terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinza chumbo

Parecia ter chegado ao fim. Todo aquele alvoroço, as mudanças, a extrema cautela com que publicavam o jornal parecia terminar do modo que eles tanto lutaram para evitar. Foram descobertos, essa era a única explicação plausível para o desaparecimento de Tomas e Marcos. Dois irmãos, teus tão amados filhos, arrancados do lar e sabe-se lá para onde os possam ter levado. Ah, Maria, tu sabias que deverias ter protestado! Deverias ter contestado tudo aquilo para proteger teus filhos desse fim. "Comunistas", como diziam, "acabam assim". Eles diziam que não estavam fazendo nada de errado, Maria, mas a censura não perdoa aqueles que a transgridem. Pobre mãe com teu sofrimento, o sentimento de perda que pesou em dobro em teu coração. Para que tudo isso? Por que levá-los embora assim? Não há misericórdia para com as mães dedicadas que morrem de amor pelos filhos que criam com tanto cuidado? São partes tuas, Maria! Saíram do teu ventre e agora o mundo as amputa de teu corpo, de tua casa. Maria já procurou na sala, nos quartos, no banheiro e na varanda... nada de Tomas, nada de Marcos, nem de quaisquer que fossem os inúmeros pseudônimos por eles usados para divulgar suas ideias, suas inconformidades com o rumo que tomava o país. Esperança? Salve lindo pendão da esperança! Nesse país de sombras e correntes onde antes reinava mata, riacho, índios e nascentes, o cinza devora o que antes era verde. Nesses dias o que se vê é a insegurança estampada nas ruas, duvida-se de tudo e de todos. Ela tentava, mas não conseguia esconder o seu nervosismo. Não podia ser verdade que tivessem levado seus motivos de existir. O desespero ao pensar nos boatos sobre o que acontecia nessas ocasiões fez sua pressão subir de tal modo que Maria logo pensou que ela própria morreria ali, naquele momento. Correu para a cozinha para tomar um copo de água com açúcar e foi no armário embaixo da pia que encontrou a salvação. Chora, Maria. Deixa o medo se esvair na forma de lágrimas, sentindo alívio a cada linha que teus olhos percorrerem. A carta dos filhos explicava os motivos da repentina viagem para o exterior e Maria sentiu o peito encher-se de orgulho ao perceber o quanto os dois foram inteligentes ao optarem por deixar o país diante do prelúdio de tempos mais inóspitos ainda. É, Maria, agora enxugua as lágrimas e queima a carta que os milicos hão de bater na tua porta.




Jejels, 31/05/2011.


Pauta para a 69ª edição conto/história do Bloínquês.








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