domingo, 30 de dezembro de 2012

A chuva chove

A chuva chove mansamente... como um sono 
Que tranqüilize, pacifique, resserene... 
A chuva chove mansamente... Que abandono! 
A chuva é a música de um poema de Verlaine... 

E vem-me o sonho de uma véspera solene, 
Em certo paço, já sem data e já sem dono... 
Véspera triste como a noite, que envenene 

... Num velho paço, muito longe, em terra estranha, 
Com muita névoa pelos ombros da montanha... 
Paço de imensos corredores espectrais, 

Onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas, 
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas, 
Revira in-fólios, cancioneiros e missais... 



Cecília Meireles

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