sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reconhecendo



Eu estava totalmente alheia a qualquer coisa que estivesse acontecendo naquela festa. Não estava com clima para nada daquilo e também não estava disposta a melhorar meu humor. Tudo no que eu conseguia pensar era na rejeição que estava sofrendo... eu sabia que era doloroso para ele, mas não entendia o porquê de tanta distância. Aquilo realmente me machucava e eu não conseguia descobrir ao certo se era porque mesmo tendo pondo um fim em nós, eu ainda sentia algo por ele.


As pessoas estavam felizes, riam à toa, contavam piadas. Inclusive ele. E isso era a outra coisa que não entrava na minha cabeça. Como ele podia dizer que estava aos pedaços quando parecia tão sólido emocionalmente em público? Já não era a primeira vez que eu me questionava a respeito disso. E em todas as outras em que isso se repetiu, eu sentia uma dor bem no fundo, tal qual um alfinete a me espetar o coração. Buscar pelas respostas era completamente inútil, pois, quanto mais eu pensava no assunto, menos certezas eu tinha de qualquer coisa que fosse.


E estava eu ainda a pensar nisso tudo quando resolvi dar um basta na situação. Quero dizer, o que eu estava fazendo ali junto àquelas pessoas tão entusiasmadas celebrando um aniversário? Eu simplesmente não me encaixava naquela cena. Resolvi então me retirar por alguns momentos, para tomar ar, ou quem sabe, fosse mesmo para fugir daquela imagem na minha frente daquele rapaz tão confiante de si que nem parecia aquele que havia chorado em meu ombro dias atrás.


Fui para fora de casa na tentativa de me afastar da festa. Busquei abrigo no meio-fio e continuei a dialogar com meus inquietos pensamentos, a dura consequência de não conseguir aceitar tudo aquilo. E quando eu estava nesse embate não-verbal comigo mesma foi que ele apareceu ali. Eu não o tinha chamado, mas pelo que entendi, ele percebeu minha saída da sala de visitas e resolveu me procurar por algum motivo. Será que ele não se contentava com meu sofrimento? Precisava vir atrás de mim para colocar o dedo na ferida? Na verdade, ele nem precisava estar fisicamente ali comigo para fazê-lo, uma vez que ele fazia questão de sempre invadir minha cabeça e acabou enraizando-se de vez.


Ele sentou ao meu lado e ficou a me encarar por um longo instante. Foram alguns minutos de um rio de silêncio que passou por nós e que ele dissolveu perguntando se estava tudo bem. Não sei o que ele pretendia com aquilo, porque, afinal, era óbvio que não estava nada bem. Quando meus olhos o comunicaram esta frase, ele fitou o chão por alguns segundos e então se aproximou mais um pouco de mim. Quando ele segurou minha mão, meu coração disparou e eu cheguei a sentir raiva do gesto dele. Nesse momento, minha irmã saiu de casa também e começava a vir com minha prima para onde estávamos. “Que diabos ele está fazendo?” era o que começava a ecoar em minha cabeça e foi interrompido pela inesperada atitude que se seguiu: um beijo.


Eu mal conseguia conter o furacão a me consumir por dentro... apesar de tudo o que tinha acontecido, ele ainda balançava minhas estruturas, ainda me fazia arder por dentro com seu toque. E eu senti um impulso enorme de afastá-lo no início, de impedi-lo de continuar com aquilo, de dizer “eu não quero mais você por perto! Saia daqui, pare de causar todo esse estrago emocional em mim!” E foi o que eu tentei falar, mas as pessoas me impediram. E não diretamente, mas a simples presença de minha irmã e minha prima ali me censuravam a fazer o que parte de mim gritava ser o mais prudente. E ele, de certa forma, o jeito que encostava os lábios nos meus, também não me deixaram reagir de outra forma que não fosse retribuir.




Quando ele afastou seu rosto do meu, minha irmã finalmente disse que era hora de cantar os parabéns e ele apenas olhou para mim como quem pede licença e se levantou enquanto as duas voltavam para dentro. Eu permaneci sentada, ainda sem saber o que fazer e ele me perguntou se eu não iria entrar. Respondi, com a voz falha que me restou, que ele fosse na frente. Com passos lentos, ele virou as costas e fez o caminho até a porta, deixando-me a sós com meus pedaços mais uma vez, ainda sentada em frente à rua.


Uma lágrima insistiu em sair lá do fundo, mesmo com toda a força com que eu lutava contra ela. Uma lágrima sincera, mas cheia de dor por reconhecer a verdade. No fim das contas, eu tinha cometido um erro e podia sentir pulsando em mim o amor que eu tinha negado, mas que ainda vivia ali, correndo voraz por minhas veias e que, por tê-lo negado, talvez eu mesma estivesse a destruir.




E é impossível descrever com palavras o quão doloroso era redescobri-lo.








Jejels, 15/04/2011.


Pauta para a 62ª edição conto/história e a 19ª edição roteiro do Bloínquês.






Um comentário:

rafaela ivo, disse...

Fantástico esse texto, foi o único que não vi nenhum erro ortográfico. Parabéns pela sua precisão ao escrever! A gama de emoções passada ao longo do texto mostra a intensidade do mesmo. Nem tenho muito a comentar, é um texto digno de parabéns. Obrigada pela participação nessa edição, e um grande beijo!

Avaliação Roteiro - Projeto Bloínquês.