quinta-feira, 18 de abril de 2013

Estrambote melancólico

Tenho saudade de mim mesmo, 
saudade sob aparência de remorso, 
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor. 
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.



Carlos Drummond de Andrade

2 comentários:

Tamires Castro disse...

Nossa! Me identifiquei muito com esse poema... quem não carrega sentimentos violentos sobre si, que se salve! Gostei do blog! Estarei sempre por aqui. De um pulo no meu blog quando quiser aliviar uma desconhecida, com seus sentimentos gritantes e errantes... Apesar de tudo, sou uma amante da vida, assim como voce! www.tamiires-castro.blogspot.com

Tamires Castro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.