quarta-feira, 18 de maio de 2011

Apenas lembranças


Naquele momento, tudo parecia ruir sem aviso e sem hesitação. Os escombros caíam sobre minha cabeça, já incapaz de reagir a qualquer estímulo para trabalhar. Havia dado tudo errado e eu não tinha mais o que fazer para evitar aquele efeito dominó. Meus pais sempre foram super protetores e no fim, eu me encontrei despreparada para o que viria. A sobrecarga de tarefas e informações atingiu-me de modo certeiro e eu sucumbi com minha ineficiência. A vida adulta estava a se abrir à minha frente como um mundo novo - e inóspito – e a única certeza que me restara era a de que eu não sabia lidar com aquilo.
Eu precisava de um apoio, sempre precisei. Mas agora, o único suporte que eu tinha era eu mesma e minha esperança moribunda de que as coisas iriam se resolver cedo ou tarde. Essa crença, porém, estava cada vez mais fraca desde que eu havia chegado aqui. Agora entendo a relutância dos meus pais quando anunciei que conseguira a bolsa para o intercâmbio. Eles já sabiam das minhas limitações, do meu emocional regido pelo temperamentalismo. E quando Cal anunciou sua partida, tudo pareceu agravar-se. Ele tinha decidido me acompanhar até o fim e era o último fio que me separava do abismo do desequilíbrio completo. Agora eu havia chegado ao ápice de meu fracasso; estava num país totalmente diferente do meu, enfrentando a neve que nunca havia imaginado, tinha sido humilhada na nova faculdade por causa de minha nacionalidade e não havia conseguido a vaga para o estágio. Como se não bastasse, aquela cidade parecia tornar-se tão densa e fria que tragava minhas energias e meu ânimo, congelava minhas esperanças.
Minha nova casa era apenas um amontoado de concreto frio e por mais que fosse uma boa casa, jamais poderia ser chamada de lar. Minha família estava a quilômetros de mim, assim como os poucos, mas sinceros amigos que cultivei um dia. E Cal... ele foi quem acreditou em mim desde o início, quem me apoiou em minha decisão antes de todos, mas foi quem teve de ir embora levando qualquer vestígio reconfortante que pudesse existir para mim. Quero dizer... todos menos um.
Mesmo que tudo esteja ruindo, eu ainda não caí. Ainda estou aqui, mesmo sozinha, mesmo humilhada e fadada ao fracasso. As lembranças me dão a força mínima de que preciso para continuar suportando apenas almejando chegar ao fim para retornar. Quem sabe nesse dia tudo possa voltar a ser como antes e então abraçarei meus pais como um recém-nascido abraça vida. E talvez Cal também esteja lá, sentado ao piano, tocando para me fazer esquecer a dor como estava aqui até ontem. Então sua música transportar-me-ia ao calor e à tranqüilidade que ele guardava para mim. O mesmo calor e a mesma tranqüilidade que eu busco agora, em minha memória, sentada ao piano silencioso que ainda exala um último suspiro de sua presença aqui.







Jejels, 18/05/2011.




Pauta para a 69ª edição visual do Bloínquês.

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