segunda-feira, 28 de abril de 2014

Regador

Macio acolhimento,
Cinco toques em minha mão
Desmancham o tormento.

Terno reflexo,
Um par deles, diretos,
Viram-me ao avesso.

E cálido apego,
Esse súbito selo
De um desejo aceso.

Sutileza da rosa,
Um desabrochar,

Recomeçar...


Jejels, 27/04/2014.

sábado, 26 de abril de 2014

O espelho

Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo. Surpreendo-me, porém, um tanto à parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha ideia do que seja, na verdade — um espelho? Decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da ótica. Reporto-me ao transcendente, todavia...
O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com aspecto próprio e praticamente inalterado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas — que espelho? Há-os bons e maus, os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar o nível e ponto dessa honestidade ou fidedignidade? 
Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível? O senhor dirá: as fotografias o comprovam. Respondo: que, além de prevalecerem para as lentes das máquinas objeções análogas, seus resultados apoiam antes que desmentem a minha tese, tanto revelam superporem-se aos dados iconográficos os índices do misterioso. Ainda que tirados de imediato, um após outro, os retratos sempre serão entre si muito diferentes. E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem, grosso modo, para o falquejo das formas, não para o explodir da expressão, o dinamismo fisionômico. Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando. 
Resta-lhe argumento: qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho. O experimento, por sinal ainda não realizado com rigor, careceria de valor científico, em vista das irredutíveis deformações, de ordem psicológica. Além de que a simultaneidade torna-se impossível, no fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o mágico de todas as traições... E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz brecha para rir-se da gente...
Vejo que começa a descontar um pouco de sua inicial desconfiança quanto ao meu são juízo. Fiquemos, porém, no terra a terra. Rimo-nos, nas barracas de diversões, daqueles caricatos espelhos, que nos reduzem a mostrengos, esticados ou globosos. Mas, se só usamos os planos, deve-se a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagoas, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse... 
Sim, são para se ter medo, os espelhos...


João Guimarães Rosa. 
O espelho. In: Primeiras estórias. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, v. 2, p. 437-55 (com adaptações).

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Paixão onírica

Por que tens olhos tão doces
E a fisionomia tão bela?
E o beijo tão surreal... para onde fostes?

Tão confortante o olhar,
Mas meu coração faz desesperar
Quando percebo tua ausência.

Um nome, uma direção?
Não tenho uma única informação
Que me conduza de volta a ti.

Mistério que consome,
Faz-me sofrer tanto temor
De que não o encontre,
Irrealizado amor.

E no clímax de minha busca,
A luz do dia me ofusca,
A realidade a me tirar a fantasia,
O coração palpitando em agonia.


Jejels, 24/04/2014.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Don't say a word

Algumas feridas,
Minúcias ditas,
Melodias distraídas;

Alguns deslizes,
Dias infelizes,
Distrações motrizes;

Enfim, algumas cicatrizes
Formam marca na pele,
Quando o que se fere
Está além do visível...


Jejels, 10/04/2014.

Tempestade elétrica

Clarão,
Um rasgo no céu negro,
Um flash, revelação de segredo,
A natureza a surpreender o homem.


Jejels, 09/04/2014.