segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os ganhos da perda

No meio de toda aquela confusão, ela apareceu. A estação do metrô estava lotada, parecia cuspir pessoas para todos os lados. O barulho consistia uma poluição sonora que começava a machucar seus ouvidos, mas ela sabia que era preciso estar ali naquele momento. Olhou para o relógio pela milésima vez, inquieta. Em quinze minutos, sua irmã estaria chegando à estação. Ela caminhou para mais perto de onde o metrô chegaria, afim de poder vê-la chegar e evitar um desencontro com todo aquele aglomerado de gente. Enquanto esperava ali, em pé, ficou repassando os fatos novamente em sua cabeça. Os diversos desentendimentos e brigas haviam levado qualquer amizade que ainda pudesse existir entre as duas. Apenas nos últimos dias ela havia se dado conta de que as picuinhas eram tão estúpidas que ela nem ao menos sabia dizer ao certo qual o motivo de todo aquele estranhamento. Afinal de contas, ela era sua irmã. Sentia o peito pesar ao perceber que não conseguia recordar qual fora a última vez que as duas estiveram juntas ali, na cidade onde nasceram. Na primeira oportunidade que teve, sua irmã viajou para o litoral, onde o mercado de trabalho era melhor na área em que resolvera atuar. A mãe quase ficou louca quando soube da decisão da filha, mas teve que aceitar - ela já não era uma criança. E depois de tantos anos afastadas, ela estava retornando.
Os minutos passaram-se ligeiros e o veloz transporte logo chegou à plataforma, deixando-a mais nervosa que estava antes. O reencontro seria difícil, principalmente naquelas circunstâncias. Porém, ele seria também o aliceres que ela teria para se apoiar naquele momento. Os saltos altos batiam contra o chão, recordando-a do gosto tão diferente do dela para se vestir. Usava uma meia calça escura e o vestido era preto, marcando a silhueta de seu corpo bem desenhado. Um grande óculos escuro cobria seus olhos, mas mesmo assim, ela sabia que estes estariam pintados com uma maquiagem de muito bom gosto. Andou sem jeito até ela, sem saber ao certo como agir ou qual seria sua reação.
Os óculos de sol foram postos sobre a cabeça, deixando os compridos fios de cabelo castanho escuro posicionados para trás. O encontro de olhares foi silencioso e significativo. Intenso. O silêncio foi apenas de palavras e gestos até ser quebrado por um abraço. O fluxo de sentimentos era demasiado para ser contido. As lágrimas brotaram quentes e densas, sinceras e acolhedoras.

- Desculpe!

Essa foi a única palavra que pôde pronunciar, meio cortada pelo soluço trêmulo em sua voz. Sua irmã, porém, apenas balançou a cabeça, retendo uma lágrima nos olhos esfumaçados de lápis de olho e sombra acinzentada.

- Eu é que lhe devo desculpas.
- Fui tão estúpida todos esses anos!
- Você apenas achou que eu não deveria ter seguido esse caminho, achou que era arriscado demais...
- Depois que tudo deu certo, mamãe ficou orgulhosa por você.

Uma pausa preencheu alguns minutos em que entregaram-se novamente uma nos braços da outra. As lágrimas não puderam mais ser contidas.

- Por que não podemos começar tudo de novo?

A resposta foi um meio sorriso, ressurgido daquela lagoa de tristezas e mágoas que agora diluía-se na amizade que reflorescia naquele momento.
Há pessoas que pensem que a morte separa as pessoas, que traz apenas infelicidades, mas naquela tarde, os últimos momentos com a mãe renderam a reconciliação e a amizade. O amor entre as duas foi a força que encontraram para superar aquele momento e apagar de vez todo o rancor que poderia ter existido um dia.







Jejels, 18/04/2011.
Pauta para a 65ª edição musical do Bloínquês.

Um comentário:

Bell Souza disse...

OFF: eu não sei se posso comentar aqui, mas não sei onde responder, então... Sua nota da 29ª Edição Poemas Bloínquês:
Ortografia:9,8
Criatividade: 9
Adequação ao tema: 9,5
Rima: 9,6
Emoção: 9
Média: 9,38