sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Melancolia



Que noite soturna a vir aterrar nossos corações!
Que sombra de lua a ocultar nossas feições!
Que escuridão imprevisível a atingir multidões!

A realidade caminha de encontro a nós,
Inexorável chuva a corroer nossos alicerces,
Certeza única de que tudo o que vive, perece.

Que imensidão a nos contaminar de desarmonia!
Que confirmação de que só vivemos a hipocrisia!
Que grandeza exuberante e devoradora
A do planeta Melancolia!






Jejels, 30/12/2011.

Feliz ano novo

Abro os olhos e um novo dia nublado me acolhe com um sorriso tímido. Depois de um bom tempo trabalhando, essas férias são mais que merecidas e fico feliz por poder estar aproveitando ao máximo, mesmo que isso signifique acordar às 6h30 todos os dias para fazer exercícios. Aliás, a única parte difícil é sair da cama, não tem nada melhor que começar o dia assim, parece que renova as minhas energias e me deixa pronta para um novo dia.

Depois de me esforçar bastante no spinning, volto para casa e tomo uma ducha refrescante cantarolando músicas brasileiras que há tempos nem lembrava mais. O espírito de ano novo estava tomando conta de mim, fazendo-me esquecer de todos os problemas desse ano turbulento que chegava ao fim. E mesmo que meu coração estivesse abalado o suficiente para que a palavra "felicidade" parecesse um tanto forte para o momento, eu estava começando a me sentir mais leve, a sentir uma certa paz, como se você ainda estivesse aqui.


A tarde passou lenta enquanto eu preparava o creme de sonho de valsa para a sobremesa que seria servida após a ceia de hoje à noite. Cozinhar havia se tornado uma mania desde que você se foi. Era uma maneira de me manter ocupada e de continuar aprendendo coisas novas. Além disso, você adorava nossas tardes gastronômicas em que resolvíamos fazer o que desse na telha para comer no jantar. Era uma forma de manter você por perto.


À noite, nem me surpreendi com a decoração que minha irmã fez na casa para a festa de revellión. Afinal, não poderia ter esperado menos, como de praxe, ela havia enchido o ambiente de luzes, toalhas brancas e douradas, as mesas fartas de tira-gostos daqueles que nos dão água na boca só de olhar... a festa estava perfeita, ainda mais com a música gostosa que preenchia o ambiente com mais expectativa, essa esperança de fim de ano que nos enche de vontade de mudar o mundo nos próximos 365 dias.

Tudo estava tão harmonioso que a sua falta encaixou-se ali com a minha imensa vontade de tê-lo naquela atmosfera familiar, onde era o nosso lugar. Pensava em você a cada momento, a cada música mais animada, lembrando de como você costumava me puxar pela mão e me levantar do sofá para dançarmos qualquer passo improvisado que plantava sorrisos nos rostos de todos ali presentes; lembrava das suas piadas simples e, às vezes, meio esquisitas, mas que sempre me faziam dar aquela risada boba; e também do modo que você reclamava ao ver meu prato cheio de frutas e saladas enquanto você comia cheio de gosto aquele pedaço suculento de filé...


Quando a contagem regressiva já estava próxima, porém, ocorreu algo inusitado: minha irmã me disse que havia uma surpresa para mim. O que posso dizer? Logo imaginei, claro, que ela havia trazido mais um de seus presentes de ano novo, desses que eu sempre dizia serem desnecessários, uma vez que ela já havia me coberto com uma montanha deles no dia 25 de dezembro. Mas dessa vez, eu havia me enganado. Primeiro porque não se tratava desse tipo de presente, segundo, porque não era nada desnecessário. Enquanto o ano caminhava ininterruptamente ao seu fim, ela pronunciou as palavras que me deixaram simplesmente sem uma reação diferente da incredulidade.


Não poderia ser verdade o fato de você estar aqui. Era simplesmente inpossível e mesmo que depois de todos esses anos separados, eu ainda não tinha tido tempo de superar sua partida, apenas de tentar conviver com a imensa falta que você me fazia. Sei que essa ausência era necessária e que você deveria reorganizar sua vida, mas depois que perdemos contato, pensei que nunca mais o veria. Diante da revelação, é óbvio que não acreditei, só poderia ser brincadeira - e, diga-se de passagem, uma brincadeira de mau gosto.


