terça-feira, 14 de agosto de 2012

Metamorfose


Estava caminhando com meu pai em uma manhã de terça-feira. Fazia muito tempo que eu não saía de casa e, na verdade, nem estava com muita vontade de andar por aí, mas meu pai me convenceu a dar um passeio perto de casa, só para respirar um ar puro. Mesmo que fizesse tempo desde a última vez que fiz algo parecido, nada parecia diferente. O trânsito começava a ficar carregado, as calçadas continuavam rachadas e a terra retirada para construir uma nova ainda estava ali nos arredores. As folhas das árvores balançavam levemente com o vento, assim como meus cabelos.
                Mal tínhamos começado a andar e eu já sentia no corpo a vontade de parar e voltar. Meu pai, ao contrário, continuava indo em frente, conversando sobre qualquer coisa em que eu não prestava muita atenção. Aliás, tudo ali fora já estava ficando exaustivo. Havia também outras poucas pessoas que andavam nas calçadas. Às vezes elas passavam por nós, indo na direção oposta. Eu as via de longe, mas, quando chegavam perto, não conseguia fitá-las nos olhos. Não sei se por vergonha, ou simplesmente por não carregar aquela energia dentro de mim – ultimamente meus sorrisos foram todos máscaras forjadas para não preocupar mais minha família.
                E estava eu, devaneando sobre voltar ao meu quarto enquanto meu pai continuava a conversar sem que eu escutasse, quando algo realmente diferente aconteceu. Estávamos passando em frente a uma academia onde um painel eletrônico estava posto à entrada do estacionamento. Um desses outdoors estilo televisão em que passam várias propagandas. Mas isso é algo comum. O inusitado foi que, quando passamos ao lado do tal painel, um peixe holográfico mostrou-se para nós. Ora, como estava tão absorta, não fui eu quem notou o fato, mas meu pai, que me cutucou e apontou para o animal.
                Não entendo de peixes, mas com certeza jamais vira algum parecido com aquele. E enquanto estávamos ali parados, ele mudava sutilmente de cor em algumas de suas escamas e sua forma também metamorfoseava ligeiramente, como que por magia. Quando eu estava prestes a voltar ao meu estado de inércia – pois não passava de uma imagem virtual em um painel eletrônico -, algo mais me impediu. O peixe estava, sim, numa metamorfose. Suas nadadeiras iam adquirindo característica de dedos, os opérculos fechavam-se, assim como as brânquias e a fronte ganhava um nariz. Sim, o peixe transformou-se num homem. E mais que isso, num homem de verdade.
                Depois disso, eu estava certa de que tudo não passava de um sonho. Meu pai continuava extasiado com o que se apresentava a nós, mas assim que o homem começou a andar ao nosso lado, ele se tornou cauteloso. A mim, estava claro que meu pai estava com medo. O homem era como outro qualquer, tirando, é claro, o fato de que antes era um peixe holográfico.
Durante algum tempo, apenas caminhava a nosso lado e observava as coisas ao seu redor. Eu ainda não entendia a razão do receio de meu pai e desde que ganhamos um acompanhante, ele não dissera uma palavra. Foi então que uma outra voz veio perturbar o silêncio em meus ouvidos.
- Vocês têm vida? – Disse o homem.
Ora, sendo um sonho ou não, aquela era uma pergunta inesperada. Uma pergunta direta e que começou a mexer comigo de uma forma bem intensa, como há muito nada nem ninguém conseguira fazer.
Meu pai demorou algum tempo para esboçar uma reação e proferir uma resposta. Cauteloso, rebateu o questionamento.
- Como assim, vida? O que é vida para você?
- Ah, vida é essa coisa de sentir...
                A cada segundo, aquela presença ia me surpreendendo, me intimando a pensar sobre coisas sobre as quais eu tanto havia pensado e que me trouxeram o cansaço e a derrota de continuar perguntando em vão, sem uma resposta. Enquanto eu me envolvia ainda mais, meu pai começara a entrar em pânico. Eu não conseguia entender o que se passava com ele.
                Eis que o homem tropeçou e caiu e meu pai saiu correndo. Ele começou a me puxar pela mão, mas a verdade é que eu não queria correr. Eu nem sabia a razão de ele estar fazendo aquilo. O homem continuava caído na calçada e o trânsito já estava congestionado, então já deveria ser por volta de meio-dia. Arrisquei uma olhada para trás e soltei a mão do meu pai. Sem qualquer explicação para o que fiz, voltei na direção do peixe-homem.  
                Em minha cabeça, aquela pergunta permanecia intacta. O único problema é que provavelmente eu já tinha a resposta – só não conseguia aceitá-la. Ultimamente, mal saía do meu quarto, passava horas deitada em minha cama, debaixo do meu cobertor apenas dormindo e devaneando. Meu corpo não estava doente, mas a alma estava definhando dentro de mim e minha mente cedia, fraquejava diante da situação.
                Quando me aproximei novamente do estranho, ele estava sentado e olhava para mim. Sem dizer nada, apenas parei de frente para ele e agachei-me. Finalmente, olhei-o nos olhos. Eram dois buracos negros que não sei descrever aqui, mas que explica todo o temor de meu pai.
- ...então?
                “Essa coisa de sentir”, ele havia dito antes. A única coisa que eu sentira nos últimos dias fora um imenso vazio que me corroía. Ele esperava pacientemente, sem tirar os olhos de breu dos meus. E percebi que aqueles olhos eram o retrato dos meus. Sentir? Eu não sentia mais nada. Eu era apenas um corpo ocupando espaço em minha casa. Eu não tinha mais ambições, não tinha mais preocupações, não tinha mais uma perspectiva, não tinha mais amigos, não tinha mais amor. Dentro de mim, não restava mais nada além de órgãos trabalhando sem nenhum motivo. Órgãos e ossos que apenas existiam, estavam ali – assim como eu.
- ...não – Respondi, finalmente.
                E, percebendo que eu era como ele, levantou-se, deu-me sua mão-barbatana e fomos embora juntos.





Jejels, 14/08/2012.

**Escrevi este conto inspirada por um sonho que meu pai me contou esta manhã.

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