sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Semeando sorrisos

Semeando sorrisos,
Aqueles que sempre soam singelos,
Com eles, sinto-me serena, suavizo.

Semeando sorrisos,
Aqueles que serpeiam serelepes,
Ecoando como suaves sibilos.

Semeando sorrisos,
Aqueles serenos e silenciosos,
Cintilando ensolarados,
Salpicando de luz meus sentidos.

Saio semeando sorrisos
De sentidos sortidos,
Sazonais, sublimes,
Secretos, sacudidos,
Signo de satisfação.

Saboreio e suspiro...



Jejels, 30/09/2011.

Céu Nublado

Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;
Teu olhar misterioso(é azul, verde ou se esfuma?)
Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu.

Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, desperto por torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.

Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!

Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?




Charles Baudelaire.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Resposta

Se eu te dissesse
Que nem verdes,
Nem azuis,
Mas um espectro tão abrangente
De luzes que neles penetram
Por desejo e curiosidade.

Não são os caminhos das minhas cores,
Mas das coisas,
Dos outros
E do mundo que tento absorver
Numa busca incessante
De dar vida a mim mesma com um pouco de cor.






Jejels, 18/09/2011.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Caminho

Eu caminho por aí, pelas ruas e estradas da vida, pelos campos amenos e floridos, pelos becos escuros e pelas praças mal iluminadas. Eu caminho por limiares de realidade e ficção, abro e fecho mil portas virtuais, todas em minha mente, possibilidades de viver o presente. Eu caminho com os pés aventureiros e com o coração leve, caminho apenas por caminhar, sentindo no sangue esse imenso prazer de redescobrir a vida a cada passo, o sabor de poder reinventar a realidade e fazer minhas próprias escolhas.



Jejels, 11/09/2011.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Manhã nublada

Névoa da manhã,
Meu colibri,
Quase me esqueci.

O aurora desperta escuro,
Nuvens por todos os lados
Encobrindo meu futuro.

Aqui fora o vento sopra
E esqueci, eu me esqueci
De que assim não há sobra.

A umidade na medida,
A luz escondeu-se, tímida
No vapor da minha nuvem cinza.

Névoa da manhã,
Meu colibri
Canta num tom menor de si.

Se quiser voar...
A nuvem está logo ali.



Jejels, 26/09/2011.

domingo, 25 de setembro de 2011

Meu amor

Minha vida está tão intensa, cada emoção única ocupa seu lugar em meu coração e domina-me por completo. E assim pareço mais viva, mais aberta a tudo o que se apresenta a mim, tudo parece ser importante, mesmo o mero ruído de um sorriso parece a chave para a felicidade.

Desde que você sorrateiramente passou a segurar minha mão, o mundo adquiriu outras proporções, tudo parece ter uma conexão tão clara e uma solução tão simples. Os problemas parecem tão fúteis e dissolvíveis quando estou com você e encontrar seus olhos com os meus rega essa semente de sorriso que você plantou em mim naquele dia em que escrevi para você uma carta, ainda tão insegura de mim, tão incerta do que estava acontecendo. Eu contei em palavras estruturadas em tinta preta tudo o que estava fermentando dentro do meu coração, todo o alvoroço que a sua presença me causava. E depois de ler cada cantinho escuro de dentro de mim que eu expressava ali, você simplesmente amassou o papel e seus olhos se encheram de lágrimas. Então senti seus braços longos e macios me envolvendo num abraço tão sincero que mesmo não entendendo a sua reação, senti vontade de chorar também, tão certa do carinho que estava sendo exposto ali.

Você se tornou meu novo guardião, o guarda-corpo que se ergueu diante do meu abismo. Meus dias se tornaram mais claros, minhas tardes, mais serenas e as noites, inesquecíveis. Desde então, meus sonhos apenas crescem, ganham mais volume e consistência e estão enlaçados por você, sempre você. Porque já passamos por muita coisa juntos e todos esses momentos podem encontrar um caminho para meus sonhos à noite, onde posso realizar esse desejo crescente de estar perto de você, a sós e sem nenhuma barreira a se impor entre nós. Imagens que me vêm à noite em meu sono ilustrando todo o amor que cresce em meu peito, um amor que ainda não consigo expressar completamente, mas que a cada dia procuro um jeito de embrulhá-lo numa caixa de sorrisos e toques carinhosos para te dar de presente.



Jejels, 25/09/2011.
Pauta para a 85ª edição conto/história e 87ª edição musical do Bloínquês.

Um a um



Eu não quero ganhar
Eu quero chegar junto
Sem perder
Eu quero um a um
Com você
No fundo não vê
Que eu só quero dar prazer
Me ensina a fazer
Canção com você
Em dois
Corpo a corpo me perder
Ganhar
Você

Muito além do tempo regulamentar

Esse jogo não vai acabar
É bom de se jogar
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um.



Tribalistas.

Crise criativa



Nem curva nem reta,
Nem fechada nem aberta,
Nem errado nem certo,
Nem adjetivo nem verbo.

