sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Falsas impressões

Uma borboleta azul que voava levemente passou pelo meu campo de visão no exato momento em que eu ia desistir de falar. A coragem não vinha nunca e eu já tinha perdido a conta de quantas vezes eu tinha tentado pronunciar as palavras necessárias e elas simplesmente se perdiam e mascaravam-se, empurrando outras palavras que pudessem ser lançadas em seus lugares. Quando comecei a conversa, o céu era de um azul claro e límpido, livre de nuvens e pairava sereno sobre nossas cabeças. Agora algumas faixas irregulares e alaranjadas rasgavam aquela tranquilidade azul, pintando o céu com cores quentes. A caça às palavras havia durado horas até aquele momento, eu havia passado praticamente todo o dia tentando capturá-las para então conseguir pôr um fim àquela situação. Eu havia suportado aquilo por tempo demais, não restavam dúvidas disso, mas por algum motivo, era sempre sufocante o mero pensamento em dizer isso a ele quando sua presença materializava-se ao meu lado. O fato era que não podíamos continuar com aquela farsa, não levaria a nada e nós dois sabíamos disso – ou ao menos, deveríamos saber. Na verdade, nunca entendi o motivo de ele ter aceitado começar essa loucura, afinal, era um problema meu e apesar de que ele fosse meu amigo, não existia realmente um motivo concreto para que ele me ajudasse. Os dias foram passando e com o tempo foi ficando mais claro que nosso plano estava dando errado. Renato jamais pareceu ter ciúmes quando nos viu juntos e sequer demonstrou surpresa, o que eu nunca consegui entender. Quando ele resolveu dissolver nosso relacionamento, perdi o chão, quase enlouqueci. Perante todo o meu sofrimento, Caio logo se prontificou a me ajudar, colocou-se ao meu lado sempre que precisei de um ombro amigo para chorar. Então tive a ideia maluca de tentar fazer com que Renato sentisse ciúmes de mim na esperança de que isso fosse fazer com que ele voltasse. Desde então, Caio e eu começamos um relacionamento de início totalmente falso, mas que logo foi tomando um rumo diferente do planejado. Às vezes nos divertíamos tanto que eu já não pensava em Renato, não como antes. Minha cabeça estava ficando cheia de dúvidas e confusões até ontem, quando estava voltando para casa e encontrei Renato no caminho. Ele não me viu, mas o mero fato de sua proximidade não me causar mais calafrios e aquela imensa vontade de chorar, a ausência de lembranças de nossos momentos juntos foi o suficiente para que eu finalmente admitisse que eu estava me enganando há algum tempo. Eu já não sentia mais aquela paixão por ele, ela havia se voltado para Caio. Depois de todos os meus dias ruins tendo ele ali ao meu lado e com todos aqueles novos dias que ele me ajudou a construir, ele reergueu o sorriso em meu rosto. Era por ele que meu coração batia mais forte.
E como já disse, estava eu o dia inteiro procurando as palavras certas para dizer a Caio que não podíamos mais continuar juntos. Eu simplesmente não suportaria continuar vivendo aquela farsa, pois ela tornara-se real para mim. O meu sentimento realmente existia, mas doía profundamente só de pensar que eu estava me iludindo, que estava perdendo esse sentimento pela segunda vez. Não, eu não queria me machucar assim de novo. Porém, estar ao lado dele era tudo o que eu queria, fazia-me feliz o vislumbre de seus olhos, deliciava-me ouvir o tom de sua voz: meus sentimentos tornavam aquela tarefa a mais difícil de todas. E, de repente, aquelas asas azuis flutuando pelo ar naquele momento mudou tudo. Realmente não havia sentido em continuar agindo daquela forma, eu deveria ser capaz de voar agora, de deixá-lo livre e de libertar-me contando a ele a verdade.
Não deveríamos estar juntos, pois era uma farsa e não havia motivos para continuar essa mentira. Renato não se importara e eu estava grata pela ajuda dele, pela sua sincera amizade. Quando finalmente disse-lhe essas palavras, estava com os olhos no chão e apenas quando ele disse algo para checar se eu dizia mesmo a verdade foi que percebi o quão magoado ele havia ficado. Sem entender sua reação, procurei pelo motivo nos olhos dele, encontrando uma tristeza maior que a que eu esperava. Ele disse então que estaria tudo terminado se fosse mesmo o que eu queria. Uma brisa suave passou por nós e ele também fez suas revelações.
Depois de toda aquela conversa, eu me sentia infinitamente mais leve... havíamos posto um fim na farsa e começado a construir uma relação de verdade. Agora, mais que nunca, eu sabia que aquilo nunca teria um fim, tinha aprendido a bater as asas e a movimentar-me pelo céu.














Jejels, 21/08/2011.

Pauta para a 80ª edição conto/história do Bloínquês.

Nenhum comentário: