sábado, 22 de outubro de 2011

Paulo

Eu não sabia em qual deles confiar: em Fábio ou em meus sentimentos. Porque apesar de tudo, eu sempre sentia como se eu não fosse tão importante, como se, de alguma forma, sempre houvesse algo mais interessante que se sobrepusesse ao meu plano. Trabalhos, estudos, viagens, família, jogos de futebol. Havia uma infinidade de eventos que rapidamente me colocavam no "banco de reserva" e assim, fui alimentando esse sentimento de que eu era desimportante. E as demoras para responder as mensagens, as ligações caindo na caixa de mensagem à noite, as fobias quanto às coisas que eu fazia e amava. Quando estávamos juntos, tudo era perfeito, o mundo girava em torno apenas de nós, era como se nada mais importasse e eu me sentia extremamente amada. Mas quando nos despedíamos, era o começo de todos os terremotos a abalar nosso relacionamento que cada vez mais se assemelhava a um pequeno castelo de areia, coisa de contos de fadas que a dura realidade sempre chega para destroçar.
Tudo isso revirava em minha cabeça como uma grande mistura num liquidificador. Eu andava pela rua, atordoada com tudo isso, quando me deparei com uma cena bastante inusitada: havia um homem no chão. A princípio, pensei que estivesse bêbado, pois se movimentou de forma exagerada e depois deitou de barriga para cima com as pernas levantadas, dobradas a 90º, as canelas paralelas ao chão. Ao me aproximar, percebi que não havia nada de brincadeira ali: ele estava machucado. Vestia uma bermuda que agora exibia uma grande mancha escura ao lado da coxa e uns filetes de sangue escorriam pela canela. Ao perceber isso, corri para perto dele, a fim de socorrê-lo. Ele estava sentindo bastante dor e tentei acalmá-lo dizendo que iria chamar uma ambulância. Foi então que me contou que estava apenas caminhando pela rua quando um carro parou de repente e um de seus passageiros disparou contra ele. Fiquei atônita ao ouvir tal relato de violência gratuita, mas fiz o meu melhor para permanecer calma e não deixar o homem mais nervoso com a situação.
O Samu não demorou muito a chegar, e depois de conversar com o homem que, a propósito, chamava-se Paulo, fiz questão de acompanhá-lo até o fim. Os médicos disseram que não era preciso, mas eu realmente sentia que era meu dever me certificar de que tudo daria certo para ele. No caminho para o hospital, ouvi mais sobre a história dele. Sua família morava em outro estado e ele vivia em um apartamento daquela mesma quadra onde o encontrei. Estava na cidade somente por questões de estudo, seu sonho era formar-se em letras em uma boa faculdade. Trabalhava pela manhã em uma escola dando aulas de inglês para crianças e estudava à noite.
Depois do susto, ele já havia sido diagnosticado e levado à sala de cirurgia, onde seria extraído o projétil já identificado. A essa hora, minha mãe já tinha ligado umas 7 vezes para o meu celular, preocupada com a minha demora. E após pedir que a enfermeira da recepção me informasse do êxito da cirurgia, deixando meu número, fui embora com outras questões na cabeça.
A vida é tão curta, uma caixinha de surpresas e tão frágil que pode findar num piscar de olhos... agradeci por ter saúde naquele momento e por minha família estar passando bem. E então meus pensamentos retornaram ao que eram antes de encontrar Paulo caído na calçada. Apesar de Fábio parecer me deixar de lado às vezes, eu o amava e não podia deixar que as coisas entre nós ficassem mal resolvidas. Liguei para ele imediatamente para avisar que estava indo até sua casa, não me importando com o horário. Naquela noite, coloquei as cartas na mesa e resolvi os mal-entendidos entre nós. Foi quando descobri que Fábio me amava tanto quanto eu a ele e passamos a nos compreender melhor.
Dois dias depois, voltei ao hospital para rever Paulo. Estava muito grata por tê-lo encontrado e por poder ajudar naquela noite. Sua perna estava melhorando lentamente e a cirurgia havia sido efetiva. Ao vê-lo ali, com um sorriso de gratidão, não pude deixar de estampar meu rosto com o mesmo, pois também ele havia me ajudado naquele momento a valorizar mais a vida e não deixar que os bons momentos passem desapercebidos, derrubados por pequenos problemas que às vezes são apenas falsas impressões que temos da situação.
E eu me sentia muito feliz.


Jejels, 23/10/2011.
Pauta para a 89ª edição conto/história do Bloínquês.

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