terça-feira, 28 de maio de 2013

X

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho logo mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.



Luís de Camões.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O que a gente podia ser



Fui sozinho
O meu caminho
Quem ia cuidar de mim
Melhor que eu?
Seu fatalismo
Na hora errada
A gente soube mais
Quando não sabia nada
Dei a partida
Olhando o cristo
Ao meio-dia
O que eu ia fazer,
O que eu iria fazer?
E nas ondas do mar
Eu vi você voltar
E nas ondas do mar
Eu desapareci...
Parece uma piada
Ontem fez dez anos
Desde a última vez
Que eu te olhei nos olhos
E não tem remédio
E não tem cigarro
Que acalme o diabo de pensar
O que a gente podia ser
O que a gente podia ser
(talvez dentro do mar)
E nas ondas do mar
Eu vi voce voltar
E nas ondas do mar
Eu desapareci...
(o tempo eu esperei)
Talvez dentro do mar
Talvez noutro lugar.



Vanguart.

sábado, 25 de maio de 2013

Minuccio


"Basta abrir os olhos. Há na vida coisa mais alegre e mais divertida de se ver do que o sorriso de uma linda filha de Deus? Que tristeza resistir-lhe-ia? Dai-me um jogador sem dinheiro, um magistrado senil, um amante desprezado, um cavalheiro fatigado, um político hipocondríaco, os maiores infelizes, Antônio após Actium, Brutos depois de Philippes, que sei eu? mostrai a essa gente somente uma fina face cor de pêssego, enrugada levemente pelo canto de um lábio de púrpura, em que o sorriso adeja sobre duas fileiras de pérolas; nenhum se defenderá! Aquele que agir de outra maneira declaro-o indigno de piedade, porque sua desgraça é ser imbecil."

Musset, em Carmosina. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sorry seems to be the hardest word




What have I got to do to make you love me ?
What have I got to do to make you care?
What do I do when lightning strikes me ?
And I wake to find that you¹re not there

What have I got to do to make you want me ?
What have I got to do to be heard ?
What do I say when it¹s all over?
And sorry seems to be the hardest word,

It¹s sad, so sad,
It¹s a sad ,sad situation,
And it¹s getting more and more absurd,
It¹s sad, so sad,
Why can¹t we talk it over?
Oh it seems to me
That sorry seems to be the hardest word,
What have I got to do to make you want me ?
What have I got to do to be heard ?
What do I say when it¹s all over?
And sorry seems to be the hardest word,

It¹s sad, so sad,
It¹s a sad situation,
And it¹s getting more and more absurd,
It¹s sad, so sad,
Why can¹t we talk it over?
Oh it seems to me
That sorry seems to be the hardest word

What have I got to do to make you love me ?
What have I got to do to be heard ?
What do I do when lightning strikes me ?
What have I got to do?
What have I got to do?
When sorry seems to be the hardest word?


Blue.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Na caverna

O eco das minhas palavras
Denuncia o vazio ao meu redor
E a parede em que reverberam,
A minha confinação.

Que afinação haveria
Entre os sopros de minh'alma e o mundo
Se ao redor há o vácuo e o escuro,
Isolamento e indistinção?

Seria esse lapso de pensamento uma libertação?
E estaria eu ainda em minha caverna,
Alimentando-me das sombras,
Na comodidade da inércia?

Que farei para quebrar os grilhões e caminhar para fora?
Que surpresas haverá no verdadeiro aurora?



Jejels, 23/05/2013.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Brasília: onde as ruas não têm nome

onde as ruas não têm nome
eu quero andar
andar sem direção
 
onde as ruas não tem nome
eu quero correr
correr sem nome rumo direção
 
onde as ruas não têm nome
eu quero ouvir uma banda passar
cantando coisas de mim
 
onde as ruas não têm nome
eu quero plantar casas
plantar plantas e plano pilotos
 
onde as ruas não tem nome
eu quero colocar números
dos dois lados muitas letras
onde as ruas não têm nome
 
eu quero mandar ladrilhar
 
onde as ruas não têm nome
eu quero morrer
morrer sem direção




Augusto Rodrigues, poeta goiano.
Poema transcrito do livro “Onde as ruas não têm nome”,  Thesaurus Editora

(retirado de brasiliapoetica.blog.br)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O que é - simpatia

Simpatia - é o sentimento 
Que nasce num só momento, 
Sincero, no coração; 
São dois olhares acesos 
Bem juntos, unidos, presos 
Numa mágica atração.
Simpatia - são dois galhos 
Banhados de bons orvalhos 
Nas mangueiras do jardim; 
Bem longe às vezes nascidos, 
Mas que se juntam crescidos 
E que se abraçam por fim.
São duas almas bem gêmeas 
Que riem no mesmo riso, 
Que choram nos mesmos ais; 
São vozes de dois amantes, 
Duas liras semelhantes, 
Ou dois poemas iguais.
Simpatia - meu anjinho, 
É o canto de passarinho, 
É o doce aroma da flor; 
São nuvens dum céu d'agosto 
É o que m'inspira teu rosto... 
- Simpatia - é quase amor!


Casimiro de Abreu

Portentosamente mulher

Porque a noite era propícia,
De enfeites estelares, porém, quebradiça,
Ao retornar a dúvida perante teus olhos iluminados,
Decidi ater-me ao momento,
Deixar fluir, ao menos uma vez, o anseio
Livre de qualquer predileção pelo perfeito.

Postas as cartas, armado o cenário,
Dei-me conta de que a chave repousava ao chão:
Na passagem, não mais trancada já há certo tempo,
Repousava minha mão sem o mesmo lamento.

Não, não restavam mais correntes em pensamento,
A sentença estava dada sem mais julgamento.
Apenas um movimento espontâneo
E girava a maçaneta como quem se entrega à  maré
Num lampejo de vida, por fim, à  emoção da batida,
O anjo tornou-se mulher.



Jejels, 20/05/2013.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A forca do afeto

É que o afeto machuca.
O amor é um laço que estreita,
Aperta o peito.
Às vezes, sem jeito,
Passa ao pescoço
E ali me enforca.

É que a dor persiste,
Mas por que tão insistente?
O que meu coração sente
Não posso controlar.

É que não encontro motivo
Que explique o desatino
Da ferida que é perder,
Uma vez que nunca tive você.


Jejels, 16/05/2013.

domingo, 12 de maio de 2013

I don't wanna talk about it




I can tell by your eyes
That you've probably been crying forever
And the stars in the sky don't mean nothing
To you, they're a mirror.

I don't wanna talk about it
How you broke my heart
If I stay here just a little bit longer
If I stay, won't you listen to my heart?
Oh, my heart...

If I stand all alone
Will the shadows hide the colors of my heart?
Blue for the tears, black for the night's fears
The stars in the sky don't mean nothing to you
They're a mirror.

I don't wanna talk about it, how you broke my heart.
But if I stay here just a little bit longer,
If I stay here, won't you listen to my heart?
Oh, my heart...


Rod Stewart.

Na contramão

O que seria esse toque,
Essa aproximação inebriante, cálida?
O que seria esse instante que desperta e convida?

Seria apenas a carência apossando-se do corpo?
Seria uma fantasia que outrora não passava de sopro?
Ou platônica paixão, tal que me assombro?
Seria isso o vermelho da alma em chamas?
Ou apenas por prazer passageiro me chamas?

Seria tudo isso a linha do desejo,
Aquela que une teus lábios aos meus,
Aquela que apenas em sonho poderia chegar ao apogeu?
Aquela que seria impossível de se alcançar,
A mesma que se apagaria ao conquistarmos a possibilidade de se realizar?

Beijas-me por amor que se mistura
-pelo sangue e pela paixão-
Ou apenas pela aventura de estar na contramão?



Jejels, 12/05/2013.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Amor e medo

I

Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! Bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
" - Meu Deus! Que gelo, que frieza aquela!"

Como te enganas! Meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela - eu moço; tens amor - eu medo!...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me intumesce os seios.
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea - ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! Se abrasado crepitasse o cedro
Cedendo ao raio que a tormenta envia.
Diz: - que seria da plantinha humilde
Que à sombra dele tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho;
E a pobre nunca reviver pudera
Chovesse embora paternal orvalho!

II

Ai! Se eu te visse no valor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco.
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...

Ai se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos - palpitante o seio!...

Ai se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: - que seria da pureza d'anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
- Tu te queimaras, a pisar descalça,
- Criança louca, - sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,

- Olhos pisados - como um vão lamento,
Tu perguntaras: - qu'é da minha c'roa?...
Eu te diria: - desfolhou-a o vento!...

---------

Oh! Não me chamas coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!...





Casimiro de Abreu

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!



Casimiro de Abreu

Boa noite

Boa noite,
Melhor você descansar.
Boa noite,
Você tem sonhos a sonhar.
Boa noite,
As estrelas vão apagar
Após cantar uma canção de ninar.
Boa noite,
Um abraço se alastrará
Até quem merecer e souber amar.
Alguém que veja além do que é seu.
Alguém que não seja como eu.


Jejels, 01/05/2013.

Asking the night


Shall the music go with me,
The only companion I may have?
Shall this loneliness in me
Be stronger than I guess?

Might my life end up this way,
Without a dream coming true?
Must I eternally sway
Between being happy and blue?

Will this road drive me mad,
Constantly throwing me on the floor
After I believe I can reach another flat?
Will I, at last, end up alone?


Jejels, 01/05/2013.