quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Estocolmo

Meu René,

Parece mesmo ironia do destino. Disse-lhe há dois meses que aquela seria minha última carta e cá estou eu empunhando a caneta novamente.
Depois daquele fatídico dia em que enviei aquela correspondência, fiz o meu melhor para recolocar minha vida em ordem. A verdade é que suas notícias me fizeram perder o chão. Eu disse que esperaria por você quando soube que iria passar um tempo no exterior e era o que eu estava fazendo além de mandar cartas todas as semanas contando de tudo o que acontecia por aqui na sua ausência. Desde o dia em que você partiu, tenho passado noites insone, deixado de fazer mil coisas que me faziam feliz por perceber que a vida não era a mesma sem você por perto. A saudade parecia cada vez mais implacável e não houve um só dia em que meu pensamento não estivesse focado em você.
Quando finalmente recebi a carta em que você escreveu que ficaria aí, que tinha conseguido um emprego irrecusável e até mesmo um lugar melhor para ficar, meu mundo desabou. É impossível descrever o quanto a depressão apertava meu peito e o quanto chorei desolada depois de ler aquelas palavras. Achei que minha vida tinha perdido o sentido, não consegui fazer nada direito por semanas. Não tinha mais coragem de abrir os seus envelopes que chegavam na minha caixa de correio.
E depois de todo esse sofrimento pensando que tinha te perdido para sempre, sem saber se deveria desistir de tudo e tentar te esquecer, percebi que isso era impossível. Esses dois meses serviram apenas para provar a mim mesma que você é como meu ópio e que mesmo à distância, o que me mantinha eram as palavras que trocávamos, os papéis dobrados dentro de envelopes que percorriam a distância que sempre quis que nunca tivesse existido.
Não dá mais para continuar longe de você. Esperei por uma volta incerta confiando que você logo estaria perto de mim novamente, aquele mesmo olhar, a voz doce e o coração palpitando ao me abraçar.
Então, René, perdoe-me pelas cartas não respondidas, mas seria doloroso demais ler as suas palavras. Apenas alegre-se com esta carta que tem agora nas mãos, pois esta sim, será a última. Espere-me na Estação Central de Estocolmo às 22h do dia 13 de setembro: estarei chegando em uma semana.
Já não consigo suportar essa distância e se você vai ficar mesmo aí, então não faz sentido para mim continuar no Brasil.


Jag älskar dig.


Isabel.




Jejels, 08/09/2011.
Pauta para a 58ª edição de cartas do Bloínquês.

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