domingo, 18 de setembro de 2011

Quimeras

Deitada em uma cama que não é minha, avisto a luz azulada que vem do mundo lá fora pela fresta da persiana. Tudo o que sinto está escurecendo com o dia, esmaecendo a cada minuto. Fantasias do que poderia ter acontecido tremeluzem em minha mente como imagens meio borradas por uma esperança que já foi embora. O quarto é pequeno, a cama de casal ocupa boa parte dele, deixando espaço restante apenas para o armário e a penteadeira. As paredes brancas logo adquirem a luminosidade baixa e nem sequer penso em mover-me até o interruptor de luz ao lado da porta. Não, eu queria continuar absorvendo aquela transição da tarde para a noite, sentir o crepúsculo em meus olhos com suas cores e em minha pele com o calor que ia lentamente indo embora.

Estar aqui é realmente intenso. Esse simples momento desperta em mim pensamentos tão íntimos, traz à tona sensações que um dia tentei combater. Não vou fazer isso agora, de nada adiantaria. Por mais que eu vença uma batalha, essa guerra jamais termina e sempre retorno ao mesmo ponto com o peito pesando e esse sentimento voltando como uma onda a me tragar num mar de ressaca.

Algumas palavras formam-se em meus lábios e vão saindo por aí como partículas em suspensão no pequeno cômodo. Não atribuo timbres a elas e muitas vezes nem sei o que significam, são apenas letras de músicas que sussurro para quebrar o silêncio colocando para fora um pouco do debate que acontece dentro de mim.

Uma cena com certeza estranha a qualquer um que a presenciasse. De qualquer forma, não poderia ser diferente, selada como está minha misantropia, às vezes acho que não me adapto nem a mim mesma.

E tudo isso acontece de vez em quando, já é parte do que sou, assim como as pessoas com quem convivi e que foram, de várias formas, indispensáveis a mim. Todos aqueles que se infiltraram em meu coração em algum período da minha vida, para o bem ou para o mal, todos eles que contribuíram em alguma coisa para a formação desse emaranhado de quimeras que me tornei.

É parte do sentimento que sinto agora, é como uma saudade de um tempo que ainda não passou, pois ainda está vivo em mim. Não importa o quão distante todos eles possam estar - as pessoas ou os dias de glória e lamúria. Uma vez que alimentaram minha essência, permanecem vívidos em mim enquanto eu respirar e podem brincar de esconde-esconde vez ou outra, mas acabam sempre emergindo, voltando a perturbar a superfície... como agora.




Jejels, 18/09/2011.
Pauta para a 86ª edição musical do Bloínquês.

Nenhum comentário: