sábado, 30 de abril de 2011

Fraqueza

Negro último desejo
De atirar-me sem medo,
De desespero,
De desgoverno,
Ao desintegrar pleno,
Como se me destruísse
Num lampejo.



Jejels, 28/04/2011.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Descrença

Mais um dia enfadonho,
Ela caminhava continuamente
Em busca de um sonho,
Os pés no concreto aparente.

Tudo parecia impossível,
Sua mente em ventania
Dizia ser tudo inacessível,
Algo que ela não merecia.

Acostumada a chorar baixo,
A manter o olhar no chão,
As lágrimas formando um riacho.

E mantinha aberta cicatriz,
Afundando em si mesma
(Tinha medo de ser feliz).





Jejels, 29/04/2011.

Pauta para a 36ª edição poemas do Bloínquês.


Um pouco de açúcar

Querido B.,

Em primeiro lugar, quero que saiba que não me esqueci de você, apenas estou muito atarefada e não tenho tido tempo nem mesmo para mim. Meus dias foram encurtando com tantas tarefas e compromissos e eu fui ficando cansada e indisposta demais para suportar o chamado de meu travesseiro quando chego em casa.
Gostaria que fosse possível me desligar disso tudo, parar o tempo por um instante para poder respirar... mas como isso não é possível, tenho que me contentar com minhas quatro horas mal dormidas na madrugada e o acúmulo de afazeres.
Percebi que você estava preocupado, ou talvez chateado com minha ausência, mas não é proposital. Aliás, gostaria de saber como você está, o que tem feito. Sinto falta daquelas conversas tão engraçadas em que você adorava contar suas histórias e seus sonhos. Sinto falta, na verdade, de um carinho, de uma companhia pra me abraçar no fim do dia e me fazer sentir que valeu à pena.
Não sei se você também se sente assim, mas estou escrevendo também para pedir desculpas por essa minha falta de atenção. Espero que esteja tudo bem com você e que, caso esteja precisando de uma motivação como eu, você se sinta melhor com os chocolates que mandei no embrulho. Você sabe que eles sempre foram meu vício e, confesso, sempre que estou mal, entrego-me à endorfina para ver se supero melhor as situações. Como eu não sabia qual era o seu preferido, coloquei vários diferentes, mas não vá comer todos de uma vez, hein?
Enfim, tenha uma boa semana. Por enquanto, estarei sem tempo para escrever novamente, mas estou me esforçando para adiantar o máximo de tarefas que eu puder, então logo poderemos conversar melhor e com mais calma. Até lá, cuide-se direitinho e aproveite as noites de sono por mim, pois eu realmente estou a cada dia mais tentada a voltar aos meus sonhos quando toca o despertador.



De sua amiga chocólatra, J.










Jejels, 29/04/2011.


Pauta para a 40ª edição cartas do Bloínquês.

Afeto

Às vezes as pessoas me surpreendem. Quando eu menos espero, lá estão elas, mostrando um lado totalmente inesperado, cuja existência eu jamais poderia imaginar. Repentinas mudanças de humor, demonstrações de carinho, explosões de alegria... a euforia é a emoção que mais gosto de vivenciar. Algumas pessoas têm esse poder de transformar o dia da gente com simples palavras e atos. E isso é o que mais me encanta, o que me motiva a viver.
Gosto de valorizar quem eu quero bem. Cultivo cada amizade, cada laço afetivo com atenção e carinho, com cuidado e amor. Há quem diga que sou louca e que distribuo pedaços do meu coração para quem não os merece, mas eles não sabem o que eu sei. Eles desconhecem o valor que a simplicidade tem na vida, o valor de uma amizade, o valor de uma companhia.
As diferentes essências me encantam e me fazem sorrir. Espero eu poder retribuir esse vigor que me dão para viver a vida. Quando eu poderia estar caindo aos pedaços, render-me ao cansaço, sucumbir ao pranto, são eles quem me motivam a erguer a cabeça.
Com certeza, a vida ainda é um mistério para mim como para tantos outros, mas tenho certeza de que é isso que a faz valer à pena: o amor que construímos por aqueles que nos fazem bem.






Jejels, 29/04/2011.

Pauta para a 66ª edição musical do Bloínquês.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Desamor

A noite desconstrói-se,
Gradativamente, esmaece;
Não resta qualquer heroi
Para atender à prece.

O escuro machuca,
Verdadeiramente, cega;
Não resta um grão de açucar
Que adoce a adega.

Esvaiu-se a luz,
Apagou-se a lua
Que, para longe, flutua.

Rompeu-se o manto,
Contraiu-se o corpo
Encolhido num canto.



Jejels, 28/04/2011.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Primeiro soneto

De raios de luz
Constrói-se um sorriso
Nos olhos nus,
De receio, despidos.

O calor da manhã
Emana da face,
Faz que a essência sã
A alma abrace.

O olhar acende,
Transborda, serelepe,
O castanho que prende.

E dança, por fim,
Move-se sem medo
Sob a luz carmim.




Jejels, 26/04/2011.

-Para M. Maramaldo.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Apedrejada

Às vezes precisamos fazer coisas dolorosas. Muitas vezes tomamos atitudes que podem ser consideradas incoerentes com o que falamos ou pensamos. Mas é assim que é, é assim que tem que ser.
Há coisas que fiz e disse que minha mente tenta triturar, tenta dissolver. Algumas delas, porém, são tão pontiagudas e ácidas que acabam sempre arranhando e corroendo mais ainda sempre que vêm à tona.
Meu interior oscila, ora em paz, ora consumido em culpa. As palavras não ditas, aquelas que ficaram guardadas por todos aqueles anos, revelam-se diretas, claras e duras, acertando-me como uma pedra fria jogada à face.
E mesmo que já esteja feito, mesmo que o tempo não volte, as ondas reverberam, criam ecos e tudo o que me golpeia até me deixar de joelhos, acaba expandindo e voltando. Sempre voltando.
Entre palavras e momentos de silêncio, as lágrimas marejavam meus olhos e eu sabia que aquilo era mera consequência do terremoto que acontecia dentro do peito. Culpa, remorso... não deveria ter sido assim, mas não havia outra maneira.
Agora, já é passado. Mas vez ou outra, volta a acontecer em mim... ainda é presente.






Jejels, 25/04/2011.

Afago

Madrugada plena,
Serena chuva gelada
Que no silêncio estrelado
Revelou-se de intenso céu iluminado.

Da penumbra surgia um sorriso
Antes contido, mas cheio de energia,
Emergia de dentro do peito
Meio sem jeito, meio lento.

Uma voz confortante,
Confidente, a sós,
Em nós afagava
Os cabelos da amante.

E em veludo, proferia
Que faria de tudo,
Que o mundo daria
Para sentir tal alegria a fundo.

E contava histórias diversas,
Em mistério imersas, vitórias,
De glória, fazendo promessas,
Guardando em frestas de memória.




Jejels, 20/04/2011.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os ganhos da perda

No meio de toda aquela confusão, ela apareceu. A estação do metrô estava lotada, parecia cuspir pessoas para todos os lados. O barulho consistia uma poluição sonora que começava a machucar seus ouvidos, mas ela sabia que era preciso estar ali naquele momento. Olhou para o relógio pela milésima vez, inquieta. Em quinze minutos, sua irmã estaria chegando à estação. Ela caminhou para mais perto de onde o metrô chegaria, afim de poder vê-la chegar e evitar um desencontro com todo aquele aglomerado de gente. Enquanto esperava ali, em pé, ficou repassando os fatos novamente em sua cabeça. Os diversos desentendimentos e brigas haviam levado qualquer amizade que ainda pudesse existir entre as duas. Apenas nos últimos dias ela havia se dado conta de que as picuinhas eram tão estúpidas que ela nem ao menos sabia dizer ao certo qual o motivo de todo aquele estranhamento. Afinal de contas, ela era sua irmã. Sentia o peito pesar ao perceber que não conseguia recordar qual fora a última vez que as duas estiveram juntas ali, na cidade onde nasceram. Na primeira oportunidade que teve, sua irmã viajou para o litoral, onde o mercado de trabalho era melhor na área em que resolvera atuar. A mãe quase ficou louca quando soube da decisão da filha, mas teve que aceitar - ela já não era uma criança. E depois de tantos anos afastadas, ela estava retornando.
Os minutos passaram-se ligeiros e o veloz transporte logo chegou à plataforma, deixando-a mais nervosa que estava antes. O reencontro seria difícil, principalmente naquelas circunstâncias. Porém, ele seria também o aliceres que ela teria para se apoiar naquele momento. Os saltos altos batiam contra o chão, recordando-a do gosto tão diferente do dela para se vestir. Usava uma meia calça escura e o vestido era preto, marcando a silhueta de seu corpo bem desenhado. Um grande óculos escuro cobria seus olhos, mas mesmo assim, ela sabia que estes estariam pintados com uma maquiagem de muito bom gosto. Andou sem jeito até ela, sem saber ao certo como agir ou qual seria sua reação.
Os óculos de sol foram postos sobre a cabeça, deixando os compridos fios de cabelo castanho escuro posicionados para trás. O encontro de olhares foi silencioso e significativo. Intenso. O silêncio foi apenas de palavras e gestos até ser quebrado por um abraço. O fluxo de sentimentos era demasiado para ser contido. As lágrimas brotaram quentes e densas, sinceras e acolhedoras.

- Desculpe!

Essa foi a única palavra que pôde pronunciar, meio cortada pelo soluço trêmulo em sua voz. Sua irmã, porém, apenas balançou a cabeça, retendo uma lágrima nos olhos esfumaçados de lápis de olho e sombra acinzentada.

- Eu é que lhe devo desculpas.
- Fui tão estúpida todos esses anos!
- Você apenas achou que eu não deveria ter seguido esse caminho, achou que era arriscado demais...
- Depois que tudo deu certo, mamãe ficou orgulhosa por você.

Uma pausa preencheu alguns minutos em que entregaram-se novamente uma nos braços da outra. As lágrimas não puderam mais ser contidas.

- Por que não podemos começar tudo de novo?

A resposta foi um meio sorriso, ressurgido daquela lagoa de tristezas e mágoas que agora diluía-se na amizade que reflorescia naquele momento.
Há pessoas que pensem que a morte separa as pessoas, que traz apenas infelicidades, mas naquela tarde, os últimos momentos com a mãe renderam a reconciliação e a amizade. O amor entre as duas foi a força que encontraram para superar aquele momento e apagar de vez todo o rancor que poderia ter existido um dia.







Jejels, 18/04/2011.
Pauta para a 65ª edição musical do Bloínquês.

sábado, 16 de abril de 2011

O contador de histórias

Ainda estava claro quando ele decidiu adentrar os enormes e enferrujados portões. Um rapaz com trajes casuais, bermuda e camiseta e uma mochila nas costas. Perfeitamente normal, sem nenhuma característica que chamasse atenção. Apenas mais um que passava pelo meu local de trabalho, apesar de não serem muitos ultimamente.
Acontece que este rapaz tinha uma atitude curiosa. Não parecia ir de encontro a algum local específico, apenas ficava rondando no gramado a olhar em todas as direções. Parecia muito interessado em sua investigação. Na verdade, parecia mais estar explorando o local.
Ele andava cuidadosamente, prestando atenção o bastante para desviar dos pedaços de galho que restavam na grama alta – fazia alguns dias que os jardineiros não a aparavam. Pacientemente, aproximava-se das inscrições dos túmulos e ficava a encará-las, tratava cada uma com respeito e interesse.
Por sua peculiaridade foi que larguei a pá no chão e passei a observá-lo. Há tempos não via alguém com tal disposição e interesse. Na verdade, a maioria das pessoas evitavam o local, o que tornava a visita dele mais curiosa ainda.
Acompanhei-o com os olhos; seus movimentos, os passos cautelosos, os olhos penetrantes – pareciam ler muito mais que as palavras inscritas e lapidadas. Foi quando me dei conta de que ele não apenas olhava, mas parecia mover a boca. Estaria falando sozinho?
Instigado com tudo aquilo, aproximei-me vagarosamente, na esperança de decifrar quem era aquele sujeito e o que estaria realmente fazendo ali. Foi quando ele parou na sombra de uma árvore, onde havia o velho banquinho de concreto. Primeiro, passou mais alguns minutos observando os arredores – tive que me esforçar um pouco para passar desapercebido pelos atenciosos olhos do rapaz. Ele então verificou os nomes nos túmulos mais próximos e só então se sentou no banco.
O dia estava um pouco ensolarado, mas algumas nuvens encobriam o sol vez ou outra. Ele encarou uma delas, abriu um sorriso e então proferiu:
- Boa tarde.
Assustei-me imediatamente. Pensei que ele havia notado minha presença, mas logo depois percebi que ele não estava se dirigindo a mim, mas aos que não o poderiam ouvir. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Ele estaria mesmo conversando com os que estavam abaixo da terra?
- Venho de longe, meus amigos. Não sei se algum de vocês chegou a conhecer, mas a cidade de onde venho tem um cemitério muito parecido com este aqui.
Suas palavras saíam naturalmente, mas respeitosas, no tom parcialmente grave de sua voz. Como poderia ele estar fazendo aquilo? Falava como se conversasse com alguém que estivesse realmente lá, como se pudesse ver, ouvir e se fazer ouvir pelas pessoas a quem se dirigia.Minha cabeça estava a mil, jamais havia visto algo assim. Em meus 13 anos trabalhando aqui, sempre ouvi boatos de espíritos, afinal, todos falam dessas coisas quando seu local de trabalho sugere essas malditas superstições e histórias mal assombradas. Porém, nunca acreditei em nenhuma dessas lendas. Pelo contrário, sempre as achei sem fundamento, coisas que só poderiam ter saído da mente de alguém estúpido – ou embriagado. O que eu via diante de meus olhos era a mais pura loucura! E o rapaz continuava a conversar com aqueles a quem chamou de ‘amigos’.
- Não venho até aqui para falar de mausoléus, entretanto.
Iniciou-se nesse momento um monólogo assustador. Ele começou a contar histórias para os que ali jaziam. Não eram histórias de sua vida, mas da vida de diversas outras pessoas, das mais variadas possíveis, mas todas entoadas como fantásticas, únicas, como se fossem de extrema importância. E eram, de fato, tão peculiares quanto o dono da voz que dava corpo a elas. Viagens a locais desconhecidos, invenções que mudaram a vida de uma cidade inteira, pessoas com dons extraordinários que acabaram levando embora sua sanidade...
- Então vos digo, meus amigos: sinto-me tão preso do outro lado daqueles grandiosos portões quanto um gavião numa minúscula gaiola! Os vivos não dão mais valor à vida, não ouvem mais o mundo, que dirá uns aos outros!
Ao findar das histórias, ele começou um discurso altamente crítico à sua sociedade contemporânea. Tecia frases e frases a respeito do quão a vida estava sendo banalizada e falava da importância de uma revolução de que ele mesmo já duvidava que fosse possível.
- Quanto mais vivo, mais percebo a intensidade que o individualismo vem atingindo o modo de viver das pessoas. Se é que ainda se pode chamar de viver! Trancafiam-se em seus mundos particulares, esquecem-se do mundo ao redor, desprezam as outras pessoas, acham que podem viver sozinhos!
A confusão em minha mente agora era exorbitante. Com que objetivo ele estaria falando tudo isso, principalmente, para pessoas que não o ouvirão?
- Venho até aqui para resgatar o verdadeiro sabor da vida, para conhecer pessoas que viveram verdadeiramente, absorver delas suas histórias! Todo ser humano é ímpar, de fato, mas não independente dos outros. Tenho me alimentado das mais diversas histórias, como podem perceber. Sou um coletor de memórias, delicio-me descobrindo pessoas e suas vidas.
Ainda com um ar sereno, levantou-se do banco, dando continuidade ao seu discurso.
- Peço que se houver alguma história, que seja compartilhada, para que aqui eu possa me alimentar com a vida que não encontro do lado de fora, onde reinam a monotonia e o descaso, onde a vida transformou-se em uma rotina executada de forma mecânica e inorgânica.
O ‘palestrante’ poderia até ser louco, mas ao menos, tinha alguma base para seu discurso. Eu já estava hipnotizado, não conseguia mover um músculo. Ele era um médium, afinal? Eu jamais havia vivenciado tal experiência e estava completamente boquiaberto com a situação.
Depois de contar histórias, ele esperava –de que forma, eu desconheço – ouvir algumas também. Voltou para a sombra fresca do cipreste e sentou-se novamente no banco, talvez à espera de alguma resposta. Ficou lá uns bons minutos e eu estava completamente inquieto a observar toda aquela loucura. Ele parecia sóbrio e estava muito paciente. Em um momento até me perguntei se não teria adormecido com os cotovelos apoiados nas pernas, mas quando eu estava quase desistindo de permanecer ali assistindo àquela cena bizarra, ele disse:
- Não vais mesmo contar-me nenhuma história?
Meu coração acelerou e fiquei ali, paralisado, esperando que ele dissesse mais alguma coisa.
- Sempre que venho visitar os mausoléus, fico horas a contar minhas histórias, gosto de ser ouvido, gosto de compartilhar fragmentos de vida que guardo em minha memória. Alegra-me encontrar quem queira ouvir, é uma pequena prova de que estou errado ao dizer que ninguém mais se importa com a vida.
Ele continuava sentado, de costas para mim, e mantinha o tom calmo na voz. Parecia que tinha em si uma paz tão forte que transbordava dele e começava a afastar o medo que eu sentia daquela situação toda.
- Fico grato por estar aqui. Gostaria de saber teu nome, de saber alguma parte da tua história para complementar a minha. Este trabalho é tão mal-visto pela sociedade atual, eu gostaria de saber um pouco sobre quem convive sempre com todas essas pessoas. Estes que sabem mais que nós e que estão tendo seu descanso merecido depois de suas jornadas.
Só então tive certeza de que ele falava comigo, mas ainda assim, demorei alguns instantes para me recompor e finalmente ir de encontro a ele.
A face jovem mostrava traços um pouco alongados e finos fiozinhos de uma barba quase imperceptível. Os lábios moveram-se formando um sorriso de inexplicável satisfação quando os olhos pousaram em mim. Era um rapaz novo, não devia ter mais de vinte anos e de seu semblante emanava a mesma paz que transbordava de suas palavras. Ele fixava os olhos em mim, parecia que apenas a minha presença já lhe contava mil histórias emocionantes como as que ele havia proferido anteriormente. Com um grande respeito, ele conduziu uma conversa sobre o passado de ambos que não terminou antes do raiar do dia seguinte, tamanha a abrangência dos fatos que íamos contando: um ligava a outro e este, por sua vez, direcionava-nos a mais uma história. Foi então que percebi que, na verdade, estava frente a frente com o melhor contador de histórias que o mundo já possuiu. Ele não era nenhum escritor renomado, nenhum estudante com uma mente genial, mas era um apaixonado pela vida em si. Coletava histórias de pessoas comuns e compartilhava-as com os que se interessavam em ouvir, aqueles que ele dizia serem os verdadeiros vivos, os que ainda viam a importância de estar no mundo. Eu via o modo como ele desempenhava sua função como o fator que o diferenciava da maioria. Ele era calmo, sincero, atencioso e deixava-se guiar por sua paixão e por sua vontade de resgatar aqueles que ainda não tinham sucumbido ao que chamava ser a morte da alma.
Depois desse dia, não voltei a vê-lo, mas passei a sentir uma paz tão grande, que era como se o visse todas as tardes, naquele mesmo banco, sempre que passava por aquela parte do cemitério. Passei a prestar mais atenção às coisas simples da vida, coisas que nos fazem sentir vivos e que estão a cada dia perdendo sua importância para a maioria das pessoas. Tornei-me como ele, de certo modo, um contador de histórias e descobri que coletá-las torna-se uma consequência. Todos nós temos vidas extraordinárias, apenas nos esquecemos disso.











