sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Falling Down

O universo estava desestruturado, não restava mais luz que não fosse aquele ínfimo raio azulado que entrava difuso pela janela. E assim, o mundo – o meu mundo – esmaecia. Não restavam dúvidas de que o dia havia sido péssimo e que tudo estava dando errado, regredindo... e talvez só faltasse um fiozinho de certeza para sentenciar que eu não poderia fazer mais nada para mudar a situação.
É, o mundo começava a rachar com seus pilares já trincados, a ponto de ruir, mas foi nesse momento, sob aquela luzinha pálida que ainda insistia em se insinuar na penumbra do meu quarto que eu fechei os olhos. Então, concentrei-me em sentir meu corpo, cada parte dele. Comecei pelos calejados dedos dos pés, que ainda estavam doloridos, passando pelos músculos das pernas, contraindo o gastrocnêmio, subindo até as coxas, inspirando profundamente o ar para que pudesse perceber o encher dos pulmões, o movimento das costelas a fim de expandir meu interior que ora sugava, ora expulsava o ar. Subindo um pouco mais, podia notar a tensão ainda presente nos ombros, a enrijecê-los, o pulsar do sangue no pescoço, a secura dos lábios, o inflar das narinas, o leve tremor nas pálpebras e um leve arrepiar bem na raiz dos capilares...
Quando dei por mim, estava em pé, movendo-me como um nau que oscila sobre as águas de um oceano calmo. Progressivamente, enquanto respirava cada vez mais volume de ar, imaginava-me sendo preenchida por aquele brilho tímido, deixando o corpo se mexer de maneira mais fluida, aumentando a intensidade dos movimentos, como que tomando consciência de meu próprio corpo, de meu próprio cansaço, de minha própria dor, de minhas próprias limitações... e ao mesmo tempo, lutando contra qualquer barreira para me manter de pé, insistindo em manter a crescente dinâmica que meus músculos coreografavam ali, naquele espaço que já nem sei se era mesmo meu quarto ou se eu já estava, de fato, dançando dentro de mim mesma.
Com os olhos fechados, ainda sentia uma pequena claridade a me guiar, mas não precisava enxergar nada para ter a completa percepção do espaço em que eu estava... tudo era completamente conhecido, cada textura, cada dimensão, cada esconderijo, cada rachadura, cada pilar que, de alguma forma, ainda exercia sua função.
Naquela noite, deixei que o sangue que pulsava em minhas veias se libertasse de qualquer corrente, deixei que se entregasse a cada ânsia, a cada desejo e, ao mesmo tempo, que se curvasse diante da dor e do fato de que tudo estaria indo abaixo a qualquer momento. Foi quando finalmente me entreguei ao ímpeto de ser eu mesma e de encontrar-me com essa pessoa que sempre esteve ali dentro, mesmo que muitas vezes abaixasse a cabeça ou se abstivesse de realizar seus verdadeiros desejos.
Ao menos uma vez na vida, mesmo que na noite derradeira, deixei-me dançar sem máscaras, sem personagem. Ao menos uma vez, deixei-me despir minha alma para uma última dança.




Jejels, 20/01/2012.
(escrita enquanto ouvia Falling Down, música do álbum Showbiz da banda Muse)

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