sábado, 16 de abril de 2011

O contador de histórias

Ainda estava claro quando ele decidiu adentrar os enormes e enferrujados portões. Um rapaz com trajes casuais, bermuda e camiseta e uma mochila nas costas. Perfeitamente normal, sem nenhuma característica que chamasse atenção. Apenas mais um que passava pelo meu local de trabalho, apesar de não serem muitos ultimamente.
Acontece que este rapaz tinha uma atitude curiosa. Não parecia ir de encontro a algum local específico, apenas ficava rondando no gramado a olhar em todas as direções. Parecia muito interessado em sua investigação. Na verdade, parecia mais estar explorando o local.
Ele andava cuidadosamente, prestando atenção o bastante para desviar dos pedaços de galho que restavam na grama alta – fazia alguns dias que os jardineiros não a aparavam. Pacientemente, aproximava-se das inscrições dos túmulos e ficava a encará-las, tratava cada uma com respeito e interesse.
Por sua peculiaridade foi que larguei a pá no chão e passei a observá-lo. Há tempos não via alguém com tal disposição e interesse. Na verdade, a maioria das pessoas evitavam o local, o que tornava a visita dele mais curiosa ainda.
Acompanhei-o com os olhos; seus movimentos, os passos cautelosos, os olhos penetrantes – pareciam ler muito mais que as palavras inscritas e lapidadas. Foi quando me dei conta de que ele não apenas olhava, mas parecia mover a boca. Estaria falando sozinho?
Instigado com tudo aquilo, aproximei-me vagarosamente, na esperança de decifrar quem era aquele sujeito e o que estaria realmente fazendo ali. Foi quando ele parou na sombra de uma árvore, onde havia o velho banquinho de concreto. Primeiro, passou mais alguns minutos observando os arredores – tive que me esforçar um pouco para passar desapercebido pelos atenciosos olhos do rapaz. Ele então verificou os nomes nos túmulos mais próximos e só então se sentou no banco.
O dia estava um pouco ensolarado, mas algumas nuvens encobriam o sol vez ou outra. Ele encarou uma delas, abriu um sorriso e então proferiu:
- Boa tarde.
Assustei-me imediatamente. Pensei que ele havia notado minha presença, mas logo depois percebi que ele não estava se dirigindo a mim, mas aos que não o poderiam ouvir. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Ele estaria mesmo conversando com os que estavam abaixo da terra?
- Venho de longe, meus amigos. Não sei se algum de vocês chegou a conhecer, mas a cidade de onde venho tem um cemitério muito parecido com este aqui.
Suas palavras saíam naturalmente, mas respeitosas, no tom parcialmente grave de sua voz. Como poderia ele estar fazendo aquilo? Falava como se conversasse com alguém que estivesse realmente lá, como se pudesse ver, ouvir e se fazer ouvir pelas pessoas a quem se dirigia.Minha cabeça estava a mil, jamais havia visto algo assim. Em meus 13 anos trabalhando aqui, sempre ouvi boatos de espíritos, afinal, todos falam dessas coisas quando seu local de trabalho sugere essas malditas superstições e histórias mal assombradas. Porém, nunca acreditei em nenhuma dessas lendas. Pelo contrário, sempre as achei sem fundamento, coisas que só poderiam ter saído da mente de alguém estúpido – ou embriagado. O que eu via diante de meus olhos era a mais pura loucura! E o rapaz continuava a conversar com aqueles a quem chamou de ‘amigos’.
- Não venho até aqui para falar de mausoléus, entretanto.
Iniciou-se nesse momento um monólogo assustador. Ele começou a contar histórias para os que ali jaziam. Não eram histórias de sua vida, mas da vida de diversas outras pessoas, das mais variadas possíveis, mas todas entoadas como fantásticas, únicas, como se fossem de extrema importância. E eram, de fato, tão peculiares quanto o dono da voz que dava corpo a elas. Viagens a locais desconhecidos, invenções que mudaram a vida de uma cidade inteira, pessoas com dons extraordinários que acabaram levando embora sua sanidade...
- Então vos digo, meus amigos: sinto-me tão preso do outro lado daqueles grandiosos portões quanto um gavião numa minúscula gaiola! Os vivos não dão mais valor à vida, não ouvem mais o mundo, que dirá uns aos outros!
Ao findar das histórias, ele começou um discurso altamente crítico à sua sociedade contemporânea. Tecia frases e frases a respeito do quão a vida estava sendo banalizada e falava da importância de uma revolução de que ele mesmo já duvidava que fosse possível.
- Quanto mais vivo, mais percebo a intensidade que o individualismo vem atingindo o modo de viver das pessoas. Se é que ainda se pode chamar de viver! Trancafiam-se em seus mundos particulares, esquecem-se do mundo ao redor, desprezam as outras pessoas, acham que podem viver sozinhos!
A confusão em minha mente agora era exorbitante. Com que objetivo ele estaria falando tudo isso, principalmente, para pessoas que não o ouvirão?