Jejels, 13/04/2011.


Pauta para o 1º desafio Bloínquês.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reconhecendo



Eu estava totalmente alheia a qualquer coisa que estivesse acontecendo naquela festa. Não estava com clima para nada daquilo e também não estava disposta a melhorar meu humor. Tudo no que eu conseguia pensar era na rejeição que estava sofrendo... eu sabia que era doloroso para ele, mas não entendia o porquê de tanta distância. Aquilo realmente me machucava e eu não conseguia descobrir ao certo se era porque mesmo tendo pondo um fim em nós, eu ainda sentia algo por ele.


As pessoas estavam felizes, riam à toa, contavam piadas. Inclusive ele. E isso era a outra coisa que não entrava na minha cabeça. Como ele podia dizer que estava aos pedaços quando parecia tão sólido emocionalmente em público? Já não era a primeira vez que eu me questionava a respeito disso. E em todas as outras em que isso se repetiu, eu sentia uma dor bem no fundo, tal qual um alfinete a me espetar o coração. Buscar pelas respostas era completamente inútil, pois, quanto mais eu pensava no assunto, menos certezas eu tinha de qualquer coisa que fosse.


E estava eu ainda a pensar nisso tudo quando resolvi dar um basta na situação. Quero dizer, o que eu estava fazendo ali junto àquelas pessoas tão entusiasmadas celebrando um aniversário? Eu simplesmente não me encaixava naquela cena. Resolvi então me retirar por alguns momentos, para tomar ar, ou quem sabe, fosse mesmo para fugir daquela imagem na minha frente daquele rapaz tão confiante de si que nem parecia aquele que havia chorado em meu ombro dias atrás.


Fui para fora de casa na tentativa de me afastar da festa. Busquei abrigo no meio-fio e continuei a dialogar com meus inquietos pensamentos, a dura consequência de não conseguir aceitar tudo aquilo. E quando eu estava nesse embate não-verbal comigo mesma foi que ele apareceu ali. Eu não o tinha chamado, mas pelo que entendi, ele percebeu minha saída da sala de visitas e resolveu me procurar por algum motivo. Será que ele não se contentava com meu sofrimento? Precisava vir atrás de mim para colocar o dedo na ferida? Na verdade, ele nem precisava estar fisicamente ali comigo para fazê-lo, uma vez que ele fazia questão de sempre invadir minha cabeça e acabou enraizando-se de vez.


Ele sentou ao meu lado e ficou a me encarar por um longo instante. Foram alguns minutos de um rio de silêncio que passou por nós e que ele dissolveu perguntando se estava tudo bem. Não sei o que ele pretendia com aquilo, porque, afinal, era óbvio que não estava nada bem. Quando meus olhos o comunicaram esta frase, ele fitou o chão por alguns segundos e então se aproximou mais um pouco de mim. Quando ele segurou minha mão, meu coração disparou e eu cheguei a sentir raiva do gesto dele. Nesse momento, minha irmã saiu de casa também e começava a vir com minha prima para onde estávamos. “Que diabos ele está fazendo?” era o que começava a ecoar em minha cabeça e foi interrompido pela inesperada atitude que se seguiu: um beijo.


Eu mal conseguia conter o furacão a me consumir por dentro... apesar de tudo o que tinha acontecido, ele ainda balançava minhas estruturas, ainda me fazia arder por dentro com seu toque. E eu senti um impulso enorme de afastá-lo no início, de impedi-lo de continuar com aquilo, de dizer “eu não quero mais você por perto! Saia daqui, pare de causar todo esse estrago emocional em mim!” E foi o que eu tentei falar, mas as pessoas me impediram. E não diretamente, mas a simples presença de minha irmã e minha prima ali me censuravam a fazer o que parte de mim gritava ser o mais prudente. E ele, de certa forma, o jeito que encostava os lábios nos meus, também não me deixaram reagir de outra forma que não fosse retribuir.