É um fluxo desordenado
E sem valor próprio,
É um caos fermentado
Por um delírio de ópio.

As ideias sem ligação,
Apenas um emaranhado sem nexo,
Um processo de retrocesso
Aterrando mente e coração.




Jejels, 25/09/2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Convite do espaço

Passeio pela rua
Uma grade se insinua,
Logo convidando
Meu olhar a espreitar.

Um mundo de luz e cor,
Poesia visual pairando,
Dançando com som e calor
Sob telhas de amianto.

Num ambiente escuro,
Uma parede de vidro
Transformando o espaço contido
Num convite alegre e seguro.

E brotam plantas verdes
No jardim do lado de fora,
Abraçando a terra com sede,
Entra no espaço que meu olhar devora.

E a brisa vem de leve
Como uma cobertura perfeita
Nesse doce que sua boca me serve
- Esse sorriso puro de quem se deleita.




Jejels, 23/09/2011.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Nácar

Esférica e cintilante,
Presente das profundezas azuis
Agora em teu colo reluz
Solitária e elegante.


Jejels, 13/09/2011.

domingo, 18 de setembro de 2011

Quimeras

Deitada em uma cama que não é minha, avisto a luz azulada que vem do mundo lá fora pela fresta da persiana. Tudo o que sinto está escurecendo com o dia, esmaecendo a cada minuto. Fantasias do que poderia ter acontecido tremeluzem em minha mente como imagens meio borradas por uma esperança que já foi embora. O quarto é pequeno, a cama de casal ocupa boa parte dele, deixando espaço restante apenas para o armário e a penteadeira. As paredes brancas logo adquirem a luminosidade baixa e nem sequer penso em mover-me até o interruptor de luz ao lado da porta. Não, eu queria continuar absorvendo aquela transição da tarde para a noite, sentir o crepúsculo em meus olhos com suas cores e em minha pele com o calor que ia lentamente indo embora.

Estar aqui é realmente intenso. Esse simples momento desperta em mim pensamentos tão íntimos, traz à tona sensações que um dia tentei combater. Não vou fazer isso agora, de nada adiantaria. Por mais que eu vença uma batalha, essa guerra jamais termina e sempre retorno ao mesmo ponto com o peito pesando e esse sentimento voltando como uma onda a me tragar num mar de ressaca.

Algumas palavras formam-se em meus lábios e vão saindo por aí como partículas em suspensão no pequeno cômodo. Não atribuo timbres a elas e muitas vezes nem sei o que significam, são apenas letras de músicas que sussurro para quebrar o silêncio colocando para fora um pouco do debate que acontece dentro de mim.

Uma cena com certeza estranha a qualquer um que a presenciasse. De qualquer forma, não poderia ser diferente, selada como está minha misantropia, às vezes acho que não me adapto nem a mim mesma.

E tudo isso acontece de vez em quando, já é parte do que sou, assim como as pessoas com quem convivi e que foram, de várias formas, indispensáveis a mim. Todos aqueles que se infiltraram em meu coração em algum período da minha vida, para o bem ou para o mal, todos eles que contribuíram em alguma coisa para a formação desse emaranhado de quimeras que me tornei.

É parte do sentimento que sinto agora, é como uma saudade de um tempo que ainda não passou, pois ainda está vivo em mim. Não importa o quão distante todos eles possam estar - as pessoas ou os dias de glória e lamúria. Uma vez que alimentaram minha essência, permanecem vívidos em mim enquanto eu respirar e podem brincar de esconde-esconde vez ou outra, mas acabam sempre emergindo, voltando a perturbar a superfície... como agora.




Jejels, 18/09/2011.
Pauta para a 86ª edição musical do Bloínquês.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Croqui

Um mundo complexo,
A cidade e suas engrenagens,
Passeio pelas margens,
Pelo lado convexo.

Fujo do abraço da curvatura,
Arrisco-me a atravessar a rua
Para encontrar o contraste,
O outro lado do engaste.

Duas faces da mesma moeda,
Cidade rica, cidade de mazelas,
Edifícios envidraçados
E barracos no gramado.

E tal como a vejo
Fomenta em mim um desejo,
Um sonho riscado no papel,
Utopia sob o céu.



Jejels, 13/09/2011.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Intangível

Quero-te como quero à abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdem, que te faz mais bonita!