- Venho até aqui para resgatar o verdadeiro sabor da vida, para conhecer pessoas que viveram verdadeiramente, absorver delas suas histórias! Todo ser humano é ímpar, de fato, mas não independente dos outros. Tenho me alimentado das mais diversas histórias, como podem perceber. Sou um coletor de memórias, delicio-me descobrindo pessoas e suas vidas.
Ainda com um ar sereno, levantou-se do banco, dando continuidade ao seu discurso.
- Peço que se houver alguma história, que seja compartilhada, para que aqui eu possa me alimentar com a vida que não encontro do lado de fora, onde reinam a monotonia e o descaso, onde a vida transformou-se em uma rotina executada de forma mecânica e inorgânica.
O ‘palestrante’ poderia até ser louco, mas ao menos, tinha alguma base para seu discurso. Eu já estava hipnotizado, não conseguia mover um músculo. Ele era um médium, afinal? Eu jamais havia vivenciado tal experiência e estava completamente boquiaberto com a situação.
Depois de contar histórias, ele esperava –de que forma, eu desconheço – ouvir algumas também. Voltou para a sombra fresca do cipreste e sentou-se novamente no banco, talvez à espera de alguma resposta. Ficou lá uns bons minutos e eu estava completamente inquieto a observar toda aquela loucura. Ele parecia sóbrio e estava muito paciente. Em um momento até me perguntei se não teria adormecido com os cotovelos apoiados nas pernas, mas quando eu estava quase desistindo de permanecer ali assistindo àquela cena bizarra, ele disse:
- Não vais mesmo contar-me nenhuma história?
Meu coração acelerou e fiquei ali, paralisado, esperando que ele dissesse mais alguma coisa.
- Sempre que venho visitar os mausoléus, fico horas a contar minhas histórias, gosto de ser ouvido, gosto de compartilhar fragmentos de vida que guardo em minha memória. Alegra-me encontrar quem queira ouvir, é uma pequena prova de que estou errado ao dizer que ninguém mais se importa com a vida.
Ele continuava sentado, de costas para mim, e mantinha o tom calmo na voz. Parecia que tinha em si uma paz tão forte que transbordava dele e começava a afastar o medo que eu sentia daquela situação toda.
- Fico grato por estar aqui. Gostaria de saber teu nome, de saber alguma parte da tua história para complementar a minha. Este trabalho é tão mal-visto pela sociedade atual, eu gostaria de saber um pouco sobre quem convive sempre com todas essas pessoas. Estes que sabem mais que nós e que estão tendo seu descanso merecido depois de suas jornadas.
Só então tive certeza de que ele falava comigo, mas ainda assim, demorei alguns instantes para me recompor e finalmente ir de encontro a ele.
A face jovem mostrava traços um pouco alongados e finos fiozinhos de uma barba quase imperceptível. Os lábios moveram-se formando um sorriso de inexplicável satisfação quando os olhos pousaram em mim. Era um rapaz novo, não devia ter mais de vinte anos e de seu semblante emanava a mesma paz que transbordava de suas palavras. Ele fixava os olhos em mim, parecia que apenas a minha presença já lhe contava mil histórias emocionantes como as que ele havia proferido anteriormente. Com um grande respeito, ele conduziu uma conversa sobre o passado de ambos que não terminou antes do raiar do dia seguinte, tamanha a abrangência dos fatos que íamos contando: um ligava a outro e este, por sua vez, direcionava-nos a mais uma história. Foi então que percebi que, na verdade, estava frente a frente com o melhor contador de histórias que o mundo já possuiu. Ele não era nenhum escritor renomado, nenhum estudante com uma mente genial, mas era um apaixonado pela vida em si. Coletava histórias de pessoas comuns e compartilhava-as com os que se interessavam em ouvir, aqueles que ele dizia serem os verdadeiros vivos, os que ainda viam a importância de estar no mundo. Eu via o modo como ele desempenhava sua função como o fator que o diferenciava da maioria. Ele era calmo, sincero, atencioso e deixava-se guiar por sua paixão e por sua vontade de resgatar aqueles que ainda não tinham sucumbido ao que chamava ser a morte da alma.
Depois desse dia, não voltei a vê-lo, mas passei a sentir uma paz tão grande, que era como se o visse todas as tardes, naquele mesmo banco, sempre que passava por aquela parte do cemitério. Passei a prestar mais atenção às coisas simples da vida, coisas que nos fazem sentir vivos e que estão a cada dia perdendo sua importância para a maioria das pessoas. Tornei-me como ele, de certo modo, um contador de histórias e descobri que coletá-las torna-se uma consequência. Todos nós temos vidas extraordinárias, apenas nos esquecemos disso.











Jejels, 13/04/2011.


Pauta para o 1º desafio Bloínquês.

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