segunda-feira, 11 de junho de 2012

Caminhos do inconsciente


A rua estava deserta e a noite já ia alta. Ela caminhava olhando sempre em frente, às vezes fitava a abóbada celeste à procura de uma ou outra estrela que ainda ousasse brilhar na escuridão. Sua cabeça passava e repassava alguns pensamentos que caiam como conhaque, ainda fervilhando o sangue, esquentando por dentro. Mas ela já estava uma bagunça, então não se importava com as revoltas e rancores que pudessem surgir dessas lembranças. Palavras podem ter um poder grande sobre nossos sentimentos, é interessante perceber o quanto o que ouvimos pode alterar nosso estado emocional em poucos instantes.
Soprava uma brisa fria, mas ela vestia um casaco de lã que ela mesma fez, com a ajuda da avó. “Para quê tudo isso?”, ela pensava. Pessoas. Elas vêm e vão, mas no final, estamos sempre sozinhos. A companhia de alguém pode durar um bom tempo, mas sempre vai acabar se esvaindo, como a última gota de chuva. E ela sabia muito bem o que eram tempos de seca. Em seu coração, pairava o cheiro do esquecimento, juntamente com um gosto já conhecido, de solidão. Não se tratava de um abandono, era apenas o silêncio de quem anda sozinho.
E nesse silêncio, ela desfrutava da companhia da única pessoa que ela estava certa de que não a deixaria. A única pessoa que teria de aturar até o fim de seus dias: ela mesma. Às vezes demora, mas algumas pessoas conseguem enxergar isso em algum momento da vida. Geralmente, esse grupo passa por algum tipo de sofrimento ou frustração, mas, de um modo ou de outro, essa percepção muda muito o modo como uma pessoa enxerga o mundo e reage a ele.
E importava que estivesse frio? De que valem as sensações mundanas? Não são elas passageiras? Meros lampejos que logo se apagam, como chamas precoces? De fato, a vida mostrava-se um espetáculo construído de efemeridades que aparentemente não faziam sentido algum. Mas naquela noite, uma estrela ainda permaneceu pulsando até a hora em que ela enxergou os primeiros raios de sol que despontavam através dos prédios da cidade. Sim, são fatalmente efemeridades...mas não poderiam encontrar sua razão de ser em sua própria existência, em sua própria irrepetibilidade? Talvez seja isso a felicidade. Conseguir desfrutar de cada momento, viver o presente, mas ao mesmo tempo, não se apegar a ele.
“Não se apegar a ele”, ela pensou. Uma tarefa certamente difícil, mas se conseguisse, aquilo a salvaria naquele momento. E então, toda essa angústia poderia ir embora, deixá-la em paz de uma vez por todas. Mas como poderia o amor conviver com o desapego?
Talvez não haja uma resposta a todas as perguntas. E com o dia nascendo – mais um dia a se enfrentar – teria de esperar até a próxima caminhada noturna para concluir o pensamento. Uma nova conversa com o céu para roubar uma solução da estrela que aparecesse.



Jejels, 10/06/2012.

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