Quando ele afastou seu rosto do meu, minha irmã finalmente disse que era hora de cantar os parabéns e ele apenas olhou para mim como quem pede licença e se levantou enquanto as duas voltavam para dentro. Eu permaneci sentada, ainda sem saber o que fazer e ele me perguntou se eu não iria entrar. Respondi, com a voz falha que me restou, que ele fosse na frente. Com passos lentos, ele virou as costas e fez o caminho até a porta, deixando-me a sós com meus pedaços mais uma vez, ainda sentada em frente à rua.


Uma lágrima insistiu em sair lá do fundo, mesmo com toda a força com que eu lutava contra ela. Uma lágrima sincera, mas cheia de dor por reconhecer a verdade. No fim das contas, eu tinha cometido um erro e podia sentir pulsando em mim o amor que eu tinha negado, mas que ainda vivia ali, correndo voraz por minhas veias e que, por tê-lo negado, talvez eu mesma estivesse a destruir.




E é impossível descrever com palavras o quão doloroso era redescobri-lo.








Jejels, 15/04/2011.


Pauta para a 62ª edição conto/história e a 19ª edição roteiro do Bloínquês.






quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um sorriso

Com todas as coisas que estavam acontecendo naquele momento, parecia que tudo estava tão solto... não sei porque isso acontece, mas às vezes me invade uma onda de tristeza repentina de pensamentos que talvez não deveriam vir à minha cabeça. E, nessas horas, sinto que a vida pode ser tão complicada, tão complexa, com tantas questões não resolvidas que já nem sei como me sinto mais. Pode ser por isso que ando consumindo tantos doces ultimamente, para me manter longe disso. Os chocolates são capazes de me distrair com o sabor tão prazeroso que sinto em minha boca e ainda elevam o nível de endorfina em meu cérebro, atenuando o pesar em meu peito. Mas hoje não foi isso que afastou esse sentimento sem nome. É curioso o poder que tem um sorriso... um sorriso simples, mas sincero, numa hora inesperada. Foi apenas o sorriso encontrar meus olhos que logo senti que estava sendo uma tola. Então o senti como muito mais que um sorriso. Ele transformou-se em afago, em carinho, em abrigo e, por fim, numa fortaleza. Agarrei-me a ela assim que a vi abrindo os braços para mim. Era aquele o meu lar, era assim que eu me sentiria segura e é isso o que eu quero ser pra você.


Jejels, 17/02/2011.

Pauta para a 64ª edição musical do Bloínquês.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ao meu preocupado e indeciso Eu

Incertezas, indecisões, dúvidas novas e antigas. "Estou certa?" "Estou errada?"
Que tal começar a se perguntar se você está sendo coerente? Ah, é mesmo, eu tinha me esquecido de que você teria de ser coerente com relação a algo. Por isso você não muda o questionamento - traria outras questões para as quais você também não tem a resposta.
Todos estão percebendo sua mudança e você sabe disso! O pior de tudo é que você sabe que está se sentindo bem com isso, mas não quer admitir. Abra os olhos, você não tem que ser perfeita! Você nunca foi e nunca será! Se suas palavras machucaram as pessoas, o que você pode fazer se estava sendo sincera? Não podemos agradar sempre às pessoas. E talvez até seja bom causar estranhamentos de vez em quando. Ser previsível é realmente entediante.
Você não queria aventuras? Então pare de ficar aí se sentindo culpada pelos outros, porque eles nem ao menos sabem quem é você de verdade. Eles podem conviver por um longo tempo conosco e achar que sabem nossa essência, mas estamos em constante mudança, não somos uma equação de primeiro grau em que se chega a um único resultado. Ambas sabemos que a infinitude de possibilidades é inerente a nós!
Vamos lá, você precisa se libertar de toda essa pressão em cima de você mesma. Deixe que pensem o que quiserem, você está indo bem até agora. Continue seguindo em frente, agora que encontramos um caminho só nosso, ninguém pode nos deter, ninguém irá nos atrapalhar. Sua decisão foi bem pensada, do jeito que você gosta de fazer: tudo calculado minunciosamente, vasculhando os inúmeros e mínimos detalhes. E era isso o que você queria, então não vamos dar para trás agora!
Acorde para a vida, menina! Agora que estamos na chuva, temos mesmo é que nos molhar! Despeça-se dessas preocupações e vamos embora. Estou cansada de esperar que você se desprenda desse seu perfeccionismo idiota.
E fique feliz por eu estar sendo gentil, porque você merecia algo muito mais forte que uma chacoalhada.



Do seu Ego[ísta].





Jejels, 12/04/2011.
Pauta para a 38ª edição de cartas do Bloínquês.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Infinita


Eu sou uma mistura de personalidades em conflito.

Às vezes alguma aflora e se sobrepõe às outras.

Então viro bagunça.



