quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Carta a João

João,

Estive esperando por você o dia todo. Havia tantas coisas que eu queria lhe dizer, algumas novidades bobas, minha entrada na faculdade, o desabrochar da primeira flor daquela roseira que plantamos juntos anos atrás... a tarde se arrastava lenta e eu insisti em ficar no gramado esperando por você. Faz tanto tempo que não nos vemos, plantei em mim a certeza de que você viria ao meu encontro. De todos os momentos que passamos juntos, várias memórias afloravam em minha cabeça e faziam minha cabeça voar enquanto mantinha meus pés aqui neste parque que sempre foi o cenário dos nossos encontros esporádicos. Mas muita coisa mudou, os anos nos separaram e só restaram as lembranças de um tempo que apenas ficou para trás, guardado apenas em minha memória. Dos frios invernos aos chuvosos verões, os sorrisos refrescantes como sorvete saíam fáceis, leves, espontâneos.

Depois que você viajou, fiquei sem meu companheiro de aventuras, os finais de semana ficaram mais vazios assim como as páginas do meu caderno, pois as tantas palavras com as quais eu compunha minhas poesias, bem, elas se esconderam em algum lugar e escrever se tornou uma tarefa surpreendentemente difícil. Nesse meio tempo, consegui entrar na faculdade e agora minha vida está bem mudada, assim como eu imagino que tenha acontecido com a sua. Porém, mesmo com tudo isso acontecendo, ainda me lembro de você todos os dias, de quando íamos ao cinema e você me fazia ver filmes de terror só pra me ver ficar com medo, das tardes em casa em que jogávamos vídeo-game até tarde rindo baixinho com a porta do quarto fechada para que ninguém descobrisse que ainda estávamos acordados... lembro das vezes em que resolvemos matar aula para escrever juntos tomando suco de uva em uma quadra qualquer. Recordo as tardes quentes em que íamos ao lago pra nos refrescarmos um pouco ou simplesmente ficar ali apreciando a paisagem... e lembro, é claro, das manhãs em que vínhamos pedalando para este parque fazer um pouco de exercício, jogar conversa fora e deitar no gramado para olhar as nuvens e imaginar os mais diversos formatos que elas adquiriam. É exatamente aqui que estou agora.

Acordei com um ímpeto de ver você e fiz questão de vir até aqui, imaginando que você também apareceria. E sei que não passou de uma fantasia, mas o mero fato de estar neste lugar e de recordar nossos momentos juntos, nossas histórias de infância, bem, isso mudou meu dia. Então escrevo esta carta para que você saiba, primo, que mesmo com essa distância que se impôs em nosso caminho, estaremos sempre unidos ao menos pelas nossas lembranças.


Saudades,
Mara.




Jejels, 12/10/2011.
Pauta para a 90ª edição visual e a 63ª edição cartas do Bloínquês.

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