se o gotejar de sua alma no chão, pingos lentos e densos de uma intensidade assustadora, mas ele não sabia dizer que sentimento era aquele que transbordava com aquelas lágrimas.
Ao se aproximar, ajoelhou-se ao seu lado e surpreendeu-se com o que se sucedeu. Ao segurar o queixo dela para levantá-lo como sempre fazia em ocasiões semelhantes, não precisou mover a mão para que ela levantasse o rosto. Ao erguer a cabeça, ela deixou que o capuz caísse para trás, tirando a proteção da cabeça. Então ele pôde ver o fogo em seus olhos com mais nitidez que nunca. Um fogo diferente do anterior, diferente de qualquer outro que havia visto até então. A chama azul derretia-se nos olhos dela e seus cabelos pareciam, inexplicavelmente, brilhar com a luz tímida do sol que se escondia nas nuvens daquele dia nublado. Os cabelos também pareciam queimar, os fios reluzindo dourados, quase que alaranjados. O brilho que emanava dela era surpreendente, algo magnífico e único que o fez empalidecer.

Foi nesse dia que conheceu a áurea gloriosa dela. Uma fênix.




Jejels, 20/02/2011.




Pauta para a 76ª edição visual do Bloínquês.

Um comentário:

Roberto Flavian disse...

Ah, esse foi o melhor texto da Edição Visual que eu li. Parabéns.