Jejels, 11/04/2011.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Despedida



Não sei se você conseguiu entender, mas eu fiz o meu melhor para que você soubesse da verdade. Afinal de contas, eu prometi sinceridade e costumo prezar muito pelas minhas promessas. Ocorre que eu já sabia que seria doloroso, mas se eu tomasse a decisão oposta, certamente seria pior ainda.


Eu sei que você deve estar me maldizendo com todas as palavras possíveis para isso agora. Eu entendo isso, respeito você. Acho até que se fosse o contrário, minha reação não seria muito diferente disso. Até peço desculpas por estar escrevendo. Eu realmente fui covarde fazendo isso, mas devo confessar que não tive forças para dizer pessoalmente... eu provavelmente desistiria ao ver sua reação, pois ainda a amo. O problema é que mesmo com esse sentimento, eu preciso ir agora. Não por sua causa, mas porque preciso pôr minha vida em ordem. Preciso me encontrar, preciso me virar sozinho... preciso crescer.


"Egoísta" deve ser como você está me chamando em sua cabeça agora, e não vou negar. Não que eu seja completamente egoísta, até porque, estou fazendo isto em parte para não iludí-la fingindo que está tudo bem. Porém, não vou negar que também estou sendo egocêntrico com minha atitude.


Eu sempre tentei lhe mostrar toda a minha essência, mas você sempre se recusava a acreditar nesse meu lado, sempre se recusáva a enxergá-lo. Prazer, eu sou um cara cheio de defeitos. Defeitos esses que desgastaram nossa relação e que agora me encaminharam a essa decisão.


Estou pondo um fim ao nosso relacionamento, mas queria que você soubesse que não é por falta de amor. Apenas preciso me resolver comigo mesmo, encarar meus medos de frente, sair da bolha protetora que construíram ao meu redor. E então, quando eu conseguir, se você ainda me amar como no início, estarei de volta. É o que pretendo fazer.


No mais, quero mesmo que você siga sua vida, que seja feliz apesar de tudo o que estou causando com essas palavras. Você sempre se mostrou forte e eu confio em você para isso.


Peço desculpas mais uma vez. Eu a amo.








Jejels, 05/04/2011.


Pauta para a 63ª edição musical do Bloínquês.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Calado

Calado e sem vontade e sem um tempo pra nós dois
tentar tentei, falar falei, quase um surto

100% bem
100% mau
Eu sei, eu sei

100% mau
100% bem
Eu sei, eu sei

Calado e sem vontade e sem um tempo pra nós dois
tentar tentei, falar falei, quase um surto

100% bem
100% mau
Eu sei, eu sei

100% mau
100% bem
Eu sei, eu sei.


Druques.

domingo, 3 de abril de 2011

Sina


Rosa tímida,

Ainda um botão a se abrir,

Mas tão cobiçada,

Vendo o mundo a lhe sorrir.


E como rosa verdadeira,

Com espinhos em seu talo,

Arrancava sangue das veias

De todos os que queriam estar ao seu lado.




Jejels, 03/04/2011.

sábado, 2 de abril de 2011

Brilho

A chuva caía,

A atmosfera nublada não me afetava,

Apenas aumentava a alegria

Que você me fazia sentir.

E eu me sinto leve,

Sinto-me livre,

Sinto que posso ser tudo o que eu quiser.


Complicações no coração,

Quem é que não tem? Então você apenas segurou minha mão

E me ensinou a esquecer o ontem.


Por que me preocupar com o que passou

Se tenho o dia de hoje inteirinho para viver?

Não posso mentir nem mudar o que sou

A não ser para alcançar o que quero ser.


E eu deixo a chuva cair,

Eu deixo as nuvens virem me cobrir

Porque com você eu aprendi Que posso ser mais que tudo,

Que posso mudar o mundo.


Como poderia eu desprezar tal sentimento?

Como poderia eu dizer que me arrependo?


Na noite estrelada, tudo parecia tão certo,

A nova realidade parecia tão perto

Que era irresistível sorrir

Com seus olhos pousados em mim.


E desse modo tão simples,

Com essa sinceridade que me sonda,

Você modelou-me onda,

Fluida de toda liberdade,

Livre de toda maldade

Que alguém poderia me causar.

Você me deu pincéis e cores

Para que eu pintasse minha própria vida,

Para que eu desse asas aos meus sonhos,

E então, tornei-me lívida,

Você abriu meus olhos e então pude perceber

A luz que de mim irradiava no anoitecer.


Reergui-me desse modo,

Num processo de libertação

Que me fez acender por dentro

E perceber, livre como o vento,

Que você tocou meu coração.

Jejels, 02/04/2011.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Receio

Estalar de dedos

Torna-se música ambiente

Quando entrelaça-se o medo

À coragem, ainda em forma de semente.





Jejels, 29/03/2011.

- Para a 32ª edição de poemas do Bloínques.

O ipê

A manhã estava clara como o reflexo de meus olhos no espelho. Eu estava, finalmente, conseguindo me recuperar do acidente, já conseguia dormir algumas horas por noite.



