quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Quinta-feira

Sabe quando bate aquela ansiedade e você até está com sono quando deita na cama, mas não consegue dormir? Fiquei me revirando boa parte da noite, tentando pensar em coisas boas pra ver se conseguia embarcar nos meus sonhos, estava muito ansiosa pelo dia de hoje.
Esta manhã foi tranquila, mas à tarde, muitas coisas a fazer. Porém, a parte mais importante e esperada de hoje é à noite. Estive contando os dias por isso e agora, conto as horas. Ainda não consigo tirá-lo da cabeça e nem ao menos sei para onde vamos, mas a simples certeza de que terei uma nova chance de dizer o que preciso, deixa-me agitada.
O grande dilema de sempre... o que vestir? Meu quarto mais parecia uma loja de roupas em liquidação, havia peças espalhadas por todos os cantos: em cima da cama, na cadeira, na escrivaninha, penduradas na porta do armário e onde mais fosse possível. Não gosto de parecer arrumada ou desleixada em excesso e quando estou nesse estado, é difícil que eu me agrade de alguma combinação.
Depois de muito pensar, escolhi um suéter cinza, uma saia e uma meia calça preta e no exato momento em que terminei de pentear meus cabelos, ele ligou. Estava pontual, como sempre e ao mesmo tempo que isso me deixava feliz, fazia crescer o monumental nervosismo que corria em minhas veias. Corri de volta para o meu quarto, apanhei a bolsa e chequei se o envelope estava ali.
Cheguei até o carro e quando me viu, ele abriu um daqueles sorrisos que são impossíveis não retribuir. Então, chegou mais perto e me abraçou, apoiando a cabeça na minha.
Até então, eu não sabia para onde iríamos enquanto conversávamos e ele dirigia, eu repassava em minha cabeça tudo o que eu deveria fazer quando chegasse a hora, afinal, eu já havia adiado esse momento por tempo demais.
Quando ele estacionou o carro, me dei conta de que estávamos no parque. Havia algumas pessoas passeando na calçada, algumas sozinhas, outras em casais, outras, com a família. A noite estava agradável e serena, uma brisa suave cumprimentava quem estava por lá. Ele segurou minha mão e fomos até um dos bancos que ficavam perto do lago. Sentamos ali e ficamos a jogar conversa fora. Eu buscava dentro de mim a coragem para começar a falar, buscava nos olhos dele uma deixa, algum sinal de que era o melhor momento.
De repente, a iluminação baixou e tudo ficou bem mais escuro. Segurei a mão dele com mais firmeza e ele retribuiu, buscando meus olhos com uma expectativa que pulsava. Ele colou o rosto no meu e eu podia ouvir sua respiração, os lábios bem próximos ao meu ouvido.
- Olhe para o céu.
Foi quando a vi. A constelação da Ursa Maior cintilava sobre nós com um esplendor que eu jamais havia visto. De repente, estávamos os dois num parque escuro, abraçados em um banco em frente ao lago que espelhava toda aquela maravilha no céu. Era tão fantástico, que, por um momento, esqueci o resto do mundo e o que eu tinha ido fazer ali. Foi quando ele pousou os lábios em meu rosto que me lembrei, de súbito, da carta que estava em minha bolsa. Rapidamente, tirei o envelope de lá e coloquei nas mãos dele.
- Não dá pra ler agora, mas é para você.
Ele guardou o papel no bolso interno do casaco e voltou-se para mim novamente. Tudo aquilo parecia a imagem do perfeito e apesar do nervosismo, eu sentia a calma daquela atmosfera me envolvendo, parecia que estávamos entrando em sintonia. Ele voltou a me abraçar e um relâmpago cortou o céu.
Olhei para ele imediatamente, o súbito clarão deixou meus olhos absorverem vestígios de seu rosto antes que tudo ficasse escuro novamente. Ele também tinha virado o rosto para me ver e tive que me render ao impulso de colocar as mãos em seu rosto, afagando-o. Podia sentir sua pele tão macia e morna em meus dedos e foi quando percebi que tinha que ser naquele momento. Segurei as hastes de seus óculos e tirei-o de seu rosto enquanto apoiava minha testa na dele. Então pude perceber o brilho dos olhos dele no segundo antes de dizer...
- Eu te amo.
Ele ficou calado, apenas sustentando meu olhar enquanto as estrelas nos assistiam. Era a primeira vez que eu lhe dizia essas palavras e queria que fosse num momento especial. Depois de alguns segundos que pareceram horas, ele fechou os olhos e colou os lábios nos meus e no céu estrelado eu me perco com os pés na terra. Aquilo era como se tivéssemos voado juntos até as estrelas tão brilhantes como o amor que pulsava em meu peito.
A chuva não tardou a cair, mas o beijo não foi interrompido quando começamos a nos molhar. Aquele momento era nosso, só nosso e agora, não mais um fruto da minha imaginação. Aquele trovão havia iluminado minhas ideias e varrido para longe minhas incertezas.
Era quinta-feira, dia de Thor.





Jejels, 11/08/2011.

Pauta para a 80ª edição musical do Bloínquês.

Um comentário:

alielkaren@yahoo.com.br disse...

ai flor adoorei o jeito que vc escreve quase chorei com essa historia.. vc tah de parabens