sexta-feira, 20 de maio de 2011

Lobo

Ela caminhava sem pressa. Tinha os passos contados na cabeça, todos no tempo certo, no ritmo certo. Já estivera naquela situação antes e por isso mesmo estava com total controle desta vez. Nada iria arruinar seu plano, nada poderia derrubar sua autoconfiança. Não desta vez. O caminho que fora percorrido tantas vezes com ansiedade, a pulsante vontade de vê-lo, de sentir seu calor e seu beijo, desta vez o era com a ânsia por outro destino. Apenas ela seria capaz de fazer o que era preciso e era para isso que ela havia voltado.
A casa de Jake ficava perto do lago e era uma construção de madeira que escondia por trás de seu visual simpático as atrocidades cometidas ali. Havia diversas árvores por perto, era um local isolado. Jake poderia até ser confundido com um hospitaleiro lenhador, um homem bondoso que ganhava a vida honestamente. Mas Scarlet sabia o que ele realmente havia por trás dessa fachada. Por muito tempo ela ficou cega pela mágica paixão que sentira por ele desde que se encontraram, mas agora que tudo havia se diluído, ela estava voltando para cumprir seu dever.
Seus olhos apreciavam as árvores e seus grandes galhos cobertos por folhas verdes, porém que não ostentavam flor alguma. E então pensou que mesmo que ali houvesse flores, seu perfume jamais seria sentido por causa da podridão das mentiras que ali eram semeadas. As folhas balançavam com o vento, cumprimentando a visitante pela última vez enquanto ela tirava do bolso de sua capa a chave tão bem guardada que lhe servira para adentrar a morada dele naquela noite em que jogara fora tudo o que seus pais haviam dito para não fazer. A noite que havia mudado sua vida para sempre.
Com a tranqüilidade de quem planejou aquilo nos mínimos detalhes, girou a maçaneta e pisou nas tábuas de madeira já esperando que o familiar ranger destas viesse estalar em seus ouvidos – e nos dele. O homem, ao contrário dela, estava despreparado, em frente à lareira. Um sobressalto invadiu seu corpo quando percebeu a inesperada visita e em seguida seus olhos encheram-se de medo, o que Scarlet achou muito apropriado. O rosto dela ainda estava expondo o corte que ela fez questão de preservar e que lhe provia um ar desfigurado, digno de causar arrepios acentuados por seu par de olhos verdes.
Jake jamais esperara que ela fosse capaz de voltar e isso realmente o assustava, mas então se lembrou do quão inocente e frágil ela provara ser. O relógio na parede indicava os últimos minutos antes do amanhecer e o sorriso no rosto da menina apenas parecia tornar a situação mais sinistra. A segurança dela era algo que ele realmente não entendia, mas não havia espaço para estender seus pensamentos, ele precisava saber o que estava acontecendo: levantou-se e foi em sua direção.
Scarlet observava os passos do homem com profundo interesse, ainda mantendo os dentes à mostra. Estava se preparando ao vê-lo caminhando de encontro ao que ela havia preparado para ele. A capa era o suficiente para esconder o punhal de prata que ela mesma havia forjado. E aquilo bastaria para pôr um fim àquilo tudo. Para findar seu pesadelo e acabar com toda a dor que ele havia causado a ela.
Jake, ainda estranhando o comportamento calmo de Scarlet após o episódio em que revelara para ela seu segredo, apenas continuou caminhando ao seu encontro enquanto a menina finalmente recuava, passando pela porta até o lado de fora onde o vento parecia sussurrar profecias antigas.


- Scarlet... você está bem?

Porém, ela apenas infiltrou seus olhos de esmeralda nos dele e o fez com tal intensidade que podia enxergar o medo dentro deles.

- Eu sinto muito pelo que aconteceu... não tive controle sobre mim.

Jake estava olhando para o que fizera em seu rosto. Sua voz demonstrava uma preocupação que fez com que Scarlet sentisse náuseas. Ela sabia muito bem o que havia acontecido e não deixaria que ele continuasse a ludibriá-la com todas aquelas palavras que pareciam sempre tão amáveis. Mais que tudo, ela sabia que tinha sorte por estar ali, de pé, sem estragos maiores que a deformação em seu rosto que outrora fora acariciado pelas mãos daquele que quase a matou.

- Scarlet, você veio me perdoar? Você voltou para mim? Oh, Scarlet, não sabe o quanto amaldiçoei a mim mesmo pelo que aconteceu... você e eu devemos ficar juntos, fomos feitos um para o outro e os caminhos nos trouxeram para este lugar para que pudéssemos nos encontrar. Eu vim de tão longe apenas com o pressentimento de que a encontraria aqui e você finalmente voltou para mim! Pensei que nunca mais a veria novamente!

No momento em que Jake aproximou-se para abraçá-la, ela sentiu a silhueta fria do metal em sua mão e finalmente cumpriu seu objetivo. Os olhos de Jake abriram-se com o baque que explodira em seu coração e seu sangue quente manchava a capa de Scarlet. Seu corpo tombou e ela se afastou, deixando-o cair na relva. Ele começou a gritar sentindo a dor intensa que fazia suas entranhas queimarem em contato com aquele único material que seria capaz de causar tal incêndio em seu corpo. Ela havia voltado, sim, mas para vingar-se. Agora tudo estava claro. Ainda com a voz emoldurando os gritos, ele voltou sua cabeça para sua casa e, pela porta entreaberta, olhou o relógio e viu que não dava mais tempo. Ela realmente havia pensado em tudo: o amanhecer já estava chegando e ele não teria forças para se regenerar, não havia mais saída.
Ele fitou os olhos dela pela última vez e ainda encontrou dentro deles um pequeno vestígio daquela que dissera amá-lo antes do incidente acontecer. Ele não conseguia acreditar naquilo tudo, mas também não queria culpá-la, pois sabia o que tinha feito e sabia, mais ainda, que guardava em si uma natureza, um monstro que não podia controlar e que colocava a vida de todos ao seu redor em risco.
Uma lágrima escorreu no rosto de Scarlet enquanto os dois se olhavam e o sol já anunciava seus primeiros raios. Então a garota ficou ali, inerte, apenas assistindo alvorecer ao som dos últimos suspiros de vida dele... então um novo dia nasceu.





Jejels, 20/05/2011

Pauta para a 70ª edição musical e a 67ª edição conto/história do Bloínquês.





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