Comi alguma coisa, mas nada como antes, ainda não sentia o organismo funcionando normalmente, não sentia a necessidade de comer. Meu corpo ainda estava manchado do tom escuro dos hematomas, mas já havia melhorado bastante, o rosto não mais inchado, já não parecia tão horrível e deformado como na semana anterior.



Ter tido alta no hospital fora uma grande conquista, mas ainda havia um longo caminho até estar completamente capaz de voltar a trabalhar. Isso me dava muito tempo para pensar, e isso era o que me assombrava. As imagens sempre voltavam, tão nítidas e vivazes, pareciam nunca apagar-se de minha memória... com exceção de um momento em que parece que tudo resume-se a um borrão, uma lacuna. Todas as noites revivo o acontecido, parando sempre no mesmo ponto, sem entender o desfecho de minha própria história.



Esta foi a primeira noite que passei em casa. Não foi tão difícil quanto pensei. Na verdade, tudo correu perfeitamente como deveria, como sempre foi. O estranho era acostumar-me a essa sensação de que algo ficou em branco, de que falta uma peça no quebra-cabeça de minha vida.



Resolvi tomar um banho e sair para a praça onde sempre caminhava pela manhã. Era sempre agradável respirar um pouco de ar fresco, ouvir um pouco dos sons da rua, das pessoas que também caminhavam por lá, observar as plantas do jardim... ah, os ipês! Tão lindos e coloridos, eram a minha paixão!



Estava saindo de casa quando percebi a pilha de cartas que tinham ficado amontoadas na caixa de correio devido ao tempo que passei hospitalizada. Aproximei-me, juntei todas nas minhas mãos, carregando-as para a mesa na sala de estar. Quando observei-as melhor, esparramadas, percebi a semelhança intrigante dos envelopes: todos pareciam vir de um mesmo remetente, pois eram de um tom amarelo envelhecido, com inscrições numa caprichosa caligrafia em tinta preta. Curiosa, pus-me a abrir todos eles, descobrindo a cada envelope rasgado, um desenho diferente. Mas não eram desenhos comuns, pareciam abstratos, inteligíveis. Interessantes, até.



Larguei-os desorganizados sobre a mesa e segui para a porta de casa. Ao sair, podia me sentir melhor com a visão do lado de fora. Aquelas semanas entre quatro e inexpressivas paredes brancas haviam privado meus olhos das magníficas cores que a vida tinha aos arredores de minha casa. Sempre gostei do local por conta dos jardins que circundavam a vizinhança. A variedade de flores e perfumes, aquele ambiente bem cuidado trazia uma atmosfera de paz que jamais senti em outro lugar.



Passei pela praça, contemplei a fonte no centro, os pombos que passavam por ali, as flores que enfeitavam as árvores. Não encontrei, porém vestígio algum dos vizinhos ou de qualquer outro transeunte. Devia ser pelo horário, ainda estava bem cedo. Os ipês estavam lá, mas fiquei um pouco chateada, confesso, de não vê-los floridos. Sentei um pouco no banquinho de madeira, à sombra de uma macieira e passei alguns bons minutos ali, apenas olhando o céu e as plantas.



Caminhei de volta para casa, já sentindo uma paz dentro do peito, uma sensação de estar de volta ao lar, de estar melhorando depois de tudo o que aconteceu. O barulho dos vidros do carro quebrando contra o chão, a textura do sangue a escorrer pelo meu corpo tinham sido substituídos pelo som dos pássaros e o frescor da brisa que soprava meus cabelos.



Girei a chave e a maçaneta da porta da frente, mas quando cheguei em casa, percebi que os papéis não estavam mais lá. A mesa estava vazia, como se eu não tivesse pego os envelopes em minha caixa de correio. Virei-me para checar, mas não havia nenhuma carta lá fora. Assustada, tranquei a porta e subi as escadas, dirigindo-me até meu quarto. Chegando lá, encontrei os desenhos colados em minha parede. Não pude conter a expressão incrédula que se formou em meu rosto ao perceber o enorme ipê florido formado pelos pequenos desenhos em folhas A4 que agora ocupavam por inteira a parede ao lado de minha cama. Aliás, em cima dela estava um último envelope, semelhante aos anteriores, que abri impulsivamente, pouco me importando em rasgá-lo.



As palavras fizeram-me olhar pela janela e encontrá-lo. Minha cabeça havia bloqueado esta parte do acidente. A parte que antecedia minha chegada ao hospital. Com lágrimas nos olhos, corri escada abaixo ao encontro do meu salvador. Minhas memórias voltavam de uma vez à minha cabeça, agora completas. O amor de minha vida esperava-me sentado na calçada. As roupas limpas, os cabelos penteados, um braço enfaixado... e meu coração em suas mãos.



Jejels, 27/03/2011. - Pauta para a 60ª edição hístória/conto do Bloínquês.