Charles Baudelaire.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Estocolmo

Meu René,

Parece mesmo ironia do destino. Disse-lhe há dois meses que aquela seria minha última carta e cá estou eu empunhando a caneta novamente.
Depois daquele fatídico dia em que enviei aquela correspondência, fiz o meu melhor para recolocar minha vida em ordem. A verdade é que suas notícias me fizeram perder o chão. Eu disse que esperaria por você quando soube que iria passar um tempo no exterior e era o que eu estava fazendo além de mandar cartas todas as semanas contando de tudo o que acontecia por aqui na sua ausência. Desde o dia em que você partiu, tenho passado noites insone, deixado de fazer mil coisas que me faziam feliz por perceber que a vida não era a mesma sem você por perto. A saudade parecia cada vez mais implacável e não houve um só dia em que meu pensamento não estivesse focado em você.
Quando finalmente recebi a carta em que você escreveu que ficaria aí, que tinha conseguido um emprego irrecusável e até mesmo um lugar melhor para ficar, meu mundo desabou. É impossível descrever o quanto a depressão apertava meu peito e o quanto chorei desolada depois de ler aquelas palavras. Achei que minha vida tinha perdido o sentido, não consegui fazer nada direito por semanas. Não tinha mais coragem de abrir os seus envelopes que chegavam na minha caixa de correio.
E depois de todo esse sofrimento pensando que tinha te perdido para sempre, sem saber se deveria desistir de tudo e tentar te esquecer, percebi que isso era impossível. Esses dois meses serviram apenas para provar a mim mesma que você é como meu ópio e que mesmo à distância, o que me mantinha eram as palavras que trocávamos, os papéis dobrados dentro de envelopes que percorriam a distância que sempre quis que nunca tivesse existido.
Não dá mais para continuar longe de você. Esperei por uma volta incerta confiando que você logo estaria perto de mim novamente, aquele mesmo olhar, a voz doce e o coração palpitando ao me abraçar.
Então, René, perdoe-me pelas cartas não respondidas, mas seria doloroso demais ler as suas palavras. Apenas alegre-se com esta carta que tem agora nas mãos, pois esta sim, será a última. Espere-me na Estação Central de Estocolmo às 22h do dia 13 de setembro: estarei chegando em uma semana.
Já não consigo suportar essa distância e se você vai ficar mesmo aí, então não faz sentido para mim continuar no Brasil.


Jag älskar dig.


Isabel.




Jejels, 08/09/2011.
Pauta para a 58ª edição de cartas do Bloínquês.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Muda

Um olhar,
Suspiro.
Um carinho,
Respiro.
Um toque,
Reviro.
Um abraço,
Cativo.
Um beijo,
Cultivo.
- Amor em plantio.



Jejels, 25/08/2011.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Crepúsculo

Todos os dias quando acordo, vem aquela sensação engraçada que mistura a preguiça e a expectativa: um dia inteiro pela frente, mas logo estaremos juntos. Essa nossa rotina às vezes tão maçante rege nossas vidas, traz o cansaço e os resultados do que conseguimos produzir na esperança de estarmos sendo úteis ao mundo.

Todos os dias antes de dormir, outra sensação, a de fim de parte do ciclo, obrigações do dia cumpridas –ou não- e sempre a sua lembrança. Deito e fico horas a fio na tentativa de pegar no sono, fugir da realidade em meus sonhos, mas até lá, todos os meus pensamentos estão focados em você.

Nosso suor sagrado, o resumo dos nossos esforços diários que regam os dias da semana, resultado do nosso esforço tanto mental quanto físico. Um emaranhado de atividades e deveres, sempre há algo a fazer, o tempo vai sendo esmagado pela rotina cor de concreto que tenta impor-se tão dura a nós.

Veja o sol! Às vezes tão ocupados, esquecemos dessas coisas simples e belas que temos todos os dias... esse pôr-do-sol maravilhoso a se exibir e nem sequer percebemos. Deveria ser um crime esquecer-se desses pequenos prazeres. Posso sentir tanta coisa nesse momento de céu avermelhado, tão poético cenário a se abrir perante nossos olhos e você está aqui comigo. Então me abraça forte e diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo, nos seus braços já não pertenço a esse mundo tão opressor, mas sou sua.

Não tenho medo do escuro, só o que desejo é ficar aqui até que a noite venha e eternizar cada segundo em que estou ao seu lado, tão próxima que posso sentir seu coração pulsando por baixo da camisa, o peito tão macio que poderia descansar nesse abraço para sempre, um abraço tão inebriante que nem sei mais que dia é hoje, o que tenho que fazer amanhã, nem sequer onde estou e isso não importa.



Jejels, 31/08/2011.

Pauta para a 83ª edição musical do Bloínquês.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Felicidade

O que é a felicidade?
Enxergar o dia lindo
Escondido em nuvens de tempestade,
Conseguir ver em cada erro
Uma pequena possibilidade do acerto,
Sentir o corpo suado
Como a glória de um ato determinado,
Conseguir ver na dor
Uma certeza de que existo com fervor,
Descobrir que a simplicidade
É o mais fantástico, na realidade.

O que é a felicidade?
Aprender que no sinlêncio
São ditas as palavras de maior beldade,
Verificar nos detalhes,
Importâncias que nas proeminências faltem,
Cultivar um amor
E vê-lo florescer com explendor.

E se me perguntarem a verdade
Do que eu acho que seja a felicidade,
Responderei que é essa certeza
De que a vida é como chama acesa
E um dia, há de se apagar,
Mas que posso me fazer eternizar
Como momentos efêmeros,
Eventos que passarão,
Mas que ficarão perpetuados
Dentro do meu coração.





Jejels, 31/08/2011.

Pauta para a 52ª edição poemas do Bloínquês.