A contagem regressiva começou e o que se seguiu foi que eu duvidei e ela abriu a porta para mostrar que era verdade: lá estava você, com uma blusa de lã branca, calça ligeiramente folgada como sempre usava e um par de sapatos que denunciavam seus pés exageradamente grandes perto dos meus de tamanho 36. Um sorriso enfeitava seu rosto que, apesar do tempo, permanecia tão sereno e terno quanto eu havia guardado na memória; os olhos cor de cobre estavam doces, como que cobertos de mel, ou talvez seja mesmo de chocolate derretido, daqueles que só de olhar, já consegue desarmar todas as nossas defesas. E aqueles braços de pele macia eram aqueles que me abrigaram havia tanto tempo, aqueles que eu desejava ter ao meu redor todas as noites, ao deitar em minha cama, aqueles cuja textura eu imaginava sentir ao fechar os olhos, num último momento antes de sucumbir ao sono...


3, 2, 1: Feliz ano novo, meu amor!






Jejels, 30/12/2011.


Pauta para a 98ª edição conto/história do Bloínquês.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Essa saudade

Doce sentimento
Que chega em meu peito
Leve, flutuando,
Suspirando arpejos de sorriso.

Doce lembrança
Daquelas últimas noites
Em que nos teus braços, repousava
Como se nada mais importasse.


Jejels, 29/12/2011.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Carta nostálgica

Lu,

Engraçado como o tempo passa às vezes tão sorrateiro perante o dia-a-dia tão atribulado que vivemos esses anos todos. Parece que foi ontem que estávamos todos ali à mesa da cozinha discutindo como seria quando você tivesse 15 anos e eu, 18, falando como se isso estivesse tão distante, como se ainda fosse demorar uma eternidade. E aqui estamos nós hoje, já passei dos 18 há muito e tanta coisa mudou! Pensávamos que a vida adulta era algo tão distante, tão intangível... sinto falta dessa ideia de criança de que com 20 anos já se é velho e maduro o bastante, parece até um ser de outro planeta. Hoje percebo que esse ser de 20 anos, apesar de realmente estar iniciando a fase adulta da vida, cheia de mudanças significativas – e, cá entre nós, assustadora -, continua guardando um pedaço dessa criança interior, ainda cultiva em si tantos medos, tantas inseguranças... não, não sou aquela pessoa forte que imaginava que seria quando chegasse a essa faixa etária. Na verdade, há vezes em que me sinto tão frágil que tenho que fugir ao cômodo mais próximo para descarregar as angústias, raivas, medos e dores imediatamente após trancar a porta. E chorar compulsivamente ao ponto de não conseguir conter os soluços, sentir as lágrimas queimando até os olhos incharem e ficarem tão vermelhos que minha íris azul adquire um aspecto um tanto esquisito.
Bem, mas isso não vem ao caso. Hoje eu joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim. O fato é que estava limpando meu quarto, dando aquela geral para ver roupas e artigos que não me são mais úteis e dar a quem precisa e acabei encontrando aquela caixinha preta e azul que você me deu de presente certa vez. Foi um natal alegre aquele. Apesar de tudo o que tinha acontecido em nossa casa nos dias que o antecederam, no final das contas, o espírito de natal deu um jeito de segurar a magia ao menos na noite de 24 de dezembro. Sim, a noite foi ótima, pudemos nos desligar dos problemas e nos juntar aos nossos primos, então trocamos presentes e tudo correu de forma tão boa, numa atmosfera tão gostosa de amizade e companheirismo... havia sim, naquela noite, um espírito familiar de que me recordo bem e que gostaria de poder reviver algum dia. Desde que viajei para continuar estudando depois da faculdade, sinto imensas saudades de você e de todos. Até as brigas parecem distantes, elas fazem parte da nossa convivência, mas sempre se sobressai esse desejo imenso de revê-la, assim como a papai e mamãe. Achar aquela caixa me lembrou dessa nossa noite de felicidade em que nem passava pela nossa cabeça que tudo mudaria tanto nos anos seguintes! Lembro-me que você conseguiu ingressar na faculdade e tudo foi uma festa quando soubemos. Você estava tão animada para terminar o ensino médio, foi completamente diferente de mim em termos de se adaptar à vida de universitária. Sempre achei que você se sairia melhor nisso que eu. Você sempre soube se virar mais que eu, mesmo sendo a irmã mais nova. Eu sempre fui muito dependente de tudo e de todos, gostava de me acomodar com esse tipo de coisa e não sabia resolver meus problemas sozinha. Resistia às mudanças ao máximo que podia, mas chegou a minha hora de traçar meu próprio caminho e quando me encontrei sozinha sem ninguém além de mim mesma para resolver minhas questões, bem... isso foi assustador.
Fico a imaginar como está tudo por aí. Faz algum tempo que não recebo notícias suas e sinto falta do sorriso bobo que germina em meu rosto quando descubro uma correspondência sua em minha caixa de correio. Tenho escrito pouco também, sei disso, mas você sabe como é corrida essa rotina atarefada de fim de ano; muitos trabalhos a entregar, contas a pagar, problemas a resolver e ainda presentes para comprar – é claro que vou mandar os presentes de vocês! Ah, sim, espero que você tenha parado com sua pequena neurose de não comer doces, porque agora que lembrei daquela caixinha... prepare-se, porque vou dar um jeito de arrumar os melhores chocolates daqui para mandar no natal assim como você me entregou aquela caixa que fizemos juntas e que você encheu de chocolates para me presentear na madrugada de 25 de dezembro fazendo o maior mistério antes da data para que eu não descobrisse para quem você a daria.
Ah, quanta saudade! Quanta saudade de tudo e de todos! Espero poder retornar logo, talvez consiga concluir o curso em um ano ou dois, mas minha vontade é de tomar um avião hoje mesmo para abraçá-los novamente e passarmos o natal em família como sempre fazíamos antes de eu ter de viajar.
Enfim, está ficando tarde e é melhor eu terminar a carta por aqui (da última vez, escrevi até as 5h da manhã e estava acabada na aula por não ter dormido mais que 2 horas). Espero poder receber notícias suas logo e sentir que estamos menos longe uma da outra. Se puder, irei vê-los nas próximas férias, mas para isso tenho que conseguir o estágio esse semestre, porque o custo de vida aqui é bem diferente...


