sexta-feira, 1 de abril de 2011

O ipê

A manhã estava clara como o reflexo de meus olhos no espelho. Eu estava, finalmente, conseguindo me recuperar do acidente, já conseguia dormir algumas horas por noite.



Comi alguma coisa, mas nada como antes, ainda não sentia o organismo funcionando normalmente, não sentia a necessidade de comer. Meu corpo ainda estava manchado do tom escuro dos hematomas, mas já havia melhorado bastante, o rosto não mais inchado, já não parecia tão horrível e deformado como na semana anterior.



Ter tido alta no hospital fora uma grande conquista, mas ainda havia um longo caminho até estar completamente capaz de voltar a trabalhar. Isso me dava muito tempo para pensar, e isso era o que me assombrava. As imagens sempre voltavam, tão nítidas e vivazes, pareciam nunca apagar-se de minha memória... com exceção de um momento em que parece que tudo resume-se a um borrão, uma lacuna. Todas as noites revivo o acontecido, parando sempre no mesmo ponto, sem entender o desfecho de minha própria história.



Esta foi a primeira noite que passei em casa. Não foi tão difícil quanto pensei. Na verdade, tudo correu perfeitamente como deveria, como sempre foi. O estranho era acostumar-me a essa sensação de que algo ficou em branco, de que falta uma peça no quebra-cabeça de minha vida.



Resolvi tomar um banho e sair para a praça onde sempre caminhava pela manhã. Era sempre agradável respirar um pouco de ar fresco, ouvir um pouco dos sons da rua, das pessoas que também caminhavam por lá, observar as plantas do jardim... ah, os ipês! Tão lindos e coloridos, eram a minha paixão!



Estava saindo de casa quando percebi a pilha de cartas que tinham ficado amontoadas na caixa de correio devido ao tempo que passei hospitalizada. Aproximei-me, juntei todas nas minhas mãos, carregando-as para a mesa na sala de estar. Quando observei-as melhor, esparramadas, percebi a semelhança intrigante dos envelopes: todos pareciam vir de um mesmo remetente, pois eram de um tom amarelo envelhecido, com inscrições numa caprichosa caligrafia em tinta preta. Curiosa, pus-me a abrir todos eles, descobrindo a cada envelope rasgado, um desenho diferente. Mas não eram desenhos comuns, pareciam abstratos, inteligíveis. Interessantes, até.



Larguei-os desorganizados sobre a mesa e segui para a porta de casa. Ao sair, podia me sentir melhor com a visão do lado de fora. Aquelas semanas entre quatro e inexpressivas paredes brancas haviam privado meus olhos das magníficas cores que a vida tinha aos arredores de minha casa. Sempre gostei do local por conta dos jardins que circundavam a vizinhança. A variedade de flores e perfumes, aquele ambiente bem cuidado trazia uma atmosfera de paz que jamais senti em outro lugar.



Passei pela praça, contemplei a fonte no centro, os pombos que passavam por ali, as flores que enfeitavam as árvores. Não encontrei, porém vestígio algum dos vizinhos ou de qualquer outro transeunte. Devia ser pelo horário, ainda estava bem cedo. Os ipês estavam lá, mas fiquei um pouco chateada, confesso, de não vê-los floridos. Sentei um pouco no banquinho de madeira, à sombra de uma macieira e passei alguns bons minutos ali, apenas olhando o céu e as plantas.



Caminhei de volta para casa, já sentindo uma paz dentro do peito, uma sensação de estar de volta ao lar, de estar melhorando depois de tudo o que aconteceu. O barulho dos vidros do carro quebrando contra o chão, a textura do sangue a escorrer pelo meu corpo tinham sido substituídos pelo som dos pássaros e o frescor da brisa que soprava meus cabelos.



Girei a chave e a maçaneta da porta da frente, mas quando cheguei em casa, percebi que os papéis não estavam mais lá. A mesa estava vazia, como se eu não tivesse pego os envelopes em minha caixa de correio. Virei-me para checar, mas não havia nenhuma carta lá fora. Assustada, tranquei a porta e subi as escadas, dirigindo-me até meu quarto. Chegando lá, encontrei os desenhos colados em minha parede. Não pude conter a expressão incrédula que se formou em meu rosto ao perceber o enorme ipê florido formado pelos pequenos desenhos em folhas A4 que agora ocupavam por inteira a parede ao lado de minha cama. Aliás, em cima dela estava um último envelope, semelhante aos anteriores, que abri impulsivamente, pouco me importando em rasgá-lo.



As palavras fizeram-me olhar pela janela e encontrá-lo. Minha cabeça havia bloqueado esta parte do acidente. A parte que antecedia minha chegada ao hospital. Com lágrimas nos olhos, corri escada abaixo ao encontro do meu salvador. Minhas memórias voltavam de uma vez à minha cabeça, agora completas. O amor de minha vida esperava-me sentado na calçada. As roupas limpas, os cabelos penteados, um braço enfaixado... e meu coração em suas mãos.



Jejels, 27/03/2011. - Pauta para a 60ª edição hístória/conto do Bloínquês.





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