sexta-feira, 6 de maio de 2011

Erick

O mês era junho e o inverno estava mais frio que de costume. Eu amava esse tempo frio, a neve branca a cair sobre as telhas, as noites em casa perto da lareira – mamãe sempre gostou de contar histórias enquanto tomávamos chocolate quente. Mas o que mais me agradava era vestir as roupas quentes, colocar um cachecol ao redor do pescoço, as luvas e meu gorro de lã feito pela vovó e sair para passear aos arredores da rua.
Havia um lago próximo a minha casa que sempre ficava congelado durante a estação, convidando-me a patinar sobre o gelo. Nunca tive habilidades extraordinárias para isso, apenas gostava de deslizar sobre a superfície lisa e gelada, fazia-me sentir livre. Apesar de nunca ter feito treinamento algum, devido ao tempo que passava com os patins, acabei me familiarizando com eles e já tinha bom equilíbrio para deslizar um pouco mais rápido e às vezes até arriscava movimentar-me de costas.
Minhas visitas ao lago congelado aumentavam a cada ano, porém, nesse inverno encontrei algo novo – uma companhia. Erick tinha se mudado para a cidade havia algumas semanas e também estava morando próximo ao local. Ele foi ao lago para patinar, mas ao contrário de mim, ele era habilidoso e seus movimentos eram tão fluidos que ele patinava tão à vontade quanto se estivesse caminhando.
Conversamos muito logo na primeira vez que nos vimos. Minha timidez era um empecilho irrelevante comparado à empolgação dele por ter conhecido alguém novo após sua mudança. Desde então, sempre que vou patinar ele me acompanha e acabamos criando uma amizade forte e sincera. Ele era sempre paciente e tentava me ajudar a fazer movimentos mais elaborados. A presença dele era como um presente, mesmo quando ele ria levemente quando eu caía após alguma tentativa fracassada de imitá-lo.
Na manhã de domingo, acordei animada para sair. Tinha combinado com Erick de passarmos a tarde no lago e depois tomarmos um chocolate quente. Quando saí de meu quarto para tomar o café da manhã, percebi que havia uma carta em cima da mesa, a qual minha mãe disse ter sido deixada bem cedo pelo meu tão querido amigo. As palavras eram um doce lembrete de nossa programação e um aviso de que ele tinha algo importante para dizer. Aquilo, é claro, apenas aumentou minha ansiedade pelas próximas horas e fez-me perder um bom tempo escolhendo o casaco e a boina de lã que usaria na ocasião.
Finalmente pronta, não parava de me questionar sobre o que ele diria. Sem chegar a conclusão alguma, cheguei ao local e já o avistava perto da ponte com aquele seu sorriso tão acolhedor e irradiante que seria capaz de derreter toda aquela neve. Ele me chamou para onde estava, convidando-me a calçar os patins com ele. As lâminas riscavam o gelo e ele era tão gracioso que por um instante todo o mundo concentrou-se naquele momento, naquela pessoa tão leve e espontânea que eu via ali. Fiquei tão envolvida pelo deslizar dele que quando me dei conta, lá estava ele, tão próximo como nunca esteve, pousando as mãos no meu rosto, acariciando meu cabelo.


- Mesmo com essa cara de boba me olhando, você está linda hoje, sabia?

Um pouco desnorteada com a mínima distância entre nós, apenas sorri e disse:

- E você está convencido, como sempre... era o que você tinha para me dizer?

Ele respondeu sem se afastar:

- Talvez fosse uma das coisas.

- O que era então?

Nesse momento, ele já estava com os olhos tão fixos nos meus que isso fez com que meu coração ficasse aos pulos. Eu já não conseguia desviar o olhar.

- É que antes de irmos à lanchonete, eu ainda tenho uma última coisa para fazer.

O rosto dele ficou cada vez mais próximo e meus olhos se fecharam. Meus sentidos estavam concentrados nele: seu calor, a textura de suas mãos em meu rosto, até sua respiração... e então senti aqueles lábios que emolduravam o sorriso que me fez tão bem naquele inverno.













Jejels, 06/05/2011.

Pauta para a 22ª edição roteiro e 65ª edição conto/história do Bloínquês.












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