domingo, 12 de fevereiro de 2012

As janelas da alma

É no silêncio da alma que se torna eloquente o discurso mudo do olhar. Logo pressinto a tão impactante colisão: meus olhos e os teus, tão próximos, tão distantes. Pois na brevidade dos poucos centímetros que os separam, posso sentir na pele a imensidão das divergências que tornam esse encontro impossível.
É tão belo esse momento, por sua simplicidade apenas aparente, enganosa, como a lua refletida no rio, que convida a índia a tocá-la – doce ilusão de que a possui ao alcance dos dedos. E assim ocorre a suposta fusão: eu pouso os olhos nos teus e logo você os poderá ver – seus próprios olhos – aprisionados nos meus, absorvidos como num ato antropofágico – de quem devora aquilo que capta do mundo externo aquilo que, nesta ocasião, trata-se de um irmão de espécie.
Exploremos além! Teus olhos, ao perceberem-se presos em mim, captam também os meus, como que por vingança ou mera garantia de que o corpo não ficará prejudicado pelo furto que lhe acometeram. Acontece que tudo é uma farsa, uma grande ilusão que se impõe a nós, pois, na verdade, os olhos são meros instrumentos para que nosso cérebro receba os estímulos que o meio externo nos oferece, sendo ele que realmente vê, decodifica o que nos é posto para o banquete visual. E sendo ele parte de nós, está comprometida sua capacidade visual, pois limitamo-nos a enxergar aquilo que desejamos, aquilo que nossa personalidade, nossa vivência, nosso próprio mundo interno e pessoal determina e deseja. Como nossos mundos são diferentes por completo, os míseros centímetros que compõem a distância física entre nós, são, na verdade, uma distância de ordem galáctica, e o referido encontro, muito superficial comparado a uma real leitura.
Por outro lado, esse ínfimo gesto é imprescindível para que se possa abrir mão do próprio universo, das próprias certezas, opiniões e paradigmas, é o primeiro passo para que se possa, enfim, tentar adentrar e compreender o outro universo, novo mundo distante que está ali a absorver a imagem de pupilas alheias. O encontro desses olhares poderá ser o içar das velas de nossa caravela rumo à aventura de se chegar ao desconhecido.
E fico a imaginar os mistérios por detrás desses teus olhos...





Jejels, 07/02/2012.

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