domingo, 29 de janeiro de 2012

Transferência

Talvez naquele momento ela tivesse finalmente voltado a se sentir viva e não mais um desprezível pacote de carne e ossos sem utilidade. Quando avistou a escada e pôs-se a subi-la, degrau por degrau, logo atrás daquele sujeito de blusa azul. Aquele era um desconhecido, mas não um qualquer. Ela o havia seguido desde o instante em que o encontrou e, ao longo do trajeto, sua determinação apenas crescia.


O fim de seu estado letárgico tomou-a por completo e tudo o que ela sentia era a necessidade de terminar o que havia começado. Com os ânimos renovados de tal maneira, não poderia permitir que sua depressão consumisse aquele rapaz como havia feito com ela mesma.


Seus passos eram decididos e o capuz do casaco pendia por sobre seu rosto sombreado. A chuva molhava a rua com a calma de um suspiro, mas o sopro final de vida que estava próximo era o daquele rapaz. Acontece que ela não havia acreditado que daria certo. Pensou que poderia ser outra dessas crenças esquisitas em troca de energia emocional por meio de abraços em árvores – o que ela já havia comprovado por si própria que não passava de um mito. Mas daquela vez, a transferência tinha funcionado. Não havia outra explicação para tão absurda recuperação psicológica. Depois de tantos remédios, inúmeras terapias, não era possível que aquela névoa aterradora que engolia seu coração se dissolvesse sozinha, sem mais nem menos, numa manhã chuvosa de verão.


Depois de ter pesquisado a técnica de transferência, já tinha decidido que aquela era sua última esperança – mesmo que não confiasse que daria certo. Quando chegou à ponte, já estava preparada para o próximo passo caso tudo desse errado. Na verdade, ela não tinha se dado conta de que não se preparara para o que teria de fazer se de fato funcionasse.


O sujeito havia mudado seu caminhar, passando a exibir passos um pouco mais lentos e o discreto reclinar de sua cabeça na direção do chão foi acusador para ela. Talvez aquilo fosse a última prova de que ela precisava para ter a certeza de que aquele fantasma depressivo havia sido exorcizado de seu corpo e possuído o daquele desafortunado logo em seguida.


O impulso que a movia a persegui-lo intensificou-se. A excitação era já tão incomum, há tanto não sentia mais no corpo aquela onda de adrenalina que caracteriza o cheiro de uma perseguição como aquela. Em sua mente, todos os pensamentos negativos haviam se esvaído, restara apenas aquele foco de quem tem um dever a cumprir, uma última tarefa para que a missão esteja cumprida. Já podia apalpar o revólver com as mãos frias, os dedos um pouco rijos por causa do frio que fazia. Aquele seria seu veredicto caso tudo aquilo não passasse de mais uma crença sem fundamentos, mas o que ocorreu quando ela finalizou o procedimento de transferência e encontrou os olhos daquele sujeito, seu coração libertou-se daquele pesar doentio que a consumira durante o que já parecia se estender numa eternidade. Seria aquilo o poder de um olhar? Seria esse encontro capaz de exterminar suas dores, de lavar seu coração já quase petrificado? Os fatos apontavam que sim.


Incapaz de cessar a perseguição, ela carregou a arma, já pronta para empurrá-lo ao beco do qual estavam se aproximando. Ela não deixaria aquela agonia tomar conta de alguém, não por sua causa. Desacreditada em todos os métodos anti-depressivos que testara anteriormente, esquecera que aquele poderia dar certo e que então aquele estado espiritual desumano viria a habitar o interior de outra pessoa que não possuía nenhum vínculo com a situação.


O homem parecia andar com um cansaço anormal, os passos tornando-se pesados a cada minuto e ela ficou agradecida por não poder ver seu rosto. As feições de um coração machucado, de uma alma vazia haviam estampado seu rosto por mais tempo do que ela conseguia se lembrar. Mas com certeza em sua memória aquelas feições estavam tão frescas, na verdade, tão impregnadas, que seria de fato surpreendente se ela conseguisse se lembrar de como era a visão de seu sorriso, a sensação da contração dos músculos de quando um riso se forma na garganta até transbordar em ruídos, fragmentos de voz pairando pelo ar.


E a cada pensamento, fazia-se mais necessário o ato que estava prestes a cometer. Ele não resistiria, não demonstraria resistência, ela sabia bem que para ele, seria mesmo melhor que fosse assim. Com o revólver carregado, apressou o passo até ficar ao lado do novo abrigo do espírito apagado. Foi quando passaram bem ao lado do beco – que apesar do horário, estava mal iluminado pela má localização e pela neblina – que ela jogou o peso de seu corpo contra o dele, empurrando-o direto ao seu leito de morte.


Com os braços, impulsionou o homem, que caiu com um baque no chão frio e molhado de chuva. Ele apenas continuou ali, sem ao menos levantar o rosto. Nenhuma expressão era visível em sua face, nem ao menos a de surpresa. “Está lá”, ela pensou, e então criou coragem para buscar na face dele a morbidez que antes estava estampada em sua própria.


Ajoelhando-se na frente do sujeito, ela empunhou a arma, apontando-a na direção do peito dele. Agora a adrenalina havia tomado o sabor do medo. Hesitação. “Não posso desistir agora”. E então reuniu todas as forças que pôde encontrar naquela alma em reconstituição e, com uma das mãos, segurou o queixo do homem, levantando seu rosto para que pudesse encontrar seus olhos.


...


Uma onda de energia percorreu seu corpo, fazendo-o contrair-se em arrepios e o que encontrou naquele olhar foi tão aterrador quanto as emoções que a consumiam há pouco. A completa e pura visão do vazio atingiu-a como um baque, ameaçando destroçar toda a estabilidade que vinha tentando se erguer nela durante os minutos anteriores.


“Não...”


A sensação era de que ela estava sendo puxada, sugada de volta pelo próprio vácuo, aquele espaço do nada que às vezes é tão desprezado, mas que tem a força e a magnitude de um buraco negro a engolir estrelas, planetas, todo um sistema galáctico. Era seu mundo a sucumbir, a ter os alicerces atacados por um terremoto. Era sua prova final.


“Não posso...”


Se ela cometesse um deslize, tornar-se-ia novamente um abrigo da depressão. Um descuido que interrompesse a contração de seus músculos poderia levá-la a perder a guerra. Se fosse vencida naquele momento, ela sabia que não haveria retorno. Seria impossível expulsar a melancolia de si uma segunda vez, ela já conhecia a força e a eficácia com que aquilo apoderava-se dela, de cada osso, de cada músculo, de cada veia, de cada fio de cabelo, de cada célula de seu corpo... de cada partícula de sua alma.


“Não posso desistir.”


E no instante seguinte, o que formou-se nos olhos daquele homem... a visão de seu próprio rosto imerso naquela escuridão de um par de pupilas devoradoras; janelas para o nada.

POW


Sangue escorria pelas mãos brancas, o rosto pálido adquiria um aspecto doentio. O corpo vacilava, mesmo que apoiado sobre os dois joelhos. O mundo parecia girar à sua volta, um grande navio, um oceano a ondular por seu corpo – ou seria seu corpo a cambalear flácido pelas águas?


Falta de ar, falta de ar, inspira, expira, inspira, expira, ins...

Fal...ta de a...





Jejels, 10/01/2012.

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