terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A (s)sombra

A velha sombra da insegurança volta a cair sobre mim com seu abraço desconfortável. Lembranças que pareciam distantes e desbotadas voltam a tomar forma e pesar em meu coração, confundir minha cabeça com dúvidas e medos. Cada um dos pequenos momentos, com suas doses ínfimas ou moderadas de insegurança vão se juntando até se tornarem pontiagudas e impossíveis de ignorar. Palavras e pensamentos de noites insones antes distantes, voltam a pingar da caneta que minha mão empunha e os rios de sentimento voltam a fluir, um concentrado de incômodos e desamparos.

                Os olhos, antes tão brilhante e carinhosos, mudam de cor e expressão, a boca se retorce em desaprovação. O abraço que antes acolhia, torna-se um braço a afastar bruscamente. “Não me toque”, diz seu corpo. “Não se aproxime”, diz o olhar. E minha voz não sai, embargada de tristeza e enlaçada com um doloroso nó que queima minha garganta. Por meus olhos saem as palavras não ditas. E se não as ouve, escrevo-as, porque dói demais guarda-las apenas para mim. Elas arranham a alma, enchem de tristeza lembranças felizes, lembranças que eu gostaria de manter imaculadas. Lembranças de quando tudo era simples. As palavras fluíam com graça, sem a preocupação de serem reprimidas em seguida. Os gestos atraíam, acariciavam e consolavam. O interesse mútuo e extremamente intenso floria sem nenhuma vergonha de ser, sem nenhuma barreira que nos interpusesse. Outras coisas eram apenas outras coisas e não pareciam ameaças. O duo se sobrepunha a todo e qualquer outro cenário. Os pequenos problemas e instabilidades eram colocados à mesa e destrinchados um a um, sem qualquer acusação ou repreensão. Agora estão todos sendo varridos gradualmente para debaixo do tapete. Um a um. E por menores que fossem ou sejam, escondê-los não os faz esquecidos, mas deixa marcas, volumes, protuberâncias. E é agora a sombra da insegurança que emerge da montanha debaixo do tapete que me atordoa. E a esse ponto, já é impossível fingir que não está aqui. 


Jejels, janeiro 2018

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Pensamento esperançoso

Que maravilhoso pôr-do-sol seria
Meu olhar no seu que derreteria
Em ternura no calor de um reencontro
Num conto de uma aventura de amor...


Jejels, novembro 2016.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Lembrança de um beijo

Nos teus olhos, um universo
Infinito e desconhecido,
Veloz meteorito
Em rota de colisão ao meu peito.
Feito o destino,
Expande em novo verso
A unidade de um amor...
Nova galáxia nasce com furor.


Jejels, dezembro 2016.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Saudade

Em um ponto se resume minha presença,
Minha existência silencia
Encerrada com cadeado em sentença
De que a companhia que eligi não me acompanha
E todos os outros que me rodeiam
São apenas algo que me recorda
A ausência e a demora.


Jejels, novembro 2016.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Mais uma vez

Mais uma vez sozinha
Num canto escuro, a cama
Parece cada vez mais vazia.

Sinto meu corpo diminuir
Secando a cada lágrima desconsolada
Sabendo que ninguém vai ouvir.

A noite cai sobre mim
Com as lembranças do que foi
O dia que chegou ao fim.

Potenciais que não se realizaram,
Cores que não coloriram,
Sorrisos que se calaram.

A esperança que se quebra
Em estilhaços minúsculos
Que a noite dispersa.

Mais uma vez sozinha
Num canto escuro, a alma
Padece cada vez mais vazia.


Jejels, 03/02/2017.