sexta-feira, 29 de junho de 2012

Madrugada em mim

Mordeu mais um pedaço de chocolate com a melancolia estampada em seus olhos. A porta do banheiro estava trancada para que ninguém a pudesse ver em pleno surto compulsivo. Quando encontrava a si mesma, aquele rosto refletido no espelho, só conseguia enxergar as manchas escuras em seu rosto, cobrindo a boca e as bochechas. Era o doce que a distraía das amarguras do dia-a-dia. Já estava tarde mais uma vez e ela parou de se preocupar se aquela já era a terceira ou a quarta barra de chocolate. Sentia o estômago cheio, mas não conseguia parar de mastigar. Deveria estar na cama, mas não conseguia a coragem para se arrastar até o quarto, nem a virtude da paz para fechar os olhos e entregar-se ao mundo dos sonhos. A casa ficava quieta mais uma vez. Todos os dias acontecia assim: o sol se punha por detrás das cortinas quando ela voltava para casa. A mãe já estava lhe fazendo companhia, o pai chegaria um pouco mais tarde. Conversa vai, conversa vem, o som da televisão anunciando os acontecimentos do dia ou apenas mais um episódio monótono de uma novela qualquer. Mas não demorava muito até os dois irem se deitar e então ela ficava a sós com seus pensamentos. As luzes estavam todas apagadas e então ela começou a sentir algo diferente. E era medo. Ela sabia que não deveria temer o escuro, mesmo que tudo estivesse quieto. Era um apartamento pequeno e ela estava segura, mas aquele sentimento floresceu dentro dela de modo que a mente era surpreendida por imagens de sustos, aparições repentinas que costumam figurar em filmes de suspense. Decidiu ocupar-se com alguma atividade para esquecer a aflição. Mas aconteceu apenas como em todas as outras noites e lá estava ela, novamente munindo o sangue de açucar. Duas horas da manhã e o chocolate havia acabado. Ela se deitou em sua cama e queria ler um livro, mas não conseguia. A mente parecia paralisada para exercer qualquer atividade que ultrapassasse a inércia de seus pensamentos. Então ficou ali, quieta, apenas olhando para as nuas paredes do quarto que mais pareciam conversar com ela telepaticamente. A madrugada rendeu boas confissões e relatos. Até que ela percebeu, pela fina fresta das pesadas cortinas de seu quarto, o adentrar dos primeiros raios de sol. Ela se levantou, um pouco trôpega e foi de encontro ao mundo exterior. Afastou levemente as cortinas e fitou a paisagem por detrás da janela. E estava tudo ali, do mesmo jeito como estava antes. A verdade é que ela sabia que só seria um novo dia quando ela conseguisse findar a noite dentro de si. E ao terminar esse pensamento, juntou as embalagens de chocolate para jogar no lixo. 

 Jejels, 29/06/2012.

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