quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Carta nostálgica

Lu,

Engraçado como o tempo passa às vezes tão sorrateiro perante o dia-a-dia tão atribulado que vivemos esses anos todos. Parece que foi ontem que estávamos todos ali à mesa da cozinha discutindo como seria quando você tivesse 15 anos e eu, 18, falando como se isso estivesse tão distante, como se ainda fosse demorar uma eternidade. E aqui estamos nós hoje, já passei dos 18 há muito e tanta coisa mudou! Pensávamos que a vida adulta era algo tão distante, tão intangível... sinto falta dessa ideia de criança de que com 20 anos já se é velho e maduro o bastante, parece até um ser de outro planeta. Hoje percebo que esse ser de 20 anos, apesar de realmente estar iniciando a fase adulta da vida, cheia de mudanças significativas – e, cá entre nós, assustadora -, continua guardando um pedaço dessa criança interior, ainda cultiva em si tantos medos, tantas inseguranças... não, não sou aquela pessoa forte que imaginava que seria quando chegasse a essa faixa etária. Na verdade, há vezes em que me sinto tão frágil que tenho que fugir ao cômodo mais próximo para descarregar as angústias, raivas, medos e dores imediatamente após trancar a porta. E chorar compulsivamente ao ponto de não conseguir conter os soluços, sentir as lágrimas queimando até os olhos incharem e ficarem tão vermelhos que minha íris azul adquire um aspecto um tanto esquisito.
Bem, mas isso não vem ao caso. Hoje eu joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim. O fato é que estava limpando meu quarto, dando aquela geral para ver roupas e artigos que não me são mais úteis e dar a quem precisa e acabei encontrando aquela caixinha preta e azul que você me deu de presente certa vez. Foi um natal alegre aquele. Apesar de tudo o que tinha acontecido em nossa casa nos dias que o antecederam, no final das contas, o espírito de natal deu um jeito de segurar a magia ao menos na noite de 24 de dezembro. Sim, a noite foi ótima, pudemos nos desligar dos problemas e nos juntar aos nossos primos, então trocamos presentes e tudo correu de forma tão boa, numa atmosfera tão gostosa de amizade e companheirismo... havia sim, naquela noite, um espírito familiar de que me recordo bem e que gostaria de poder reviver algum dia. Desde que viajei para continuar estudando depois da faculdade, sinto imensas saudades de você e de todos. Até as brigas parecem distantes, elas fazem parte da nossa convivência, mas sempre se sobressai esse desejo imenso de revê-la, assim como a papai e mamãe. Achar aquela caixa me lembrou dessa nossa noite de felicidade em que nem passava pela nossa cabeça que tudo mudaria tanto nos anos seguintes! Lembro-me que você conseguiu ingressar na faculdade e tudo foi uma festa quando soubemos. Você estava tão animada para terminar o ensino médio, foi completamente diferente de mim em termos de se adaptar à vida de universitária. Sempre achei que você se sairia melhor nisso que eu. Você sempre soube se virar mais que eu, mesmo sendo a irmã mais nova. Eu sempre fui muito dependente de tudo e de todos, gostava de me acomodar com esse tipo de coisa e não sabia resolver meus problemas sozinha. Resistia às mudanças ao máximo que podia, mas chegou a minha hora de traçar meu próprio caminho e quando me encontrei sozinha sem ninguém além de mim mesma para resolver minhas questões, bem... isso foi assustador.
Fico a imaginar como está tudo por aí. Faz algum tempo que não recebo notícias suas e sinto falta do sorriso bobo que germina em meu rosto quando descubro uma correspondência sua em minha caixa de correio. Tenho escrito pouco também, sei disso, mas você sabe como é corrida essa rotina atarefada de fim de ano; muitos trabalhos a entregar, contas a pagar, problemas a resolver e ainda presentes para comprar – é claro que vou mandar os presentes de vocês! Ah, sim, espero que você tenha parado com sua pequena neurose de não comer doces, porque agora que lembrei daquela caixinha... prepare-se, porque vou dar um jeito de arrumar os melhores chocolates daqui para mandar no natal assim como você me entregou aquela caixa que fizemos juntas e que você encheu de chocolates para me presentear na madrugada de 25 de dezembro fazendo o maior mistério antes da data para que eu não descobrisse para quem você a daria.
Ah, quanta saudade! Quanta saudade de tudo e de todos! Espero poder retornar logo, talvez consiga concluir o curso em um ano ou dois, mas minha vontade é de tomar um avião hoje mesmo para abraçá-los novamente e passarmos o natal em família como sempre fazíamos antes de eu ter de viajar.
Enfim, está ficando tarde e é melhor eu terminar a carta por aqui (da última vez, escrevi até as 5h da manhã e estava acabada na aula por não ter dormido mais que 2 horas). Espero poder receber notícias suas logo e sentir que estamos menos longe uma da outra. Se puder, irei vê-los nas próximas férias, mas para isso tenho que conseguir o estágio esse semestre, porque o custo de vida aqui é bem diferente...


Mil beijos de saudade para você, mamãe e papai.
Amo vocês.





Jejels, 28/12/2011.
Pauta para a 100ª edição musical do Bloínquês.

Nenhum comentário: