segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Turning tables



Close enough to start a war
All that I have os on the floor
God only knows what we're fighting for
All that I say, you always say more.

I can't keep up with your turning tables
Under your thumb, I can't breathe.

So I won't let you close enough to hurt me
No, I won't ask you, you to just desert me
I can't give you what you think you gave me
It's time to say goodbye to turning tables
To turning tables.

Under haunted skies I see you, oh
Where love is lost, your ghost is found
I braved a hundred storms to leave you
As hard as you try, no I will never be knocked down.

Next time I'll be braver
I'll be my own savior
When the thunder calls for me
Next time I'll be braver
I'll be my own savior
Standing on my own two feet.




Adele.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Transferência

Talvez naquele momento ela tivesse finalmente voltado a se sentir viva e não mais um desprezível pacote de carne e ossos sem utilidade. Quando avistou a escada e pôs-se a subi-la, degrau por degrau, logo atrás daquele sujeito de blusa azul. Aquele era um desconhecido, mas não um qualquer. Ela o havia seguido desde o instante em que o encontrou e, ao longo do trajeto, sua determinação apenas crescia.


O fim de seu estado letárgico tomou-a por completo e tudo o que ela sentia era a necessidade de terminar o que havia começado. Com os ânimos renovados de tal maneira, não poderia permitir que sua depressão consumisse aquele rapaz como havia feito com ela mesma.


Seus passos eram decididos e o capuz do casaco pendia por sobre seu rosto sombreado. A chuva molhava a rua com a calma de um suspiro, mas o sopro final de vida que estava próximo era o daquele rapaz. Acontece que ela não havia acreditado que daria certo. Pensou que poderia ser outra dessas crenças esquisitas em troca de energia emocional por meio de abraços em árvores – o que ela já havia comprovado por si própria que não passava de um mito. Mas daquela vez, a transferência tinha funcionado. Não havia outra explicação para tão absurda recuperação psicológica. Depois de tantos remédios, inúmeras terapias, não era possível que aquela névoa aterradora que engolia seu coração se dissolvesse sozinha, sem mais nem menos, numa manhã chuvosa de verão.


Depois de ter pesquisado a técnica de transferência, já tinha decidido que aquela era sua última esperança – mesmo que não confiasse que daria certo. Quando chegou à ponte, já estava preparada para o próximo passo caso tudo desse errado. Na verdade, ela não tinha se dado conta de que não se preparara para o que teria de fazer se de fato funcionasse.


O sujeito havia mudado seu caminhar, passando a exibir passos um pouco mais lentos e o discreto reclinar de sua cabeça na direção do chão foi acusador para ela. Talvez aquilo fosse a última prova de que ela precisava para ter a certeza de que aquele fantasma depressivo havia sido exorcizado de seu corpo e possuído o daquele desafortunado logo em seguida.


O impulso que a movia a persegui-lo intensificou-se. A excitação era já tão incomum, há tanto não sentia mais no corpo aquela onda de adrenalina que caracteriza o cheiro de uma perseguição como aquela. Em sua mente, todos os pensamentos negativos haviam se esvaído, restara apenas aquele foco de quem tem um dever a cumprir, uma última tarefa para que a missão esteja cumprida. Já podia apalpar o revólver com as mãos frias, os dedos um pouco rijos por causa do frio que fazia. Aquele seria seu veredicto caso tudo aquilo não passasse de mais uma crença sem fundamentos, mas o que ocorreu quando ela finalizou o procedimento de transferência e encontrou os olhos daquele sujeito, seu coração libertou-se daquele pesar doentio que a consumira durante o que já parecia se estender numa eternidade. Seria aquilo o poder de um olhar? Seria esse encontro capaz de exterminar suas dores, de lavar seu coração já quase petrificado? Os fatos apontavam que sim.


Incapaz de cessar a perseguição, ela carregou a arma, já pronta para empurrá-lo ao beco do qual estavam se aproximando. Ela não deixaria aquela agonia tomar conta de alguém, não por sua causa. Desacreditada em todos os métodos anti-depressivos que testara anteriormente, esquecera que aquele poderia dar certo e que então aquele estado espiritual desumano viria a habitar o interior de outra pessoa que não possuía nenhum vínculo com a situação.


O homem parecia andar com um cansaço anormal, os passos tornando-se pesados a cada minuto e ela ficou agradecida por não poder ver seu rosto. As feições de um coração machucado, de uma alma vazia haviam estampado seu rosto por mais tempo do que ela conseguia se lembrar. Mas com certeza em sua memória aquelas feições estavam tão frescas, na verdade, tão impregnadas, que seria de fato surpreendente se ela conseguisse se lembrar de como era a visão de seu sorriso, a sensação da contração dos músculos de quando um riso se forma na garganta até transbordar em ruídos, fragmentos de voz pairando pelo ar.


E a cada pensamento, fazia-se mais necessário o ato que estava prestes a cometer. Ele não resistiria, não demonstraria resistência, ela sabia bem que para ele, seria mesmo melhor que fosse assim. Com o revólver carregado, apressou o passo até ficar ao lado do novo abrigo do espírito apagado. Foi quando passaram bem ao lado do beco – que apesar do horário, estava mal iluminado pela má localização e pela neblina – que ela jogou o peso de seu corpo contra o dele, empurrando-o direto ao seu leito de morte.


Com os braços, impulsionou o homem, que caiu com um baque no chão frio e molhado de chuva. Ele apenas continuou ali, sem ao menos levantar o rosto. Nenhuma expressão era visível em sua face, nem ao menos a de surpresa. “Está lá”, ela pensou, e então criou coragem para buscar na face dele a morbidez que antes estava estampada em sua própria.


Ajoelhando-se na frente do sujeito, ela empunhou a arma, apontando-a na direção do peito dele. Agora a adrenalina havia tomado o sabor do medo. Hesitação. “Não posso desistir agora”. E então reuniu todas as forças que pôde encontrar naquela alma em reconstituição e, com uma das mãos, segurou o queixo do homem, levantando seu rosto para que pudesse encontrar seus olhos.


...


Uma onda de energia percorreu seu corpo, fazendo-o contrair-se em arrepios e o que encontrou naquele olhar foi tão aterrador quanto as emoções que a consumiam há pouco. A completa e pura visão do vazio atingiu-a como um baque, ameaçando destroçar toda a estabilidade que vinha tentando se erguer nela durante os minutos anteriores.


“Não...”


A sensação era de que ela estava sendo puxada, sugada de volta pelo próprio vácuo, aquele espaço do nada que às vezes é tão desprezado, mas que tem a força e a magnitude de um buraco negro a engolir estrelas, planetas, todo um sistema galáctico. Era seu mundo a sucumbir, a ter os alicerces atacados por um terremoto. Era sua prova final.


“Não posso...”


Se ela cometesse um deslize, tornar-se-ia novamente um abrigo da depressão. Um descuido que interrompesse a contração de seus músculos poderia levá-la a perder a guerra. Se fosse vencida naquele momento, ela sabia que não haveria retorno. Seria impossível expulsar a melancolia de si uma segunda vez, ela já conhecia a força e a eficácia com que aquilo apoderava-se dela, de cada osso, de cada músculo, de cada veia, de cada fio de cabelo, de cada célula de seu corpo... de cada partícula de sua alma.


“Não posso desistir.”


E no instante seguinte, o que formou-se nos olhos daquele homem... a visão de seu próprio rosto imerso naquela escuridão de um par de pupilas devoradoras; janelas para o nada.

POW


Sangue escorria pelas mãos brancas, o rosto pálido adquiria um aspecto doentio. O corpo vacilava, mesmo que apoiado sobre os dois joelhos. O mundo parecia girar à sua volta, um grande navio, um oceano a ondular por seu corpo – ou seria seu corpo a cambalear flácido pelas águas?


Falta de ar, falta de ar, inspira, expira, inspira, expira, ins...

Fal...ta de a...





Jejels, 10/01/2012.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Escalada

O dia alcança-me como uma tempestade de areia
E com os olhos marejados, eu aguardo
Apenas esperando que tudo vá passar.

Todo barulho machuca meus ouvidos,
Todo som torna-se a mim, ruído,
Catalisadores do meu desintegrar.

E eu prometo que estarei aí o mais rápido possível,
Mas às vezes faço medidas erradas
Do quanto ainda resta a escalar
Pois nem sempre a luz é visível.

E eu prometo que estarei aí o mais rápido possível,
Mas às vezes minhas mãos fraquejam
E os motivos, deixo de saber quais sejam
E por isso volto ao fundo do poço.



Jejels, 25/01/2012.
Pauta para a 72ª edição poemas do Bloínquês.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Dispensável

Precisava de algo concreto,
Algo que me mostrasse a verdade,
Que confirmasse o afeto
Ou desmascarasse a invalidade.

Precisava de silêncio,
Do som dos meus próprios pensamentos
Sem qualquer ruído
Que abafasse o rouco grito.

Pensei em uma semana,
Mas menos de dois dias me bastaram,
Menos de dois dias se passaram
E eis a confirmação
Em registros de conformação
- Sou mesmo dispensável.





Jejels, 24/01/2012.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Falling down





I'm falling down
And fifteen thousand people scream
They were all begging for your dream
I'm falling down
Five thousand houses burning down
No one is gonna save this town

Too late
I already found what I was looking for
You know it wasn't you
No it wasn't you

I was calling your name
But you would never hear me sing
You wouldn't let me begin
So I'm crawling away
'Cause you broke my heart in two
No, I will not forget you

Too late
I already found what I was looking for
You know it wasn't you
No, it wasn't you
No ...

Falling away
You would never see me through
No, I could not forget you
Falling down
Five thousand houses burning down
No one is gonna save this town

Too late
I already found what I was looking for
You know it wasn't you
No, it wasn't you
No

Falling down
Now the world is upside down
I'm heading straight for the clouds.




Muse.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Exílio

Qual monge que sobe a montanha
Com o coração palpitante,
Borboleta em teia de aranha,
Refugio-me, distante.

Que exílio poderia proporcionar tanta paz?
Não preciso de ruído,
Toda luz se desfaz,
Resta somente um amigo.

É n’Ele que me abandono,
Deixo-me abrir sem medo,
Naturalmente, como folhas do outono
Que não hesitam em seguir o vento.

E com Ele não tenho o que temer,
Pois o caminho ilumina-se com sua face,
N’Ele meu letárgico coração renasce,
Renova-se na esperança de transcender.




Jejels, 21/01/2012.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Duo(?)

Ósculo,
Uma língua-tentáculo,
Emocional simulacro,
Força que míngua.

Seria amor expresso
Ou falso verso,
Escrito desconexo,
Fantasma com quem valso?

Ósculo,
Desejo maculado,
Desenfreado lampejo.

Amor,
Sentimento distante,
Errante lamento.




Jejels, 21/01/2012.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Falling Down

O universo estava desestruturado, não restava mais luz que não fosse aquele ínfimo raio azulado que entrava difuso pela janela. E assim, o mundo – o meu mundo – esmaecia. Não restavam dúvidas de que o dia havia sido péssimo e que tudo estava dando errado, regredindo... e talvez só faltasse um fiozinho de certeza para sentenciar que eu não poderia fazer mais nada para mudar a situação.
É, o mundo começava a rachar com seus pilares já trincados, a ponto de ruir, mas foi nesse momento, sob aquela luzinha pálida que ainda insistia em se insinuar na penumbra do meu quarto que eu fechei os olhos. Então, concentrei-me em sentir meu corpo, cada parte dele. Comecei pelos calejados dedos dos pés, que ainda estavam doloridos, passando pelos músculos das pernas, contraindo o gastrocnêmio, subindo até as coxas, inspirando profundamente o ar para que pudesse perceber o encher dos pulmões, o movimento das costelas a fim de expandir meu interior que ora sugava, ora expulsava o ar. Subindo um pouco mais, podia notar a tensão ainda presente nos ombros, a enrijecê-los, o pulsar do sangue no pescoço, a secura dos lábios, o inflar das narinas, o leve tremor nas pálpebras e um leve arrepiar bem na raiz dos capilares...
Quando dei por mim, estava em pé, movendo-me como um nau que oscila sobre as águas de um oceano calmo. Progressivamente, enquanto respirava cada vez mais volume de ar, imaginava-me sendo preenchida por aquele brilho tímido, deixando o corpo se mexer de maneira mais fluida, aumentando a intensidade dos movimentos, como que tomando consciência de meu próprio corpo, de meu próprio cansaço, de minha própria dor, de minhas próprias limitações... e ao mesmo tempo, lutando contra qualquer barreira para me manter de pé, insistindo em manter a crescente dinâmica que meus músculos coreografavam ali, naquele espaço que já nem sei se era mesmo meu quarto ou se eu já estava, de fato, dançando dentro de mim mesma.
Com os olhos fechados, ainda sentia uma pequena claridade a me guiar, mas não precisava enxergar nada para ter a completa percepção do espaço em que eu estava... tudo era completamente conhecido, cada textura, cada dimensão, cada esconderijo, cada rachadura, cada pilar que, de alguma forma, ainda exercia sua função.
Naquela noite, deixei que o sangue que pulsava em minhas veias se libertasse de qualquer corrente, deixei que se entregasse a cada ânsia, a cada desejo e, ao mesmo tempo, que se curvasse diante da dor e do fato de que tudo estaria indo abaixo a qualquer momento. Foi quando finalmente me entreguei ao ímpeto de ser eu mesma e de encontrar-me com essa pessoa que sempre esteve ali dentro, mesmo que muitas vezes abaixasse a cabeça ou se abstivesse de realizar seus verdadeiros desejos.
Ao menos uma vez na vida, mesmo que na noite derradeira, deixei-me dançar sem máscaras, sem personagem. Ao menos uma vez, deixei-me despir minha alma para uma última dança.




Jejels, 20/01/2012.
(escrita enquanto ouvia Falling Down, música do álbum Showbiz da banda Muse)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Horizonte

Um novo dia esconde-se
Por entre as colinas longínquas,
Bem onde o sol de põe
Com o arco-íris e cores ocultas.

Um dia diferente incrusta-se
No íntimo de um diamante,
No mais rijo deles,
Impossível que se o arranque.

Um dia improvável
Apenas visível ao fechar os olhos,
Inalcançável...

Um dia perfeito
Que um dia acreditei ser real,
Agora, um aperto no peito...




Jejels, 18/01/2012.
Pauta para a 71ª edição poemas do Bloínquês.

Perecível

Porque o tempo é inexorável,
Murchou a flor prematura;
Atestado de óbito ao tenro botão,
Que mal abriu as primeiras pétalas
Frente ao nebuloso sol de verão.




Jejels, 18/01/2012.

Soneto ao Inverno

Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?




Vinícius de Moraes.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Letting go

Ele seguiria seu caminho, então? Com a facilidade com que dava cada passo na direção oposta, tornava tudo mais difícil para mim. O ar parecia rarefeito e o corpo vacilava a cada confirmação de que aquilo era uma despedida. E qual o motivo daquilo tudo? Fiz o que pude até o fim para convencê-lo a mudar de ideia, mas minhas palavras eram tão impotentes, tão efêmeras em seus ouvidos quanto pegadas na areia, que desaparecem com a primeira onda que chega a alcançá-las na praia.
Que força o puxava para longe de mim? Seria eu mesma um elemento de repulsa? E por que, no fundo, eu me sentia culpada mesmo que tenha sido o último guerreiro restante no campo de batalha? A luta estava chegando ao fim, pois eu não poderia vencer sozinha uma batalha que era nossa.
Por outro lado, mesmo que tudo pareça estar desmoronando agora, não vou desistir de nós. Eu o amo com uma intensidade que me consome por inteira, e é por esse motivo que devo respeitar sua vontade de partir.





Jejels, 12/01/2012.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Acolhida

Jamais presenciei um verão tão frio e chuvoso, mas a questão atípica era que apenas eu o sentia com tal intensidade. Sentia as manhãs quase a petrificar meu corpo já debilitado, mal conseguia levantar pelo simples fato de que isso significaria deixar as cobertas mornas de minha cama. Sim, apenas mornas. Meu corpo parecia tão letárgico que já não conseguia nem produzir a quantidade de calor que deveria. Talvez seja pelo fato de que o calor é uma forma de energia e as minhas já estavam no vermelho. Dia após dia, essa onda de frio se apossava de mim, obrigando-me a usar meus casacos mais volumosos e mesmo assim sentindo a ineficácia dos mesmos em me proporcionar um pouco de conforto.

Manhãs, tardes e noites açoitavam-me com baixas temperaturas e a chuva completava o serviço sempre que eu saía de casa. Tudo se tornara tão nebuloso e desencorajador que essa simples tarefa de atravessar a porta havia se transformado em mais um tormento. Também não me animava mais a executar nenhuma atividade e até mesmo o velho piano parecia menos acolhedor que de costume. O mundo à minha volta foi desbotando até ter as cores resumidas a uma escala de cinza fria e dura como o concreto que dava forma à cidade.

Pouco a pouco, essa neblina que se formara dentro de mim começou a transbordar e a transparecer às pessoas que conviviam comigo. Uma a uma elas foram diminuindo a frequência com que me encontravam, até não restarem mais de duas ou três que ainda se davam ao trabalho de dizer “bom dia” quando me viam. A isolação começou a fazer parte da minha rotina e isso apenas tornava as temperaturas inferiores ao que já estavam.

Até que, certo dia, a cidade amanheceu em festa. Quando finalmente tinha reunido forças para me despedir das cobertas e abrir as cortinas, pude notar que a avenida em frente ao meu quarto havia sido bloqueada durante a noite e estava toda enfeitada com faixas e flores coloridas. Tentei buscar em minha memória se aquela era uma data festiva, mas não encontrei nenhum registro que confirmasse essa hipótese. Depois de fitar por alguns momentos aquela cena atípica, voltei aos meus afazeres diários, enchendo a banheira com a água mais quente que pudesse, gastando a meia hora seguinte afundada lá dentro tentando – inutilmente – me aquecer.

Depois de me agasalhar com meias, calça, duas blusas de mangas compridas e meu casaco de lã mais grosso, apanhei minha bolsa e dirigi até o café que sempre frequentava nas manhãs de sábado. Lá, a visão que tive não foi muito diferente. Aliás, por todos os lugares onde passava, lá estavam mil fitas coloridas a enfeitar o espaço. De repente, fiquei agradecida por ser lembrada de que as cores ainda existiam e isso acendeu uma pequena faísca de emoção dentro de mim. A emoção não era alegria, pois esta já fazia bastante tempo que não vinha me fazer visitas – talvez eu nem lembrasse mais de qual era a sensação de um sorriso em meus lábios. Não, aquela sensação que acabara de brotar em mim fora a curiosidade. Isso porque aquelas cores todas me fizeram questionar o real motivo de aquilo tudo estar acontecendo.

Enquanto eu debatia com meus botões se eu teria esquecido algum evento importante, a garçonete chegou junto à minha mesa e, cuidadosamente, depositou o cardápio sobre ela. Quando virei meu rosto, encontrei uma moça jovem e bonita que me desejou bom dia com um sorriso... um sorriso tão bonito que me deixou sem jeito por não saber como retribuí-lo. Já desconcertada com o que acabara de acontecer, abri o cardápio e comecei a passar os olhos pelas opções, decidida a finalmente escolher algo diferente do que sempre comia.

A jovem atendente não demorou a voltar. Logo que percebeu que eu já havia me decidido, aproximou-se e exibiu o mesmo sorriso exuberante de minutos atrás.

- Vou querer um chocolate quente e uma porção de pães de queijo, por favor.

Então me veio um impulso que há muito também já estava esquecido, deixado para trás como pegadas na neve que encobria meus dias desde o começo do verão, quando decidi que deixaria de tomar os antidepressivos receitados pelo médico.

- Desculpe... mas você poderia me dizer que dia é hoje?

Ela não pareceu surpresa com a pergunta. Ao menos assim eu poderia descartar a opção de ter me esquecido de algum feriado ou data comemorativa importante.

- Claro. Hoje é dia treze de janeiro.

Ela exibia um semblante calmo e compreensivo. Além de permanecer com os lábios contraídos naquela moldura que me encantava.

- Ah... obrigada.

Baixei os olhos para o cardápio que ainda estava na mesa e aguardei enquanto ela tinha ido buscar meu café da manhã.

- Hoje é um dia especial, Ana.

De repente, a voz daquela garota angelical me deixou totalmente surpresa. Ela carregava em suas mãos uma bandeja com meu pedido. O cheiro do chocolate quente entrava por minhas narinas e, de alguma forma, senti como se estivessem me aquecendo por dentro com aquele doce aroma de chocolate, o meu preferido. Mas o que me deixou realmente surpresa, na verdade, tão surpresa que cheguei a ficar perturbada, foi o fato de que ela me chamou pelo meu nome.

- Acho que você não deixou de notar que a cidade está mais colorida hoje.

A comida já estava na mesa e tudo parecia acolhedor, emanando aquele calor que eu conseguia até visualizar em forma da fumaça que dela emanava. A moça continuou ali e então pediu licença para sentar-se ao meu lado.

Aquilo não podia estar acontecendo. Era totalmente inesperado, só havia uma explicação plausível para tudo: eu estava sonhando. Boquiaberta, não tive outra reação que não fosse menear a cabeça, deixando que ela puxasse uma cadeira da mesa ao lado e sentasse de frente para mim.

- Estamos comemorando hoje a chegada de alguém muito especial.

Eu mal podia processar o que ela dizia. Àquele ponto, eu já estava recebendo estímulos demais. A começar por aquele sorriso escultural dirigido a mim, o cheiro de chocolate e o calor da comida já eram tudo de maior valor que alguém poderia fazer para me agradar (mesmo que eu estivesse pagando pela comida, pois havia meses que tudo o que eu ingeria parecia igualmente frio e sem gosto). Mas o fato de ela ter se interessado pela minha presença, aquilo era o maior presente que eu poderia receber – a companhia e a atenção de alguém.

- Chegada..?

- Sim.

E com aquela confirmação, ela desarmou todas as minhas defesas, abalou-me por completo: olhou-me nos olhos.

- Estamos comemorando a sua chegada. E queremos que se sinta acolhida agora.

Subitamente, aquele olhar compassivo me fez entender. Aquela manhã era mesmo atípica. As faixas, as flores, as cores, o aroma, o calor... eu havia deixado algo para trás.

Não... eu havia deixado muita coisa para trás. Agora eu compreendia que o frio estava indo embora e que conseguia novamente enxergar o mundo com suas verdadeiras cores. Até porque, tratava-se de um novo mundo no qual eu havia chegado. A depressão havia se extinguido e ao abrir os olhos esta manhã, a palavra despertar adquirira um sentido bem maior.

E então, uma nova sensação invadiu meu peito quando pude compreender tudo aquilo. Não se tratava mais da curiosidade, nem mesmo da surpresa. Era uma sensação leve e macia, uma sensação serena que começava a preencher toda a minha alma...

Era a paz de quem deixa a vida para adentrar na eternidade.





Jejels, 12/01/2012.
Pauta para a 100ª edição conto/história do Bloínquês.

O Perfume

"...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração.

Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio.

Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas."



Patrick Suskind.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Despertando

"Expectativa",
Palavra desbotada pelo desuso
Depois de tantos dias de privação.

Agora, doce sabor de imaginação
Inebriando, despertando o pulso;
Estou viva.



Jejels, 11/01/2012.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sem Barreiras

Por que não seria o sonho convidativo
Quando tudo o que me cerca
Parece caminhar a um abismo?

Por que eu não sentiria o desejo
De atirar-me ao onírico
Se ele me oferece o que almejo?

A realidade está sempre frustrando,
Destruindo meus sonhos mais intensos,
Impondo obstáculos ao que penso,
Puxando-me para baixo, silenciando.

Por que eu não haveria de preferir
A imaginação, dinamite,
Capaz fazer tudo explodir,
Destruindo qualquer limite?



Jejels, 10/01/2012.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ignorada

Os dias passam,
O nevoeiro se aproxima,
As lembranças apagam,
O céu se torna cinza.

A distância vence imponente,
Minha palavra, impotente,
Não consegue chegar a você.

E o tempo consome
A esperança fio a fio,
À noite, no frio,
Aguardo insone.

Havia chegado, afinal
Minha voz a você
-Que apenas se negou a responder.



Jejels, 08/01/2012.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Falha de comunicação

Escrevo mil palavras,
Pairam em minha mente a cada momento
Mas não sei se é o suficiente,
Não sei se diluem no tempo.

Pronuncio mil palavras,
Jorram de minha boca num só impulso
Mas não sei se a frase é oca,
Não sei se apenas as expulso.

A comunicação não ocorre,
Não consigo me expressar,
Você consegue escutar?

Começo a pensar que estou errada
Ao tentar dizer com palavras
Tudo o que mora em minha alma.




Jejels, 06/01/2012.
Pauta para a 69ª edição poemas do Bloínquês.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Dissolução

O que posso fazer agora? Não importa o que eu fale ou faça, as coisas parecem não mudar, sinto-me cada vez mais desprezível perto de você. E como foi que isso aconteceu? De repente, tudo o que passamos juntos parece ter diluído, como se nunca tivesse existido. Você jogou fora toda a confiança que lhe dei e quebrou o lacre dos meus segredos. Depois, fez questão de reavivar o assunto toda vez que conversássemos como se a culpa fosse toda e exclusivamente minha. Sua depressão crescia ao longo dos dias e isso fez com que eu me sentisse realmente responsável por isso. A esse ponto, já ficava desesperada à procura de algo que lhe reavivasse os ânimos, que lhe despertasse interesse ou que pudesse acender uma centelha de esperança que fosse em seu coração amargurado. Minha recompensa foram atitudes cada vez mais agressivas além de revelações que me balançaram – e muito. De repente todo aquele conto de fadas estava imerso em uma sujeira em que eu não conseguia acreditar. Foi quando pude perceber as questões envolvidas e me dar conta de que você nunca foi quem eu pensei. Devo ter passado todos esses anos fantasiando, além de fechar os olhos para tudo isso que ficou escancarado agora. Sinceramente, no final, fico grata que eu tenha finalmente conseguido enxergar a verdade. Seria lamentável continuar com aquela ilusão, aquilo tudo era insustentável.
Não vou dizer que me arrependo. Vou seguir minha vida, mas não apagarei nada do que aconteceu, isso servirá para não cometer o mesmo erro. Tudo o que quero agora é arquivar essa passagem da minha vida em que tudo o que eu sabia fazer era emoldurar o céu no seu sorriso, ver o mundo através dos seus olhos. Isso apenas me fez me perder de mim mesma e supervalorizar alguém que é tão humano e imperfeito como eu.
Realmente, sua depressão acabou me levando ao limite e acabei finalmente percebendo que nada disso era culpa minha. Na verdade, sua falta de reação às minhas tentativas frustradas de te trazer de volta o interesse pela sua própria vida acabaram me deixando espiritualmente exausta. Espero que você, um dia, possa finalmente sair desse buraco – se é que isso não é mera provocação para comigo. Sinto que já devia ter deixado isso para trás há um bom tempo, mas nunca é tarde, não é mesmo? A partir de hoje, serei apenas eu no meu caminho. E espero nunca mais ter de cruzar com o seu.




Jejels, 05/01/2012.
Pauta para a 100ª edição musical do Bloínquês.