domingo, 2 de setembro de 2012

Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado.
Isso é tudo: é a única questão.
Para não sentir o horrível fardo do Tempo,
que lhe quebra os ombros e o curva para o chão,
é preciso embriagar-se sem perdão.

Mas de que?
De vinho, de poesia ou de virtude,
como quiser.
Mas Embriague-se.

E se às vezes, nos degraus de um palácio,
na grama verde de um fosso,
na solidão triste do seu quarto,
você acorda,
a embriaguez já diminuída ou desaparecida,
pergunte ao vento, à onda, à estrela,
ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge,
a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunte que horas são;

E o vento, a onda, a estrela,
o pássaro, o relógio lhe responderão:
"É hora de embriagar-se!
Para não ser o escravo mártir do Tempo,
embriague-se; embriague-se sem parar!"

De vinho, de poesia ou de virtude,
ao seu gosto.



Charles Baudelaire

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