Mil beijos de saudade para você, mamãe e papai.
Amo vocês.





Jejels, 28/12/2011.
Pauta para a 100ª edição musical do Bloínquês.

Meu paradoxo

Faltam-me palavras. E também o ar. E o chão não tarda a ceder sob meus pés. O equilíbrio se esvai, dando lugar à tontura. Os pensamentos turbam-se, já sem rumo, sem nexo, embaçados em minha cabeça. Embriaguez, ah, embriaguez... meu paradoxo preferido. Tira-me tudo e ao mesmo tempo ganho o mundo. O meu mundo – você.


Jejels, 20/12/2011.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.



Pablo Neruda.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Terça-feira chuvosa

Palavras já ditas,
Perfumes passados,
Memória agora lida
Nos vestígios molhados.

A rua suspira,
Inspira a presença doce
Que por ali passou.

O sol aquece
E faz evaporar
O resto de chuva que insistiu em ficar.

E mesmo tendo o dia chegado ao fim,
Ainda sinto tudo pulsando,
Remexendo-se numa lembrança,

Labareda que dança.



Jejels, 14/12/2011.
Pauta para a 66ª edição poemas do Bloínquês.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Soneto do olhar magnético

Alguma coisa pisca, suave,
Tímido brilho
Quase imperceptível.

E chama meus olhos para si,
Em silencioso convite
Sincero, irrecusável.

Calor afável emana
E pouco a pouco, encanta
Numa gradação luminosa,
Crescente chama vertiginosa.

Por fim, derrete-se o cobre metálico,
As íris inundando, hipnótico,
Sugando para si todo o ar...
E sou incapaz de resistir a esse olhar.




Jejels, 05/12/2011.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Descansa coração

Cansei de tanto procurar
Cansei de não achar
Cansei de tanto encontrar
Cansei de me perder

Hoje eu quero somente esquecer
Quero o corpo sem qualquer querer
Tenhos os olhos tão cansados de te ver
Na memória, no sonho e em vão

Não sei pra onde vou
Não sei
Se vou ou vou ficar
Pensei, não quero mais pensar
Cansei de esperar
Agora nem sei mais o que querer
E a noite não tarda a nascer
Descansa coração e bate em paz.




Fernanda Takai.

Desabafo

Queria conseguir simplesmente ignorar tudo como todos fazem. E dormir com a consciência tranquila todos os dias achando que não é responsabilidade minha tentar fazer alguma coisa pra mudar a realidade deplorável em que o mundo se encontra. Às vezes parece que o mundo está tão podre que quero simplesmente me desligar disso tudo. Um dia vai chegar a hora em que vamos ter que pagar por tudo o que estamos fazendo. Aí quero ver quem vai aguentar as consequências.


Jejels, 03/12/2011.